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quinta-feira, 13 de junho de 2019

Atividade sobre o texto "Carta a um jovem que foi assaltado", de Moacyr Scliar

Carta a um jovem que foi assaltado

Foste assaltado. Bem, a primeira coisa a dizer é que isto não chega a ser um fato excepcional. Excepcional é ganhar um bom salário, acertar a loto: mas ser assaltado é uma experiência que faz parte do cotidiano de qualquer cidadão brasileiro. Os assaltantes são democráticos: não discriminam idade, nem sexo, nem cor, nem mesmo classe social -- grande parte das vítimas é das vilas populares. 
É claro que na hora não pensaste nisto. Ficaste chocado com a fria brutalidade com que o delinquente te ordenou que lhe entregasse a bicicleta (podia ser o tênis, a mochila, qualquer coisa).
Entregaste e fizeste bem: outros pagaram com a vida a impaciência, a coragem ou até mesmo o medo -- não poucos foram baleados pelas costas.
Indignação foi o sentimento que te assaltou depois. Afinal, era o fruto do trabalho que o homem estava levando. Não fruto do teu trabalho -- até poderia ser -- mas o fruto do trabalho do teu pai, o que talvez te doeu mais.
Ficaste imaginando o homem passando a bicicleta para o receptador, os dois satisfeitos com o bom negócio realizado. É possível que o assaltante tenha dito, nunca ganhei dinheiro tão fácil. E, pensando nisto, a amargura te invade o coração. Onde está o exército? Por que não prendem essa gente?
Deixa-me dizer-te, antes de mais nada, que a tua indignação é absolutamente justa. Não há nada que justifique o crime, nem mesmo a pobreza.
Há muito pobre que trabalha, que luta por salários maiores, que faz o que pode para melhorar a sua vida e a vida de sua família -- sem recorrer ao roubo ou ao assalto. Mas tudo que eles levam, os ladrões e assaltantes, são coisas materiais. E enquanto estiverem levando coisas materiais, o prejuízo, ainda que grande, será só material. 
Mas não deves deixar que te levem o mais importante. E o mais importante é a tua capacidade de pensar, de entender, de racionar. Sim, é preciso se proteger contra os criminosos, mas não é preciso viver sob a égide do medo. 
Deve-se botar trancas e alarmes nas portas, não em nossa mente. Deve-se repudiar o que fazem os bandidos, mas deve-se evitar o banditismo.
Eles te roubaram. É muito ruim. Mas que te roubem só aquilo que podes substituir. Que não te roubem o coração.

(Moacyr Scliar)

01) Na frase "Os assaltantes são democráticos", podemos afirmar que a palavra destacada foi usada com ironia? Explique:

02) Que sentimento tomou conta do jovem ao ser assaltado?

03) Como o autor da carta vê o fato de o jovem ter entregado a bicicleta naturalmente, sem reagir? Você concorda com ele? 

04) Que sentimento tomou conta do jovem logo após ser assaltado? 

05) Segundo o texto, após o assalto, o jovem teria ficado imaginando o destino que o assaltante daria à bicicleta. Qual seria esse destino e qual o sentimento do jovem diante disso?

06) Diante da indignação do jovem e concordando com ela, o texto condena de forma radical o crime. Transcreva a frase em que fica evidente essa condenação:

07) O texto tem esse título, remetendo a uma CARTA, porém não tem certas características tradicionais desse gênero. Não aparece o nome da cidade do emitente, a data e a saudação inicial. No final, não aparece a costumeira saudação e a assinatura do remetente. Você acha que existe alguma característica importante de uma carta no texto? Comente:

08) A que gênero textual você acha que tal texto pertence? Por quê? 

09) Você já foi vítima de algum tipo de violência urbana? Comente: 

10) Na sua opinião, que medidas são necessárias, hoje, para que o cidadão tenha maior segurança? 

11) Que mensagem o texto lhe transmitiu?