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terça-feira, 27 de outubro de 2020

Atividade sobre o filme "Kiriku e a Feiticeira" (1 h 11 min)


Sinopse: Kiriku é um menino prematuro, muito pequeno, mas muito inteligente, corajoso e com dons especiais. Sua mãe lhe conta que a aldeia onde eles vivem é amaldiçoada por uma feiticeira chamada Karabá, que tirou toda a água e riquezas que eles possuíam, e que devorava todos os homens que iam tirar satisfações com ela. Revoltado com esse tamanho abuso, Kiriku decide que não quer ficar parado enquanto os homens da aldeia lutam e se esconde no chapéu de seu tio, para poder acessar a feiticeira. Assim começa a aventura desse menino tão valente! (Duração: 1 h 11 min)

01) Justifique o título dado ao filme: 

02) Em que continente a história se passa? 

03) Quem são os protagonistas dessa história? Caracterize-os, utilizando só adjetivos:

04) Descreva como era a vida na tribo em que Kiriku morava: 

05) Por que as mulheres andavam com os seios de fora e as crianças viviam nuas? 

06) Como as pessoas da aldeia celebravam seus momentos de alegria? O que você pensa a respeito disso? 

07) Que dons especiais possuía Kiriku? Qual era a sua missão? 

08) Você acha que Kiriku sofria bullying? Justifique sua resposta:

09) Cite um problema pelo qual a mãe de Kiriku passou: 

10) Para que Kiriku procurou o sábio da montanha? Qual era o parentesco deles? 

11) De que ato de coragem de Kiriku você mais gostou? 

12) Qual era o motivo que Karabá tinha para ser tão má? O que você pensa sobre isso? 

13) Por que o tamanho de Kiriku, motivo de zoação para alguns, acabou ajudando-o? O que isso revela? 

14) Sobre Karabá foi dito que "Ela sofre noite e dia. A maldade não surge do nada, mas é resultado de algum sofrimento". Posicione-se sobre tal afirmação, argumentando bem: 

15) O que faz você sofrer? Você acha que as pessoas podem diminuir ou acabar com o sofrimento alheio? Como? 

16) Kiriku confidenciou ao avô que às vezes fica cansado de lutar sozinho, se sente muito pequeno e morre de medo. Você já se sentiu assim? 

17) Que mensagem o filme transmite? Comente: 

18) Kiriku corresponde à imagem esperada de herói? Justifique bem a sua resposta: 

19) Cite duas características dos povos africanos abordadas no filme: 

20) De que parte do filme você mais gostou? Por quê? 

21) Você concorda que quanto mais medo se sente de alguém mais poder se dá a ele? Justifique sua resposta: 

22) Por que Kiriku conseguiu derrotar a feiticeira? O que isso revela? 

23) O que você achou do final do filme? Ele foi ou não surpreendente? 


(Filme indicado pela colega de grupo: Adriana Rocha)

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Atividade sobre o conto "A fogueira", de Mia Couto


 
A fogueira

A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem sadio no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados. 
A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho. 
O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso. 
"Meu marido está diminuir", pensou ela. "É uma sombra".
Sombra, sim, Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
-- Estou a pensar. 
-- E o quê, marido?
-- Se tu morres como que eu, sozinho, doente e sem as forças, como que eu vou-lhe enterrar?
Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
-- Somos pobres. só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir a tua cova, mulher. 
A mulher, comovida, sorriu:
-- Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. 
O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:
-- Vou ver se encontro uma pá.
-- Onde podes levar uma pá?
-- Vais daqui até na cantina? É uma distância. 
-- Hei-de vir da parte da noite. 
Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.
-- Então, marido?
-- Foi muito caríssima -- e levantou a pá para melhor a acusar. 
-- Amanhã de manhã começo o serviço de covar. 
E deitaram-se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu-lhe o adormecer:
-- Mas, marido... 
-- Diz lá. 
-- Eu nem estou doente.
-- Deve ser que estás. Você és muito velha. 
-- Pode ser -- concordou ela. E adormeceram. 
Ao outro dia, de manhã, ele olhava-a intensamente. 
-- Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é a maior que eu pensava. 
-- Nada, sou pequena. 
Ela foi à lenha e arrancou alguns toros. 
-- A lenha está para acabar, marido. Vou ao mato levar mais. 
-- Vai, mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério. 
Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
-- Olha, velho. Estou a pedir uma coisa...
-- Queres o quê?
-- Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho. 
-- Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra. 
Durante duas semanas o velho dedicou-se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram. 
-- Não fala asneiras, vai ser dado o castigo -- aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra. 
-- Sai da chuva, marido. Você não aguenta assim. 
-- Não barulha, mulher -- ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele ou se a chuva. 
No dia seguinte, o velho foi acordado pelos seus próprios ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.
-- Estou a doer-me, mulher. Já não aguento levantar.
A mulher virou-se para ele e limpou-lhe o suor do rosto. 
-- Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste. 
-- Não, mulher. Foi que dormi perto da fogueira. 
-- Qual fogueira?
Ele respondeu um gemido. A velha assustou-se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?
Levantou-se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou-se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar. 
-- Marido, não vai assim. Come primeiro. 
Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:
-- Você está a esquerdear, a direitar. Descansa lá um bocado. 
Ele estava já dentro do buraco e preparava-se para retomar a obra. A febre castigava-lhe a teimosia, as tonturas danando com os lados do mundo. De repente, gritou-se num desespero:
-- Mulher, ajuda-me. 
Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer. 
-- Estás muito doente. 
Puxando-o pelos braços ela trouxe-o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte um simples deslizar, um recolher de asas. Não um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha. 
-- Mulher -- disse ele com voz desaparecida. -- Não lhe posso deixar assim. 
-- Estás a pensar o quê? 
-- Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar-te. 
-- É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim. 
-- Sim, hei-de matar você; hoje não, falta-me o corpo. 
Ela ajudou-o a erguer-se e serviu-lhe uma chávena de chá. 
-- Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força. 
O velho adormeceu, a mulher sentou-se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu-se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou-se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba ergueu-se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar-se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram-na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho. Pediu à noite que ficasse para demorar o sonho, pediu com tanta devoção como pedira a vida que não lhe roubasse os filhos. 
Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar fora naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que ele estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera. 

(Mia Couto - "Vozes anoitecidas")
01) Justifique o título dado ao conto:

02) Qual é o assunto central nele presente? Justifique sua resposta: 

03) Copie do texto duas antíteses, mencionando que efeito elas trouxeram ao texto: 

04) Transcreva do conto fortes marcas de oralidade, comparando-as com a forma correspondente na norma padrão: 

05) O que pode representar a cova aberta pelo marido? 

06) O que a fogueira está representando no texto? Trata-se do sentido denotativo ou conotativo presente? Justifique sua resposta: 

07) Localize no texto uma comparação, explicando a sua utilização para o contexto: 

08) Comente a presença dos elementos de negação na passagem destacada no texto: 

09) Circule no texto todos os vocativos encontrados: 

10) Copie do conto uma personificação, explicando seu raciocínio: 

11) Transcreva do texto uma passagem com um certo humor: 

12) Justifique o emprego das aspas no começo do texto: 

13) O final foi esperado ou surpreendente? Por quê? 

14) A cova, afinal, foi feita em vão? O que você pensa a respeito disso? 

15) Que mensagem o conto transmite? Comente: 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Atividade sobre o conto "O gato e o escuro", de Mia Couto

 O gato e o escuro

Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cima desta história. Pois ele nem sempre foi dessa cor. Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas. Todos lhe chamavam o Pintalgato. Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto. Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro. O caso, vos digo, não é nada claro. Aconteceu assim: o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente. A mãe se afligia e pedia:
-- Nunca atravesse a luz para o lado de lá. 
Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo. Mas fingia obediência. 
Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá. Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam. 
Certa vez, inspirou coragem e passou uma perna para o lado de lá, onde a noite se enrosca a dormir. Foi ganhando mais confiança e, de cada vez, se adentrou um bocadinho. Até que a metade completa dele já passara a fronteira, para além do limite. 
Quando regressava de sua desobediência, olhou as patas dianteiras e se assustou. Estavam pretas, mais que breu. 
Escondeu-se num canto, mais enrolado que o pangolim. Não queria ser visto em flagrante escuridão. 
Mesmo assim, no dia seguinte, ele insistiu na brincadeira. E passou mesmo todo inteiro para o lado de além da claridade. À medida que avançava seu coração tiquetaqueava. Temia o castigo. Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou, atravessando a imensa noitidão.
Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos. Olhou o corpo e viu que já nem a si se via. Que aconteceu? Virara cego? Por que razão o mundo se embrulhava num pano preto? 
Chorou. 
Chorou.
Chorou. 
Pensava que nunca mais regressaria ao seu original formato. 
Foi então que ouviu uma voz dizendo:
-- Não chore, gatinho. 
-- Quem é? 
-- Sou eu, o escuro. Eu é que devia chorar porque olho tudo e não vejo nada. 
Sim, o escuro, coitado. Que vida a dele, sempre afastado da luz! 
Não era de sentir pena? Por exemplo, ele se entristecia de não enxergar os lindos olhos do bichano. 
Nem os seus mesmo ele distinguia, olhos pretos em corpo negro. Nada, nem a cauda nem o arco tenso das costas. Nada sobrava de sua anterior gateza. 
E o escuro, triste, desabou em lágrimas. 
Estava-se naquele desfile de queixas quando se aproximou uma grande gata. Era a mãe do gato desobediente. O gatinho Pintalgato se arredou, receoso que a mãe lhe trouxesse um castigo. Mas a mãe estava ocupada em consolar o escuro. E lhe disse:
-- Pois eu dou licença a teus olhos: fiquem verdes, tão verdes que amarelos. 
E os olhos do escuro se amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto. 
O escuro ainda chorava:
-- Sou feio. Não há quem goste de mim. 
-- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros. 
-- Então porque não figuro nem no arco-íris? 
-- Você figura no meu arco-íris. 
-- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro. 
-- Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós. 
-- Não entendo, Dona Gata. 
-- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?
-- Não estou claro, Dona Gata. 
-- Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos. 
A mãe gata sorriu bondades, ronronou ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro. 
E foram carícias que ela lhe dedicou, muitas e tantas que o escuro adormeceu. Quando despertou viu que as suas costas estavam das cores todas da luz. Metade do seu corpo brilhava, arco-iriscando. 
Afinal?
O espanto ainda o abraçava quando escutou a voz da gata grande:
-- Você quer ser meu filho?
O escuro se encolheu, ataratonto:
-- Filho?
Mas ele nem chegava a ser coisa alguma, nem sequer antecoisa. 
-- Como posso ser seu filho se eu nem sou gato?
-- E quem lhe disse que não é?
E o escuro sacudiu o corpo e sentiu a cauda, serpenteando o espaço. Esticou a perna e viu brilhar as unhas, disparadas como repentinas lâminas. 
O Pintalgato até se arrepiou, vendo um irmão tão recente. 
-- Mas, mãe: sou irmão disso aí? 
-- Duvida, Pintalgatito? Pois vou-lhe provar que sou mãe dos dois. Olhe bem para os meus olhos e verá. 
Pintalgato fitou o fundo dos olhos da sua mãe, como se se debruçasse num poço escuro. De rompante, quase se derrubou, lhe surgiu como que um relâmpago atravessando a noite. 
Pintalgato acordou, todo estremolhado, e viu que, afinal, tudo tinha sido um sonho. Chamou pela mãe. Ela se aproximou e ele notou seus olhos, viu uma estranheza nunca antes reparada. Quando olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam encherem de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas. 
Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam, claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta. 
Então, o gatinho Pintalgato espreitou nessa fenda escura como se vislumbrasse o abismo. 
Por detrás dessa fenda o que é que ele viu? 
-- Adivinham?
Pois ele viu um gato preto, enroscado do outro lado do mundo. 

(Mia Couto)

01) Justifique o título dado ao texto:

02) Qual o assunto central do conto? Justifique sua resposta: 

03) Quem é o protagonista? Que transformação ele sofreu? 

04) O que provocou tal transformação? 

05) Quem foi a informante do narrador? 

06) Responda à pergunta destacada no texto: 

07) Localize no texto exemplos de personificação, explicando bem: 

08) Posicione-se sobre a afirmação em destaque no texto, argumentando bem: 

09) Que efeito forneceu ao conto a repetição do verbo "chorou"? 

10) Circule no texto os vocativos, mencionando sua importância para o contexto: 

11) Copie do conto dois pares de antíteses, explicando seu raciocínio: 

12) Transcreva do texto exemplos de neologismos, mencionando suas formações e os seus sentidos: 

13) As duas palavras CLARO, destacadas no texto, possuem o mesmo sentido? Explique bem: 

14) O que significa "A linha onde o dia faz fronteira com a noite"? 

15) O que o gato percebeu nos olhos da mãe? 

16) Como você compreendeu o final da história? Explique: 

17) Que mensagem o conto transmite? Comente:

domingo, 13 de setembro de 2020

Atividade sobre o texto "Inundação", de Mia Couto

Inundação

Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança. 
A casa, aquela casa nossa, era morada mais da noite do que dia. Estranho, dirão. Noite e dia não são metades, folha e versos? Como podiam o claro e o escuro repartir-se em desigual? Explico. Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse à noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre. 
Certa vez, porém, de nossa mãe escutamos o pranto. Era um choro delgadinho, um fio de água, um chilrear de morcego. Mão em mão, ficamos à porta do quarto dela. Nossos olhos boquiabertos. Ela só suspirou:
-- Vosso pai já não é meu. 
Apontou o armário e pediu que o abríssemos. A nossos olhos, bem para além do espanto, se revelaram os vestidos envelhecidos que meu pai há muito lhe ofertara. Bastou, porém, a brisa da porta se abrindo para que os vestidos se desfizessem em pó, e, como cinzas, se enevoassem pelo chão. Apenas os cabides balançavam, esqueletos sem corpo. 
-- E agora -- disse a mãe --, olhem para estas cartas. 
Eram apaixonados bilhetes, antigos, que minha mãe conservava numa caixa. Mas agora os papéis estavam brancos, toda a tinta se desbotara. 
-- Ele foi. Tudo foi.
Desde então, a mãe se recusou a deitar no leito. Dormia no chão. A ver se o rio do tempo a levava numa dessas invisóveis enxurradas. Assim dizia, queixosa. Em poucos dias, se aparentou às sombras, desleixando todo seu volume. 
-- Quero perder todas as forças. Assim não tenho mais esperas.
-- Durma na cama, mãe.
-- Não quero. Que a cama é engolidorade saudade. 
E ela queria guardar aquela saudade. Como se aquela ausência fosse o único troféu de sua vida. 
Não tinham passado nem semanas desde que meu pai se volatilizara quando, numa certa noite, não me desceu o sono. Eu estava pressentimental, incapaz de me guardar no leito. 
Fui ao quarto de meus pais. Minha mãe lá estava, envolta no lençol até à cabeça. 
Acordei-a. O seu rosto assomou à penumbra doce que pairava. Estava sorridente. 
-- Não faça barulho, meu filho. Não acorde seu pai.
-- Meu pai?
-- Seu pai está aqui, muito comigo. 
Levantou-se com cuidado de não desalinhar o lençol. Como se ocultasse algo debaixo do pano. Foi à cozinha e serviu-se de água. Sentei-me com ela, na mesa onde se acumulavam as panelas do jantar. 
-- Como eu o chamei, quer saber?
Tinha sido o seu cantar. Que eu não tinha notado, porque o fizera em surdina. 
Mas ela cantara, sem parar, desde que ele saíra. E agora, olhando o chão da cozinha, ela dizia:
-- Talvez minha voz seja um pano; sim, um pano que limpa o tempo.
No dia seguinte, a mãe cumpria a vontade de domingo, comparecida na igreja, seu magro joelho cumprimentando a terra. Sabendo que ela iria demorar eu voltei ao seu quarto e ali me deixei por um instante. A porta do armário escancarada deixava entrever as entranhas da sombra. Me aproximei. A surpresa me abalou: de novo se enfurnavam os vestidos, cheios de formas e cores. De imediato, me virei a espreitar a caixa onde se guardavam as lembranças de namoro de meus pais. A tinta regressara ao papel, as cartas de meu velho pai se haviam recomposto? Mas não abri. Tive medo. Porque eu, secretamente, sabia a resposta. 
Saí  no bico do pé, quando senti minha mãe entrando. E me esgueirei pelo quintal, deitando passo na estrada de areia. Ali me retive a contemplar a casa como que irrealizada em pintura. Entendi que por muita que fosse a estrada eu nunca ficaria longe daquele lugar. Nesse instante, escutei o canto doce de minha mãe. Foi quando eu vi a casa esmorecer, engolida por um rio que tudo inundava. 

(Mia Couto)

01) Justifique o título dado ao texto acima:

02) Por que, para o narrador, as lembranças não são peixes e sim aves? Posicione-se com relação a isso: 

03) Sabendo que antítese é a oposição de palavras, copie do texto dois pares dela:

04) Prosopopeia consiste em atribuir ações humanas a seres inanimados. Ciente disso, transcreva um bom exemplo do texto: 

05) O que significa a frase destacada no texto? Explique:

06) Considerando que vocativo é uma expressão utilizada para se dirigir a alguém, circule no texto dois exemplos: 

07) Explique a passagem "A cama é engolidora de saudade": 

08) Você acha que a "inundação" a que se refere o texto encontra-se no sentido denotativo (real) ou conotativo (figurado)? Comprove com uma passagem do texto: 

09) Metáfora é uma figura de linguagem que produz sentidos figurados por meio de comparações. Localize no texto duas que bem a represente: 

10) O que você acha que aconteceu no último parágrafo? Explique:

11) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Atividades sobre literatura africana - Ubuntu e provérbios


Ontem assisti, na minha escola, junto com alguns colegas e alguns alunos da minha turma 3007, a uma palestra sobre formas de se combater o racismo, com meu querido amigo Sérgio Rodrigues dos Santos, o famoso Serjão, um guerreiro lindo e companheiro de lutas e de resistência. Também levou uma convidada linda, a Karla Barreto, que, grávida, abrilhantou ainda mais o momento, e me emocionou demais contando uma história linda, que eu ainda não conhecia, mesmo sendo uma pesquisadora e curiosa: o UBUNTU! Trata-se de uma lenda africana que fala lindamente sobre cooperação e empatia! 

Um antropólogo visitou um povoado africano e, para conhecer sua cultura e seus valores, resolveu propor às crianças de lá uma brincadeira. Colocou um cesto de frutas perto de uma árvore e disse a elas que a primeira que chegasse à árvore poderia ficar com o cesto e comer todas as frutas. Quando o homem deu o sinal para que começassem a corrida em direção ao cesto, aconteceu algo inusitado: as crianças deram as mãos umas as outras e começaram a correr juntas. Ao chegarem ao mesmo tempo, TODAS puderam desfrutar do prêmio, então se sentaram e repartiram as frutas.

Intrigado, o antropólogo lhes perguntou por que tinham feito isso, quando somente uma poderia ter ficado com todo o cesto. Uma das crianças respondeu: -- "Ubuntu" Como um de nós poderia ficar feliz se o resto estivesse triste?! O homem ficou impressionado pela resposta tão sensata e empática desse pequeno. Eu também. "Ubuntu" é uma antiga palavra africana que, na cultura Zulu e Xhosa, significa "Sou quem sou porque somos todos nós". É uma filosofia que consiste em acreditar que, cooperando, se consegue a harmonia, já que se consegue a felicidade de todos. Lindo, não? E fico pensando se fosse aqui no nosso país, com crianças já tão competitivas, egoístas, mimadas, com raras exceções... 

Contei essa história para o meu filho Miguel, que, como eu, também ficou nitidamente emocionado... e achei o nome lindo, tanto que se eu tivesse um outro filho, independente das piadas, ele assim se chamaria! 


No final da palestra, a Karla ainda levou um potinho cheio de frases e provérbios africanos e cada um tirava um e compartilhava a leitura, se sentisse vontade. Pra mim veio este da foto, que achei a minha cara, pois sou um ser extremamente interrogativo, o tempo todo, e nem sempre as respostas vêm, pelo menos não diretamente e não de imediato, mas eu as busco e não as evito. Penso que tudo é troca, tem que ser! Somos trocas de energia e a salvação está mesmo numa só coisa: EMPATIA. Tão falada, mas tão pouco colocada em prática... então... "Ubuntu"!!! Que a gente se lembre sempre de escolher repartir as frutas do cesto com nossos semelhantes e não comer sozinho e se sentindo vitorioso ou melhor do que ninguém! #ficaadica


Pra finalizar, compartilho aqui alguns provérbios africanos... 

01) "Quem faz perguntas, não pode evitar as respostas".

02) "Uma mentira estraga mil verdades".

03) "Aquele que não cultiva seu campo, morrerá de fome".

04) "O tolo tem sede no meio da água".

05) "Um inimigo inteligente é melhor do que um amigo estúpido".

06) "Se você está construindo uma casa e um prego quebra, você deixa de construir ou você muda o prego?"

07) "Um camelo não zomba da corcunda de outro camelo".

08) "Até que os leões tenham as suas histórias, os contos de caça glorificarão sempre o caçador".

09) "A lua move-se lentamente, mas cruza a cidade".

10) "A união do rebanho obriga o leão a ir dormir com fome".

11) "A água sempre descobre um meio".

12) "É melhor ser amado do que ser temido".

13) "A igualdade não é fácil, mas a superioridade é dolorosa".

14) "O vento não quebra uma árvore que se dobra".

15) "Não pise no rabo do cachorro e ele não o morderá".

16) "Não chame a floresta que o abriga de selva".

17) "Se sua língua se transformar em uma faca, cortará a sua boca";

18) "Quando as teias de aranha se juntam, elas podem amarrar um leão".

19) "Se você danificar o caráter do outro, você danifica o seu próprio".

20) "A chuva bate na pele do leopardo, mas não tira as suas manchas".

21) "Ninguém testa a profundidade do rio com ambos os pés."

22) "Uma vaca tem que pastar onde ela está amarrada".

23) "Quando o galo está bêbado, esquece-se do gavião".

24) "O dinheiro é mais afiado do que uma espada".

25) "Quando um rei tem conselheiros bons, seu reino é pacífico".

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Atividade sobre o texto "As mãos dos pretos", de Luís Bernardo Honwana


As mãos dos pretos

Já não sei a que propósito é que isto vinha, mas o senhor professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo. Lembrei-me disso quando o senhor padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores que nós, voltou a falar nisso de que as mãos serem mais claras, dizendo que isso era assim porque eles andavam com elas às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar.
Eu achei um piadão tal a essa coisa de as mãos dos pretos serem mais claras que agora é ver-me não largar seja quem for enquanto não me disser porque é que eles têm as mãos assim tão claras. A Dona Dores, por exemplo, disse-me que Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deve ficar senão limpa. 
O Antunes da Coca-Cola, que só aparece na vila de vez em quando, quando as Coca-Colas das cantinas já tenham sido vendidas, disse que o que me tinham contado era aldrabice. Claro que não sei se realmente era, mas ele garantiu-me que era. Depois de lhe dizer que sim, que era aldrabice, ele contou então o que sabia desta coisa das mãos dos pretos. Assim:
-- Antigamente, há muitos anos, Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Virgem Maria, São Pedro, muitos outros santos, todos os anjos que nessa altura estavam no céu e algumas pessoas que tinham morrido e ido para o céu, fizeram uma reunião e resolveram fazer pretos. Sabes como? Pegaram em barro, enfiaram em moldes usados de cozer o barro das criaturas, levaram-nas para os fornos celestes; como tinham pressa e não houvesse lugar nenhum ao pé do brasido, penduraram-nas nas chaminés. Fumo, fumo, fumo e aí os tens escurinhos como carvões. E tu agora queres saber porque e que as mãos deles ficaram brancas? Pois então se eles tiveram de se agarrar enquanto o barro deles cozia?!
Depois de contar isto, o Senhor Antunes e os outros senhores que estavam à minha volta desataram a rir, todos satisfeitos. 
Nesse mesmo dia, o Senhor Frias chamou-me, depois de o Senhor Antunes se ter ido embora, e disse-me que tudo o que eu tinha estado para ali a ouvir de boca aberta era uma grandessíssima pêta. Coisa certa e certinha sobre isso das mãos dos pretos era o que ele sabia: que Deus acabara de fazer os homens e mandava-os tomar banho num lago do céu. Depois do banho, as pessoas estavam branquinhas. Os pretos, como foram feitos de madrugada e a essa hora a água do lago estivesse muito fria, só tinham molhado as palmas das mãos e dos pés, antes de se vestirem e virem para o mundo.
Mas li num livro que por acaso falava nisso, que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco da Virgínia e de mais não sei onde. Já se vê que Dona Estefânia não concordou quando eu lhe disse isso. Para ela, é só por as mãos deles desbotarem à força de tão lavadas.
Bem, eu não sei o que vá pensar disso tudo, mas a verdade é que, ainda que calosas e gretadas, as mãos dum preto são mais claras que todo o resto dele. Essa é que é essa!
A minha mãe é a única que deve ter razão sobre essa questão das mãos dos pretos serem mais claras do que o resto do corpo. No outro dia em que falávamos nisso, eu e ela, estava-lhe eu ainda a contar o que já sabia dessa questão e ela já estava farta de rir. O que achei esquisito foi que ela não me dissesse logo o que pensava disso tudo, quando eu quis saber, e só tivesse respondido  depois de se fartar de ver que eu não me cansava de insistir sobre a coisa, e esmo até chorar, agarrada à barriga como quem não pode mais de tanto rir. O que ela disse foi mais ou menos isto:
-- Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha de os haver, meu filho. Ele pensou que realmente tinha de os haver... Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para casa deles para os pôr a servir de escravos ou pouco mais. Mas como Ele já não os pudesse fazer ficar todos brancos, porque os que já se tinham habituados a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exatamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes porque é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar o que os homens fazem é apenas obra dos homens... Que o que os homens fazem é efeito por mãos iguais, mãos de pessoas que se tivessem juízo sabem que antes de serem qualquer coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Deus fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos.
Depois de dizer isso tudo, a minha mãe beijou-me as mãos.
Quando fui para o quintal, para jogar à bola, ia a pensar que nunca tinha visto uma pessoa a chorar tanto sem que ninguém lhe tivesse batido. 
(Luís Bernardo Honwana)

01) Justifique o título empregado no texto: 

02) Quem é o narrador? Qual a idade estimada dele?

03) Que dúvida esse narrador tem e que é insistente?

04) Que comparação é feita logo no início do texto? Com que intenção? 

05) Por que o autor teria escolhido o termo "pretos" e não "negros? 

06) Houve preconceito racial no comentário de alguém sobre o assunto? Se sim, de quem? Explique seu raciocínio:

07) Explique qual o efeito causado com a repetição da palavra "fumo", numa parte do texto: 

08) Circule no texto um exemplo de vocativo: 

09) O narrador é um menino branco ou negro? Retire do texto uma passagem que comprove a sua resposta: 

10) No texto surgiram várias interpretações sobre a palma das mãos dos negros serem brancas, alguma fez algum sentido? Se sim, qual? 

11) Quais dessas explicações foram preconceituosas? Explique seu raciocínio: 

12) Agora pesquise a explicação científica para as palmas das mãos dos negros serem mais claras: 

13) Explique o trecho destacado no texto, posicionando-se sobre ele:

14) Transcreva do texto uma passagem que mostra claramente uma referência à escravidão:

15) Que importância há no fato de todos os homens terem as mãos iguais?

16) A mãe do menino expressa algum preconceito em relação às diferenças entre negros e brancos? Justifique sua resposta:

17) Ela reconhece que os negros são discriminados socialmente? Justifique sua resposta com elementos do texto:

18) No último parágrafo, o narrador se impressiona com o choro da mãe. Por que a mãe inicialmente chora?

19) Por que a mãe chora depois da explicação que ela dá ao filho?

20) Qual é o tema central do conto?

21) Que mensagem ele transmite? Comente: 

22) De que forma a tirinha abaixo dialoga com o texto lido? Explique: 


23) Usando a tirinha abaixo como estímulo, elabore UM parágrafo dissertativo-argumentativo sobre a questão do RACISMO, principalmente o que aparenta ser "sem querer": 


(Parceria com minha queridíssima amiga Maria Aparecida de Carvalho! Adoro!) 

terça-feira, 23 de julho de 2019

Atividade sobre o texto "A força do acarajé", de Cristiane Matos


A força do acarajé

Desde pequenina Maria era assim: tinhosa que só! Por mais que sua mãe lhe desse bronca, não adiantava, tudo tinha que ser do jeito dela. Dizem que as baianas são arretadas, mas aquela! Passava da conta. Com cinco anos, teimou que queria ser uma fada. Foi que foi, até que sua tia conseguiu uma fantasia usada pra tirar foto. Depois, aos dez anos, ela disse ser uma roqueira (na terra do axé?) e queria se vestir como uma. Mãe fala daqui, tia tenta de lá, e nada! Até que a danada conseguiu, de uma amiga da mãe, uma doação: uma calça jeans e uma camiseta de um talde Rolling Stones. Feliz da vida, Maria continuava assim: só fazendo o que gostava. 

Foi então que teve um perrengue: dona Jurema adoeceu. Depois de 20 anos fazendo acarajé (o melhor de Salvador, diga-se de passagem), a baiana já estava cansada daquela labuta. Viúva e recebendo uma aposentadoria miserável, pensou: "Mariazinha vai ficar ni meu lugar". Afinal, a baianinha já tinha 18 ano, estava prontinha para trabalhar. 

Pediu, então, que Mariazinha fosse com ela até o restaurante. Sem saber o motivo, a baiana arretada acompanhou a mãe. Chegou ao restaurante e assim que entrou na cozinha, a mãe lhe deu uma roupa típica de baiana. Foi então que perguntou: "Mainha, pra que essa vestimenta?" -- e a mãe lhe disse: "Estou muito doente, minha filha. Tu vai me substituir a partir de hoje..." Como se lhe tivessem jogado óleo de dendê quente no rosto, Mariazinha deu um berro e saiu correndo do restaurante, deixando a roupa caída no chão.

Já era noite quando decidiu voltar para a casa. Pensando no que a mãe lhe dissera, tinha uma certeza: "Essa vida de baiana é que eu não vou ter". E como sempre, tinha isso muito firme na cabeça. Tanto que decidiu ir até o restaurante dizer isso á dona Jurema. E foi o que fez. 

Chegando próximo à porta do restaurante, Maria viu um monte de luz vermelha e alguns carros fazendo barulho de sirene. Assustada, correu para ver o que acontecera. "Sua mãe passou mal e caiu na cozinha. Corra lá pra vê-la", disse a dona do restaurante. Como um raio, Mariazinha foi até a cozinha e viu a mãe deitada na cadeira, rodeada de gente. "Mainha, o que te aconteceu?" -- perguntou chorando. "Minha baianinha... Não chores... Tua mãe aqui é forte como um dendezeiro. Vou ficar bem... Mas tu precisa me ajudar: nosso acarajé é nossa cultura e tradição. E não pode deixar de ser feito. Por isso, veste tua roupa e continua o trabalho de sua mainha aqui"-- disse Jurema, fechando os olhos e sendo carregada pelos médicos. 

Mariazinha, neste instante, nem respirava. Parecia que o ar lhe havia sumido e suas pernas estavam moles, como um bom vatapá. Ficou vendo a mãe ir embora, no carro barulhento. Foi quando se deu conta de que o restaurante estava lotado e de que tinha turista de tudo quanto é canto do mundo. Saiu da cozinha, deu uma olhadinha nas mesas, e o povo reclamava da demora. Foi então que ouviu de um cliente: "Que comida baiana que nada! Salvador é uma farsa! Não tem nada de terra do acarajé!"

A frase ardeu os olhos, como se tivesse pingado pimenta neles! Tomada por raiva, Mariazinha olhou para o chão e viu a roupa de baiana. Sem pensar, colocou o vestido branco e foi pra perto do tacho de óleo. Então gritou: "Bora fazer acarajé, minha gente!"

Os dias se passaram e dona Jurema melhorou. Descansava de manhã e à tarde se arrumava, toda de branco e ia para o restaurante. Quando chegava, não trabalhava: puxava uma cadeira e se ajeitava. De longe, ficava olhando. E sorrindo. E olhando. Afinal, nem acreditava que aquela baianinha briguenta, que um dia quisera ser fada e roqueira, hoje sorria para cada acarajé que montava.
(Cristiane Matos)

01) Justifique o título empregado no texto, aproveitando para sugerir um outro:

02) Circule no texto dois vocativos, explicando o seu raciocínio: 

03) Localize no texto em questão:

a) três substantivos próprios:
b) dois numerais:
c) três adjetivos, dizendo a que substantivo cada um deles pertence:
d) duas comparações:

04) Por que a palavra "jeans" encontra-se em itálico no texto?

05) Copie do texto uma passagem que contém um exemplo de polissíndeto, justificando sua resposta:

06) Que mensagem o texto lhe transmitiu? Comente:

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Atividade sobre o poema "Grito negro", de José Craveirinha

Grito negro

Eu sou carvão! 
E tu arrancas-me brutalmente do chão
E fazes-me tua mina.
Patrão! 

Eu sou carvão! 
E tu acendes-me, patrão
Para te servir eternamente como força motriz
Mas eternamente não
Patrão! 

Eu sou carvão! 
E tenho que arder,sim
E queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão! 
Tenho que arder na exploração
Arder até as cinzas da maldição
Arder vivo como alcatrão, meu Irmão
Até não ser mais tua mina
Patrão! 

Eu sou carvão!
Tenho que arder
E queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim! 
Eu serei o teu carvão
Patrão! 

(José Craveirinha)

01) Justifique o título do poema acima:

02) A quem o eu lírico se dirige?

03) Circule nele um vocativo, explicando seu raciocínio:

04) Que metáfora mais marcante é utilizada no texto? Explique-a:

05) Qual é o tema do poema?

06) Que mensagem o texto lhe transmitiu?

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Atividade sobre o poema "Sou negro", de Solano Trindade


 Sou negro 

À Dione Silva 

Sou negro 
Meus avós foram queimados 
pelo sol da África
minh´alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs. 

Contaram-me que meus avós 
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo 
e fundaram o primeiro Maracatu. 

Depois meu avô brigou como um danado 
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu 
o pau comeu
Não foi um pai João 
humilde e manso.

Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malés
ela se destacou. 

Na minh´alma ficou
O samba
O batuque
O bamboleio
O desejo de libertação.

(Solano Trindade)

01) Jutsifique o título dado ao poema acima:

02) O que era usado pelos negros como defesa e proteção? 

03) Quem foi Pai João? Por que ele é usado no poema como um não-exemplo? 

04) Copie do texto um ditado popular, explicando o seu significado: 

05) Além da capoeira, que outros elementos da cultura africana encontram-se presentes no poema? 

06) Quem foi Zumbi dos Palmares? Por que ele é citado no poema? 

07) Que símbolos de resistência escrava no Brasil foram resgatados no texto? 

08) Que mensagem o poema transmite? Comente: 


09) Com que verso(s) do poema de Solano a imagem acima mais fortemente dialoga? 

10) Explique a afirmação presente em tal imagem: 


11) O que a mensagem acima transmite? Comente:

12) A que tipo de comentário ela faz menção ao usar o MAS e as reticências? Cite pelo menos dois exemplos: 

13) O que significa "negro e pronto!"? Qual a diferença se colocasse "negro e ponto!"? Explique: 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Atividade sobre conto africano "Furos no céu", de Lenice Gomes

Furos no Céu

Houve um tempo em que o Céu e a Terra eram muito próximos um do outro. Diziam que da torre do palácio se podia colher um ramalhete de nuvens, rabiscos de pássaros, carneirinhos saltitando...

Esta história aconteceu numa aldeia africana. Havia tanta luz naquele dia que duas mulheres pegaram seus pilões para amassar grãos de milho no quintal de casa. Elas diziam amar a claridade e o festejo da lua cheia. Tudo era muito mágico. 

Assim, trocavam mexericos e gargalhadas narrando histórias, que as levaram longe, longe. Naquele converseiro o tempo ia passando e as histórias se derramando, feito um rosário de ave-marias. Uma das mulheres, entusiasmada com a conversa, levantou a mão do pilão com tanta força e tao alto, que fez um furo no Céu. 

O Céu tomou um susto ao ver aquele furo e desabou a berrar. Elas de tão entretidas nem ouviram, continuaram em sua conversa, pisando nos seus pilões. 

Assim o infinito azul foi ganhando furos e mais furos. Aquelas mulheres jamais imaginavam que seus pilões iam transformando o Céu numa verdadeira peneira. O Céu irado, da cor das violetas, gritou mais que um tanto: 

-- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! 

O grito chamou a atenção das mulheres, que olharam para o alto e disseram: "Vai chover". Diziam uma para a outra: "Avia, avia, avia... Recolhe o milho e o pilão..." Parecia uma cantoria. 

Indignado, o Céu resolveu ordenar ao tambor em tom de autoridade:

"Toque alto, por favor!
Atravesse portas e janelas
Chegue aos ouvidos das piladeiras
Convidando-as a me olharem
Sob as sete luas que as iluminam."

Elas, encantadas pelo soar do tambor, aproveitaram para dançar. A cadência foi crescendo, crescendo, crescendo. O Céu achou bonita aquela dança, que alegrava o seu universo. Mas nada podia mudar sua decisão de separar-se da Terra. Ou subia ou ficava todo furado. Foi subindo, subindo, até chegar num lugar perfeito: nem tão perto que alguém pudesse tocá-lo com a mão do pilão, nem tão alto que ninguém pudesse vê-lo. 

E não é que ele sentiu saudades do tum-tum-tum do tambor, do barulho dos grãos no pilão, das histórias das mulheres e de suas canções?! Foi então que o Céu teve a ideia de transformar os furos que as mulheres haviam feito em estrelas, para que pudesse continuar espiando as coisas da terra.

Satisfeito, o Céu sorriu, E foi contando essa história de aldeia em aldeia, com a intenção de que ela se espalhasse pelo mundo e pudesse ser contada e recontada onde houvesse alguém para escutá-la. 

Assim, segundo os africanos, nasceram as estrelas do céu, pontinhos luminosos no azul, para iluminar a África. 

(Lenice Gomes) 

01) Em muitos contos, o narrador inicia situando o tempo e o espaço em que ocorrem os fatos. Identifique, no segundo parágrafo, as expressões adverbiais que expresssam essas informações:

02) Que tipo de narrador conta a história em questão? Justifique sua resposta com uma ou mais passagens do texto:

03) Identifique a protagonista e explique sua importância para o enredo:

04) Podemos afirmar que o enredo do conto é um mito de origem? Explique: 

05) Esse conto faz parte da tradição oral africana, que passa de geração para geração. Retire do texto uma parte em que isso fica claro: 

06) No sexto parágrafo, justifique o emprego do travessão: 

07) Qual o efeito de sentido provocado pelo alongamento do "i" na fala do Céu, que aparece destacada no texto?

08) Explique o efeito semântico conseguido através da repetição da palavra "crescendo" presente no décimo parágrafo:

09) Quando, em geral, se emprega o gerúndio? Se fosse "crescia, crescia, crescia" em vez de "crescendo, crescendo, crescendo", o efeito de sentido se manteria? Por quê?

10) Céu e Terra estão escritos no texto com letras iniciais maiúsculas. Por quê?

11) O conto retrata, pelo menos, três costumes de moradores de aldeias africanas. Quais?


12) O conto em questão foi extraído do livro acima. Descreva a ilustração da capa: 

13) No que você acha que a menina está pensando? Comente: 

14) Observando, especialmente, o semblante da menina e o jeito curioso do macaco, o que podemos imaginar que está acontecendo? 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Atividade com a música "Mama África", de Chico César


Mama África

Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia...

Mama África tem
Tanto o que fazer
Além de cuidar neném
Além de fazer denguim
Filhinho tem que entender
Mama África vai e vem
Mas não se afasta de você...

Mama África 
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia...

Quando Mama sai de casa
Seus filhos se "olodunzam"
Rola o maior jazz
Mama tem calo nos pés
Mama precisa de paz... 
Mama não quer brincar mais
Filhinho dá um tempo
É tanto contratempo
No ritmo de vida de mama...

Deve ser legal
Ser negão, Senegal...

Mama África
A minha mãe
É mãe solteira...


(Chico César) 

01) Justifique o título da canção:

02) Por que você acha que a África é considerada uma "mãe solteira"? 

03) O que significa "ter de fazer mamadeira todo dia"? 

04) Explique por que aparece na música a palavra "denguim" e não "denguinho": 

05) Copie do texto uma antítese, explicando seu raciocínio:

06) Que palavra se encontra em itálico? Por quê? 

07) Transcreva da música uma espécie de neologismo:

08) Explique a passagem em negrito no texto, dizendo se há ou não nela uma ironia:

09) Podemos afirmar que há uma ambiguidade no título e na expressão "Mama África"? Comente:

10) O que a música denuncia? Justifique sua resposta:

11) Que mensagem a canção transmite? 

12) O lugar que é descrito na música se mostra acolhedor ao homem? Por quê? 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Atividade sobre Literatura Africana - Tirinhas

-- Onde você guarda o seu racismo? (Debate) 

-- Lei 10639, de 09 de janeiro de 2003, que prevê a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo escolar, principalmente de História e Literatura, assim como inclui o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”.


01) Podemos afirmar que existe uma antítese na tirinha acima? Por quê?

02) Você acha que é necessário "ser a favor" de um ou outro grupo? Justifique sua resposta:

03) A que corresponderia o "misto", em nossa sociedade? E o que isso quer representar? 

04) Você vê alguma utilidade REAL para haver o "Dia da consciência negra"? Por quê? 


05) Você acha necessário haver algum tipo de divisão entre as pessoas? Se sim, qual? Justifique sua resposta:

06) O que seria "sentir a pele"? O que mudaria se isso ocorresse?

07) Você, sinceramente, costuma sentir a pele ou ver a cor? Justifique-se:

08) O que a tirinha critica? De que forma ela dialoga com a tirinha anterior? 


09) O que mais parece preocupar Cambito? 

10) Posicione-se sobre a afirmação "Dinheiro compra tudo. Até nome.", argumentando: 

11) O que todas as tirinhas têm em comum? 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Exercícios sobre Literatura Africana


"Estou voltando..."  (um conto africano)

Um jovem angolano caminhava solitário pela praia. Parou por alguns instantes para agradecer aos deuses por aquele momento milagroso: o deslumbramento de sua terra natal. O silêncio o fez adormecer em seu âmago, despertando inesperadamente com o bater das ondas sobre as pedras. De repente, surgiram das matas homens estranhos e pálidos que o agarraram e o acorrentaram. Sua coragem e o medo travaram naquele momento uma longa batalha... Ele chamou pelos seus pais e clamou pelo seu Deus. Mas ninguém o ouviu. Subitamente mais e mais rostos estranhos e pálidos se uniram para rirem de sua humilhação. Vendo que não havia saída, o jovem angolano atacou um deles, mas foi impedido por um golpe. Tudo se transformou em trevas.  (...)

(Agamenon Troyan)

01) A que fato histórico este trecho do conto faz referência? 

02) Transcreva a passagem do poema que sugere a ideia de pertencimento por meio de identificação com elementos da natureza local:

03) Justifique o título dado ao texto:

04) Copie do texto um exemplo de sujeito composto, explicando seu raciocínio:

05) Quem seriam os "homens estranhos e pálidos"? O que fizeram? 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Atividade sobre texto "Venenos de Deus, remédios do Diabo", de Mia Couto


O texto gerador a seguir é um trecho do romance “Venenos de Deus, remédios do diabo: as incuráveis vidas de Vila Cacimba”, do moçambicano Mia Couto. Integra, portanto, o romance de literaturas africanas. No trecho abaixo, apresenta-se um diálogo entre Bartolomeu Sozinho (ex-mecânico naval da Companhia de Navegação Colonial e nativo de Vila Cacimba, uma vila imaginária em Moçambique) e Dr. Sidónio Rosa (médico local, de nacionalidade portuguesa).

Venenos de Deus, remédios do diabo: as incuráveis vidas de Vila Cacimba

– Noutro dia, você zangou-se comigo porque eu não o chamava pelo seu nome inteiro. Mas eu conheço o seu segredo.
– Não tenho segredos. Quem tem segredos são as mulheres.
– O seu nome é Tsotsi. Bartolomeu Tsotsi.
– Quem lhe contou isso? De certeza que foi o cabrão do Administrador.
Acabrunhado, Bartolomeu aceitou. Primeiro, foram os outros que lhe mudaram o nome, no baptismo. Depois, quando pôde voltar a ser ele mesmo, já tinha aprendido a ter vergonha de seu nome original. Ele se colonizara a si mesmo. E Tsotsi dera origem a Sozinho [Bartolomeu Sozinho].
– Eu sonhava ser mecânico, para consertar o mundo. Mas aqui para nós que ninguém nos ouve: um mecânico pode chamar-se Tsotsi?
Ini nkabe dziua.
– Ah, o Doutor já anda a aprender a língua deles?
– Deles? Afinal, já não é a sua língua?
– Não sei, eu já nem sei...
O português confessa sentir inveja de não ter duas línguas. E poder usar uma delas para perder o passado. E outra para ludibriar o presente.
– A propósito de língua, sabe uma coisa, Doutor Sidonho? Eu já me estou a desmulatar.
E exibe a língua, olhos cerrados, boca escancarada. O médico franze o sobrolho, confrangido: a mucosa está coberta de fungos, formando uma placa esbranquiçada.
– Quais fungos? – reage Bartolomeu. – Eu estou é a ficar branco de língua, deve ser porque só falo português...
O riso degenera em tosse e o português se afasta, cauteloso, daquele foco contaminoso. [...]
O médico olha para o parapeito e estremece de ver tão frágil, tão transitório aquele que é seu único amigo em Vila Cacimba. O aro da janela surge como uma moldura da derradeira fotografia desse teimoso mecânico reformado.
– Posso fazer-lhe uma pergunta íntima?
– Depende – responde o português.
– O senhor já alguma vez desmaiou, Doutor?
– Sim.
– Eu gostava muito de desmaiar. Não queria morrer sem desmaiar.
O desmaio é uma morte preguiçosa, um falecimento de duração temporária. O português, que era um guarda-fronteira da Vida, que facilitasse uma escapadela dessas, uma breve perda de sentidos.
– Me receite um remédio para eu desmaiar.
O português ri-se. Também a ele lhe apetecia uma intermitente ilucidez, uma pausa na obrigação de existir.
– Uma marretada na cabeça é a única coisa que me ocorre.
Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso. [...]

(Mia Couto)

01) Identidade nacional representa um conjunto de sentimentos que fazem com que um indivíduo se sinta parte de uma sociedade ou nação. A língua é um importante elemento na constituição da identidade de um povo, pois ela permite reconhecer membros da comunidade, diferenciar estrangeiros e transmitir tradições. No texto, podemos perceber uma certa crise de identidade por parte do personagem africano Bartolomeu, obrigado a conviver com duas línguas. Com base nessas informações, responda:

a)    De que países eram essas duas línguas?
b)    Selecione um fragmento do texto que confirme essa crise de identidade de Bartolomeu:
c)    Por que o doutor confessa sentir inveja de não ter duas línguas?

02) O personagem Bartolomeu Tsotsi demonstra ter vergonha de seu nome e não valorizar sua identidade pessoal através de suas falas. Isso pode denotar uma desvalorização de sua identidade nacional, uma vez que quem somos está ligado a nossa identidade nacional. Essa afirmativa está associada ao fato de que, enquanto indivíduos, pertencemos a determinada cultura. Por meio do trecho a seguir, o narrador expressa a desvalorização do personagem Bartolomeu: “Ele se colonizara a si mesmo”. Nesse trecho, o verbo “colonizara” foi utilizado referindo-se a um elemento diferente do usual, ampliando seu sentido.

a) Explique o sentido adquirido pelo verbo no texto.
b) Outros verbos foram utilizados no texto com aspectos temporais diferentes dos usuais. Transcreva um trecho que exemplifique esta afirmação:

03) Os elementos de cosmovisão africana – visão de mundo e opiniões do povo – são temas recorrentes na literatura. Alguns destes elementos são os seguintes:

- Ancestralidade / Culto aos ancestrais, que resume todos os elementos que estruturam a cosmovisão africana, fazendo uma ponte imediata com a história e a memória no desejo de não esquecer o passado. 
- Religiosidade, que, mais do que religião, é um exercício permanente de respeito à vida e doação ao próximo.
- Liberdade, um dos maiores anseios do povo, que tanto sofreu com seu passado de escravidão.

Tais elementos representam alguns dos mais importantes valores na construção da identidade nacional do povo africano.

Assinale a opção que contenha (1) o elemento da cosmovisão africana contemplado no Texto Gerador 1 e (2) uma forma de conquistar esse elemento segundo Bartolomeu Sozinho:
(a) (1) Religiosidade / (2) Ter duas línguas
(b) (1) Ancestralidade / (2) Desmulatar
(c) (1) Liberdade / (2) Ter duas línguas
(d) (1) Religiosidade / (2) Desmaiar
(e) (1) Liberdade / (2) Desmaiar

04) A cosmovisão de um povo relaciona-se à forma como esse povo concebe o mundo e age para transformá-lo. Alguns aspectos da cosmovisão africana estão dispostos abaixo e compõem a cultura afrobrasileira. Reconheça qual dos aspectos da cosmovisão africana tem maior destaque no trecho:

"Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua."

(A) Ancestralidade.
(B) Musicalidade.
(C) Religiosidade.
(D) Socialização.
(E) Oralidade. 

05) Dois conceitos ocupam lugar estratégico nos estudos de cultura negra: negritude e africanidade. Vejamos esses conceitos por meio do quadro abaixo: 


Negritude
Africanidade
Tem sua origem nas primeiras décadas do século XIX, no contexto de uma espécie de renascimento negro. Representa uma busca pela revalorização das raízes culturais africanas, crioulas e populares.
Engloba a cultura, a arte, a língua, as tradições, as instituições, as crenças e as visões de mundo do povo africano.


Como vemos, negritude e africanidade são conceitos interrelacionados.
O diálogo entre Bartolomeu Sozinho e Dr. Sidónio Rosa revela, entre outras questões, que o negro e nativo reconhece no branco europeu qualidades e superioridades que inveja e deseja para si. Tomando-se essa informação como ponto de partida, destaque alguns elementos do texto associados ao conceito de africanidade.

06) Você já sentiu vontade de consertar o mundo? Como seria isso, basicamente? Comente: