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domingo, 25 de outubro de 2020

Atividade sobre a crônica "A mulher sem medo", de Moacyr Scliar

 A mulher sem medo

"Cientistas americanos estudam o caso de uma mulher portadora de uma rara condição, 
em resultado da qual ela não tem medo de nada". 

(Folha de São Paulo)

Ele não sabia o que o esperava quando, levado mais pela curiosidade do que pela paixão, começou a namorar a mulher sem medo. Na verdade havia ali também um elemento interesseiro; tinha um projeto secreto, que era o de escrever um livro chamado "A vida com a mulher sem medo", uma obra que, imaginava, poderia fazer enorme sucesso, trazendo-lhe fama e fortuna. Mas ele não tinha a menor ideia do que viria a acontecer. 
Dominador, o homem queria ser o rei da casa. Suas ordens deveriam ser rigorosamente obedecidas pela mulher. Mas como impor sua vontade? Como muitos ele recorria a ameaças: quero o café servido às nove horas da manhã, senão... E aí vinham as advertências: senão eu grito com você, senão eu bato em você, senão eu deixo você sem comida. 
Acontece que a mulher simplesmente não tomava conhecimento disso; ao contrário, ria às gargalhadas. Não temia gritos, não temia tapas, não temia qualquer tipo de castigo. E até dizia, gentil: "Bem que eu queria ficar assustada com suas ameaças, como prova de consideração e de afeto, mas você vê, não consigo". 
Aquilo, além de humilhá-lo profundamente, deixava-o completamente perturbado. Meter medo na mulher transformou-se para ele em questão de honra. Tinha de vê-la pálida, trêmula, gritando por socorro. 
Como fazê-lo? Pensou muito a respeito e chegou a uma conclusão: para amedrontá-lo só barata ou rato. Resolveu optar pela barata, por uma questão de facilidade: perto de onde moravam havia um velho depósito abandonado, cheio de baratas. Foi até lá e conseguiu quatro exemplares, que guardou num vidro de boca larga. 
Voltou para casa e ficou esperando que a mulher chegasse, quando então soltaria as baratas. Já antegozava a cena: ela sem dúvida subiria numa cadeira, gritando histericamente. E ele enfim se sentiria o vencedor. 
Foi neste momento que o rato apareceu. Coisa surpreendente, porque ali não havia ratos, sobretudo um roedor como aquele, enorme, ameaçador, o Rei dos Ratos. Quando a mulher finalmente retornou encontrou-o de pé sobre uma cadeira, agarrado ao video com as baratas, gritando histericamente. 
Fazendo jus à fama, ela não demonstrou o menor temor; ao contrário, ria às gargalhadas. Foi buscar uma vassoura, caçou o rato pela sala, conseguiu encurralá-lo e liquidou-o sem maiores problemas. Feito que ajudou o homem, ainda trêmulo, a descer da cadeira. E aí viu que ele segurava o vidro com as quatro baratas. O que deixou-a assombrada: o que pretendia ele fazer com os pobres insetos? Ou aquilo era um novo tipo de perversão? 
Àquela altura ele já nem sabia o que dizer. Confessar que se tratava do derradeiro truque para assustá-la seria um vexame, mesmo porque, como ele agora o constatava, ela não tinha medo de baratas, assim como não tivera medo do rato. O jeito era aceitar a situação. E admitir que viver com uma mulher sem medo era uma coisa no mínimo amedrontadora. 

(Moacyr Scliar)

01) O que inicia a crônica do Moacyr Scliar? Como a notícia dialoga com o texto? 

02) Justifique o título dado ao texto: 

03) Como o homem encarava o fato de a mulher não sentir medo de nada? 

04) Por que o homem pensou logo em ratos e baratas? 

05) No que resultou essa experiência? Quem, afinal, tinha medo disso tudo?

06) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Atividade sobre o texto "Camelos e beija-flores...", de Rubem Alves

 Camelos e beija-flores...

A revisora informou delicadamente que era normado jornal que todas as "estórias" deveriam ser grafadas como "histórias". É assim que os gramáticos decidiram e escreveram nos dicionários. 
Respondi também delicadamente: "Comigo não. Quando escrevo 'estória' eu quero dizer 'estória'. Quando escrevo 'história' eu quero dizer 'história'. Estória e história são tão diferentes quanto camelos e beija-flores.." 
Escrevi um livro baseado na diferença entre "história" e "estória". O revisor, obediente ao dicionário, corrigiu minhas "estórias" para "histórias". Confiando no rigor do revisor, não li o texto corrigido. Aí, um livro que era para falar de camelos e beija-flores, só falou de camelos. Foram-se os beija-flores engolidos pelo camelo... 
Escoro-me no Guimarães Rosa. Ele começa o Tutameia com esta afirmação: "A estória não quer a história. A estória, em rigor, deve ser contra a história". 
Qual é a diferença? É simples. Quando minha filha era pequena eu lhe inventava estórias. Ela, ao final, me perguntava: "Papai, isso aconteceu de verdade?" E eu ficava sem lhe poder responder porque a resposta seria de difícil compreensão para ela. A resposta que lhe daria seria: "Essa estória não aconteceu nunca para que aconteça sempre..." 
A história é o reino das coisas que aconteceram de verdade, no tempo, e que estão definitivamente enterradas no passado. Mortas para sempre. [...] 
Mas as estórias não aconteceram nunca. São invenções, mentiras. O mito de Narciso é uma invenção. O jovem que se apaixonou por sua própria imagem nunca existiu. Aí, ao ler o mito que nunca existiu eu me vejo hoje debruçado sobre a fonte que me reflete nos olhos dos outros. Toda estória é um espelho. [...] 
A história nos leva para o tempo do "nunca mais", tempo da morte. As estórias nos levam para o tempo da ressurreição. Se elas sempre começam como o "era uma vez, há muito tempo" é só para nos arrancar da banalidade do presente e nos levar para o tempo mágico da alma. 
Assim, por favor, revisora: quando eu escrever "estória" não corrija para "história". Não quero confundir camelos e beija-flores... 

(Rubem Alves)

01) Justifique o título dado à crônica acima:

02) Por que a revisora resolveu substituir "estória" por "história"? 

03) Qual a opinião do autor? Justifique sua resposta:

04) Qual a sua opinião sobre esse assunto? Explique seu raciocínio: 

05) Por que o livro publicado falava só de camelos? 

06) O que esse fato revela sobre a compreensão do texto pela revisora? 

07) Explique a passagem destacada na crônica: 

08) A visão do Rubem Alves é igual ou diferente da de Guimarães Rosa? Por quê? 

09) Que mensagem o texto transmite? Comente:

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Atividade sobre o texto "Um professor sempre será melhor do que o Google", de Fabrício Carpinejar

 
Um professor sempre será melhor do que o Google

Um professor sempre será melhor do que o Google
Porque o professor não dá uma informação, conta histórias. 
Porque o professor funciona mesmo sem wi-fi, mesmo sem luz, mesmo no temporal. 
Porque o professor não facilita a busca, exercita a memória. 
Porque o professor não cria dependência, mas possibilita amizades. 
Porque o professor pode mudar o destino de um assunto, voltar atrás, recomeçar de novo, dependendo das necessidades da turma. 
Porque o professor não realiza só o que você deseja, vai além com detalhes e comparações. 
Porque o professor lê a sua alma quando levanta o dedo para a pergunta, não apenas recebe uma dúvida.
Porque o professor também se importa com aquilo que não entendeu mais do que aquilo que quis perguntar.
Porque o professor escolhe falar do que ama. Você não está apenas tendo uma aula sobre um conteúdo e sim testemunhando uma história de amor. 
Porque o professor não coloca o seu salário acima da vocação, não coloca as circunstâncias acima dos indivíduos. 
Porque o professor não julga, é todo feito para compreender, e enxerga a nota como um retrato provisório de sua curiosidade. Aposta na recuperação milagrosa quando nem mais a família tem esperança. 
Porque o professor não pratica nenhuma competição, não patenteia as suas frases, não sonega o que viveu, repassa tudo o que assimilou na carreira. 
Porque o professor vislumbra o que você pode vir a ser, não se fixa em sua idade. 
Porque o professor já foi aluno e entende que a atenção é resultado da confiança. 
Porque, quando dá as costas, o professor continua enxergando com os ouvidos. 
Porque o professor não tem pressa, já que cada um tem o seu ritmo. 
Porque o professor não é onipotente. Faz humor quando erra. Você aprende a ser humano como ele. 
Porque o professor fica feliz quando alguém demonstra saber mais do que ele. 
Porque o professor realiza trabalho em grupo para os alunos se admirarem pelo conhecimento. 
Porque o professor cede o seu espaço para apresentações, torcendo para que um aluno goste de ser professor no futuro. 
Porque o professor sofre com elegância. Nunca saberá quando está triste. Ele inspira a seguir adiante ainda que sem ânimo, a não parar a rotina devido a algum descontentamento.
Porque o professor é o próprio livro falado, encadernado de expectativas que vá até o fim. 
Porque o professor repassa a lista de chamada para você se pertencer dia após dia. 
Porque o professor diferencia a ignorância da burrice. Ignorância é falta de vontade, burrice termina com o esforço. 
Porque o professor corrige as suas provas com comentários personalizando as falhas e os acertos. 
Porque o professor acredita em você. O Google acredita apenas em algoritmos. 

(Fabrício Carpinejar)

01) Justifique o título dado à crônica acima:

02) Você concorda com a afirmação presente nele? Por quê? 

03) Posicione-se sobre a afirmativa destacada no texto,argumentando bem: 

04) De que argumento você mais gostou? Justifique sua resposta: 

05) Com qual afirmação você não concorda? Por quê? 

06) Responda, com as suas palavras, o que o Google não conseguirá nunca fazer: 

07) Localize no texto uma anáfora e explique a função dela: 

08) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Atividade sobre a crônica "Histórias extraterrestres", Moacyr Scliar


Histórias extraterrestres

Quando a mulher, muito impressionada, veio lhe falar sobre o óvni avistado no Mato Grosso do Sul, ele mal pôde contar a satisfação: pressentiu que ali estava a grande desculpa de que precisava para justificar escapadas noturnas. 
Não tardou a usá-la. Dias depois conheceu uma loira espetacular, uma grande mulher. Saiu da casa dela às três da manhã, sem qualquer preocupação. Para a mulher, que, naturalmente, o aguardava furiosa, contou a história clássica: estava dirigindo o carro por uma estrada deserta quando, de súbito, avistou luzes ofuscantes e, em meio a um ruído ensurdecedor, um óvni, um disco voador, pousou no campo ao lado da estrada. 
Dali haviam saído três homenzinhos verdes com antenas, dizendo, numa voz metálica, leve-nos a seu chefe, leve-nos a seu chefe. Como não sabia exatamente de quem falavam -- tanta gente mandando no país --, os homenzinhos retiveram-no por mais de cinco horas, perguntando coisas sobre campos petrolíferos, possibilidades de remessa de lucros a outros planetas, CPIs da propina. Daí o atraso. 
A mulher não apenas acreditou como até teve pena dele: coitadinho, você deve ter passado um mau pedaço. E ele foi dormir felicitando-se por sua imaginação criativa. 
Na semana seguinte, de novo encontrou a loira e de novo voltou tarde, desta vez às quatro. De novo contou a história, acrescentando que era o mesmo disco voador e que os homenzinhos haviam afirmado que daí em diante voltariam periodicamente para completar a coleta de dados. 
-- Não conte a ninguém sobre isso -- concluiu ele. -- Caso contrário, minha vida correrá perigo. 
A mulher, cada vez mais impressionada, prometeu que nada diria, nem mesmo às melhores amigas.
Passados uns dias, sentiu saudades da loira e resolveu visitá-la na casa, que ficava num bairro distante. Entrou no carro e foi até lá. Já estava chegando quando avistou luzes ofuscantes. Em meio a um ruído ensurdecedor e a uma espessa fumaça, avistou um óvni que, do pátio da casa, elevava-se no ar. Na janela do disco voador, mirando-o sorridente, avistava a bela loira, abraçada a três homenzinhos verdes com antenas. Um segundo depois a nave desapareceu, perdendo-se no infinito.  

(Moacyr Scliar)

01) Justifique o título dado ao texto acima:

02) Por que o homem ficou satisfeito com a história contada pela mulher? 

03) Copie do texto uma passagem irônica, explicando-a: 

04) Que problemas do nosso país são citados na crônica? Com que intenção?

05) O que se infere do final do texto? Explique: 

06) Tal história pode ter acontecido de verdade? Justifique sua resposta: 

07) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

08) Localize no texto:

a) dois numerais:
b) dois advérbios de intensidade:
c) um advérbio de lugar:
d) um advérbio de negação:
e) dois advérbios de tempo:
f) dois adjetivos:
g) um pronome possessivo: 
h) um substantivo próprio:

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Atividade sobre o texto "Assaltos insólitos", de Affonso Romano de Sant´Anna

 Assaltos insólitos

Assalto não tem graça nenhuma, mas alguns, contados depois, até que são engraçados. É igual a certos incidentes de viagem, que, quando acontecem, deixam a gente aborrecidíssima, mas depois, narrados aos amigos num jantar, passam a ter sabor de anedota. 
Uma vez me contaram de um cidadão que foi assaltado em sua casa. Até aí, nada demais. Tem gente que é assaltada na rua, no ônibus, no escritório, até dentro de igrejas e hospitais, mas muitos o são na própria casa. O que não diminui o desconforto da situação.
Pois lá estava o dito-cujo em sua casa, mas vestido em roupa de trabalho, pois resolvera dar uma pintura na garagem e na cozinha. As crianças haviam saído com a mulher para fazer compras e o marido se entregava a essa terapêutica atividade, quando, da garagem, vê adentrar pelo jardim dois indivíduos suspeitos. 
Mal teve tempo de tomar uma atividade e já ouvia:
-- É um assalto, fica quieto senão leva chumbo. 
Ele já se preparava para toda sorte de tragédias quando um dos ladrões pergunta:
-- Cadê o patrão?
Num rasgo de criatividade, respondeu:
-- Saiu, com a família ao mercado, mas já volta. 
-- Então vamos lá dentro, mostre tudo. 
Fingindo-se, então, de empregado de si mesmo, e ao mesmo tempo para livrar sua cara, começou a dizer:
-- Se quiserem levar, podem levar tudo, estou me lixando, não gosto desse patrão. Paga mal, é um pão-duro. Por que não levam aquele rádio ali? Olha, se eu fosse vocês levava aquele som também. Na cozinha tem uma batedeira ótima da patroa. Não querem uns discos? Dinheiro não tem, pois ouvi dizerem que botam tudo no banco, mas ali dentro do armário tem uma porção de caixas de bombons, que o patrão é tarado por bombom. 
Os ladrões recolheram tudo o que o falso empregado indicou e saíram apressados. Daí a pouco chegavam a mulher e os filhos. Sentado na sala, o marido ria, ria, tanto nervoso quanto aliviado do próprio assalto que ajudara a fazer contra si mesmo. 

(Affonso Romano de Sant´Anna)

01) Justifique o título dado à crônica:

02) O que teve de diferente no assalto narrado? 

03) O que você achou da ideia do dono da casa de falar que é o empregado? O que teria acontecido se ele assumisse que era o proprietário? 

04) Como você acha que o homem contaria à mulher e aos filhos o assalto? 

05) Por que você acha que os ladrões levaram também as caixas de bombons? 

06) Que atividade terapèutica o dono da casa estava fazendo? 

07) Copie do texto marcas de oralidade: 

08) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

09) Localize na crônica:

a) um advérbio de negação:
b) um pronome demonstrativo:
c) um advérbio de lugar:
d) um advérbio de tempo:
e) um numeral: 
f) dois adjetivos: 

sábado, 26 de setembro de 2020

Atividade sobre o texto "Dá pra dar um jeitinho na COVID?!", de Andréa Serpa

Dá pra dar um jeitinho na COVID?!

Trabalhei décadas direta e indiretamente com Escolas Públicas.
Faltam ingredientes para a merenda das crianças? Faz vaquinha. Cada professor doa um quilo de alguma coisa. Um tempero pra comida ficar menos insossa. A gente dá um jeitinho.
Falta material de trabalho? A gente compra no cartão. Parcela. Afinal, as crianças precisam de algo mais para aprender. Joguinhos, livrinhos, papel. A gente dá um jeitinho. 
Não tem xérox, não tem canetinha para o quadro branco, o aluno está sem lápis, sem caderno. A prefeitura ainda não mandou material. A gente dá um jeitinho. 
O aluno não consegue atendimento no posto de saúde. Liga pra igreja, pro centro, pra associação de moradores. A gente dá um jeitinho.
O aluno está passando fome. A mãe está desempregada. Arruma cesta básica, faz vaquinha. Arruma faxina pra mãe. A gente dá um jeitinho. 
As vagabundas. As parasitas. As "privilegiadas" sempre deram um jeitinho. Na total ausência de políticas públicas sérias para a Educação, para a Saúde e para a Assistência Social, sempre fomos nós, as PROFESSORAS das escolas públicas, que demos um jeitinho. 
Tiramos o dinheiro do próprio bolso, dividimos nosso alimento, compramos nosso material, investimos na escola, nas crianças e nas famílias. Não temos auxílio-paletó, não temos verba de gabinete, não temos nada. Recebemos pouco. Mas damos um jeitinho. 
Agora querem que demos um jeitinho em um vírus mortal que arrastou o mundo para uma crise inimaginável. Não tem como dar um jeitinho nisso. 
Não tem mais como superarmos a ausência do poder público apenas com boa vontade, com dedicação, com altruísmo e solidariedade. É preciso investimento, planejamento e, acima de tudo, respeito aos profissionais da Educação. 
Os profissionais da Educação sempre deram um jeitinho para, apesar de suas péssimas condições de trabalho, seguir prestando o serviço possível ao povo. Mesmo recebendo como paga ingratidão e desprezo. Mas agora não dá mais para dar um jeitinho. Agora dar um jeitinho é apostar a própria vida nessa gambiarra. 
(Andréa Serpa)

01) Justifique o título do texto acima:

02) Qual o tema central do texto? Justifique sua resposta: 

03) Que frase é bastante repetida no texto? Com que objetivo? 

04) No que professores sempre deram um jeitinho? Por quê? 

05) Por que desta vez é diferente? O que você pensa a respeito disso? 

06) Justifique o emprego das aspas na palavra "privilegiadas": 

07) Que áreas, segundo a autora, estão mais abandonadas e problemáticas em nosso país? Você concorda com ela? 

08) No sétimo parágrafo, existem alguns implícitos. Quais são? A que episódios eles se referem? 

09) A quem a autora se refere quando cita algumas regalias que professor não tem? Que crítica social é ali feita? 

10) Que características dos professores a autora faz questão de reforçar? A que características dos políticos elas se contrapõem? 

11) Copie do texto marcas de oralidade: 

12) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

domingo, 13 de setembro de 2020

Atividade sobre a crônica "Pertencer", de Clarice Lispector

Pertencer

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. 
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça. 
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus. 
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro. 
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos -- e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos. 
Pertencer não vem apenas de ser franca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força -- eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa. Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e, no entanto, premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas nascida. 
No entanto, fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. 
Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim, eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como deseertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido. 
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego o último gole de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho! 

(Clarice Lispector)

01) Justifique o título dado à crônica:

02) Por que a narradora se sentia deserdada da vida? O que você pensa com relação a isso? 

03) Para ela, o que significa "pertencer"? E para você? 

04) Por que a narradora inveja as freiras? Você concorda com o ponto de vista dela? Por quê? 

05) Copie do texto uma antítese, justificando sua resposta: 

06) Por que a narradora se tornou arisca? Você acha que isso, de fato, se justifica? 

07) O que seria "perder o jeito de ser gente"? Por que razão isso pode ocorrer? 

08) Que comparações a narradora usa? Você as considera eficazes? Justifique-se: 

09) Que superstição a narradora cita em sua crônica? Ela funcionou? 

10) Como a narradora lidou com esse fato? Você sentiria o mesmo, no lugar dela? 

11) Explique as passagens em destaque na crônica, posicionando-se sobre elas: 

12) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

(Atividade feita em parceria com a colega de grupo: Patrícia Domingos

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Atividade sobre a crônica "Banhos, banheiros & Cia", de Walcyr Carrasco

Banhos, banheiros & Cia

Um dos mistérios da arquitetura moderna é a importância dada aos banheiros. Há algumas décadas, um casarão tinha dois, no máximo três banheiros. Observo os anúncios dos apartamentos modernos. Propagandeiam número de suítes. Quanto mais, mais luxuosos e mais caros. O número de banheiros faz a glória dos corretores. A sala pode ser pequena. A cozinha minúscula. O quarto de empregada, equivalente a um armário -- eu me pergunto quando as empregadas vão aprender a dormir em pé! Banheiros, há em profusão. Um apartamento de luxo médio possui três suítes, um lavabo e um banheiro de empregada. Em contra-partida, tem três dormitórios, sala dupla, dozinha, quarto de empregada. Cinco banheiros para seis cômodos! Casais modernos e abastados fazem questão de dois banheiros na suíte. Uma senhora me revelou:
-- A razão pela qual nunca me separei é que meu marido tem o banheiro dele. Isso que é matrimônio! 
Os apetrechos também estão se tornando mais sofisticados. Designers criam louças assinadas. Sanitários com grife nunca pensei! Uma amiga comprou uma banheira com pezinhos, réplica dos antigos modelos vitorianos. Linda. Assim que instalou, quis inaugurar. Encheu. Botou essências. Entrou. Tentou sentar-se. Escorregou. A banheira era funda, ela, baixinha. Agarrou-se às bordas para não morrer afogada. 
Quis erguer-se. Patinou. Foi um custo. Quando conseguiu, a perna não ultrapassava aborda. Agarrou-se à parede. Os dedos deslizaram pelos azulejos. Quase dependurada no registro, conseguiu botar um pé para fora. Resvalou pelo tapete. Salvou-se por pouco. Quando me contou a aventura, observei:
-- Você teve sorte. Do jeito que anda gorda, podia ter entalado. 
Agora está pensando em usar a peça para criar carpas coloridas.
\entrar no chuveiro ou afundar na banheira é um ato cada vez mais glamouroso. 
Só no shopping Pátio Higienópolis existem duas lojas em que o forte são os produtos para tornar o banho um ato de luxúria. Sabonetes com todo tipo de promessa. Uns relaxam, outros melhoram a vida amorosa, outros energozam. Como se o simples ato de limpar não fosse mais suficiente. Sal grosso aromatizado para tirar o mau-olhado e perfumar. Existem até umas bolinhas exóticas. Jogam-se na banheira e elas efervescem, soltando pétalas de flores. Alguns sabonetes também trazem flores incrustradas. Ganhei um. À medida que usava, foi surgindo uma margarida. Mais tarde, alguém comentou:
-- O que você tem na relha?
Eram pétalas. Também havia algumas em meus cabelos. Quando vi, estava arrancando pétalas de todo o corpo. 
O sabonete me trasformava em um sachê! Comentei o fato com a amiga que me presentou. Ela irritou-se:
-- É um sabonete supernatural. Não serve para tomar banho. 
-- Poderia me explicar para que serve um sabonete?
-- Esse é para levantar o astral. E, se não levantou o seu, o problema não é com o sabonete. É com você mesmo! 
Haja! Sbonetes também estão ganhando grifes! Os industrializados seguem a onda. Outro dia peguei uma embalagem que prometia vantagens adkcionais. Vitaminas potentes, hidratação. Deu a impressão de que bastava usar três vezes para nunca mais pensar em operação plástica. 
Rejuvenescimento e espuma, eis tudo. Mas o grande hit da tendência vem do Japão. Banho em ofurô entrou na nova novela das 7. É prova de que a moda está ficando mais forte que nunca. Quis experimentar. Toma-se um leve banho antes e entra-se numa tina escaldante. Nunca tinha conjugado o verbo ferver. Agora sei como se sente uma galinha que vai ser canja. Tentei levantar e sair. Avisaram:
-- Relaxe. Aproveite! Descanse e elimine as tensões. 
Insisti. Fervi mais um pouco. Só a cabeça de fora. Meu corpo ficando rosado. Comecei a lembrar das histórias de missionários capturados na África. Tenho um primo que é missionário. Ultimamente tem enviado cartas falando em fazer contato com uma tribo canibal. Talvez devesse convidá-lo para um banho de ofurô, para testar sua vocação. O fato é que saltei fora em exatos sete minutos e meio. Reconheço que fiquei aliviado ao sair. Qualquer ser humano relaxaria ao salvar-se da água escaldante. 
Sempre fui do tipo antiquado, para quem um banho é um banho. Fervidas à parte, reconheço que sabonetes delicados, essências, flores boiando na água e toalhas felpudas têm seu charme. No dia a dia tão banalizado, um banho calmo, mas glamouroso, é quase uma experiência existencial.

(Walcyr Carrasco)

01) Justifique o título dado ao texto: 

02) O autor contrapõe situações do presente a situaçoes do passado. Que diferenças ele vê entre as duas épocas em relação à arquitetura das moradias? 

03) Segundo a crônica, qual o recurso empregado em anúncios de apartamento para convencer os leitores a comprá-los? 

04) Que aspectos negativos dos apartamentos modernos o cronista aponta? O que você pensa a respeito disso? 

05) Como o cronista descreve cada um dos elementos abaixo? 

a) louças e sanitários:
b) sabonetes:
c) bolinhas: 

06) O cronista e uma amiga resolveram consumir esses produtos da moda. Sabendo disso, responda:

a) Como foi essa experiência para a amiga? 
b) Que episódios foram narrados como exemplos de seu contato com os modismos e novidades para o banho? 
c) Quais foram as consequências dessas experiências para o autor? 

07) Posicione-se sobre a passagem destacada no final do texto, argumentando bem: 

08) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Atividade sobre o texto "O pesadelo brasileiro", de Fabrício Carpinejar

O pesadelo brasileiro

Até nos meus sonhos, eu uso máscara. 
Quando não me encontro com a proteção facial, já fico ansioso. Mesmo que seja somente um sonho, eu me angustio com a ausência de prevenção. 
Acordei, gritando, de pesadelo, que estava de rosto limpo no metrô lotado ou no supermercado. Bate um terror no interior de minhas pálpebras fechadas, querendo descer ou sair correndo dali, questionando onde estou com a cabeça para colocar inocentes em risco. 
Meu inconsciente absorveu o perigo. Não consigo dormir fora das regras da nova normalidade. Sonhando ou acordado, tanto faz, as restrições me atingiram integralmente. 
Por isso não entendo como ainda brincamos de morto-vivo apesar das quase 130 mil vítimas de COVID-19; 
Não entendo as aglomerações praianas, as pessoas fingindo que ainda existe feriadão para viajar e agindo como se estivéssemos vacinados. 
Toda a orla carioca permaneceu repleta nos finais de semana, com gente rindo e se abraçando, jogando frescobol e futivolei, deitando-se para se bronzear nas cadeiras e nas cangas, sem nenhuma máscara, sem nenhum distanciamento, com os guarda-sóis coloridos se tocando impunemente. 
Lembrava um outro país distante e inacessível, aliás, é um outro país, verifica-se um outro país dentro do sete de setembro brasileiro que não se importa nem um pouco com os hospitais superlotados e cemitérios cada vez maiores. Vive-se em um mundo paralelo, de inconsequência egoísta e satisfação imediata. 
Flexibilização virou sinônimo de arruaça, de "salve-se quem puder". O banho de mar está liberado desde o início de agosto, mas os banhistas acham que é apenas para os doentes e transgridem a lei acampados na areia. 
A morte alheia sempre será um exagero para a indiferença. A alienação sempre será assintomática. 
Enquanto eu me preocupo em ser correto inclusive em meus sonhos, há quem, nem desperto, tem empatia. 

(Fabrício Carpinejar)

01) Justifique o título dado à crônica acima: 

02) A que o texto faz alusão? Qual o posicionamento do autor sobre tal episódio? 

03) Qual a sua opinião sobre esse episódio? Justifique sua resposta:

04) Quais precauções relacionadas no texto são mais enfatizadas? 

05) Escolha três adjetivos que representem o perfil das pessoas citadas no texto:

06) Elabore uma lista de prováveis argumentos a favor das pessoas citadas no texto e outra contra:

07) Para o autor, qual o pior pesadelo: o sonho que teve, ou o fato real no feriado? Justifique:

08) Você já se sentiu assim como o autor? Qual foi a "solução" para lidar com isso? 

09) Qual o papel da empatia no momento atual citado pelo autor?

10) Explique as passagens destacadas no texto, respectivamente: 

11) Copie do texto um trecho que revela que o autor se preocupa muito mais em contaminar as pessoas do que ele próprio pegar a doença: 

12) Por que o feriado de sete de setembro revelou um outro país? 

13) Observe a primeira passagem destacada no texto e informe um exemplo citado pelo autor que comprova tal afirmação: 

14) Que figura de linguagem encontra-se na terceira passagem destacada no texto? Justifique sua resposta: 

15) Na sua opinião, o que poderia ser feito para evitar fatos semelhantes ao que ocorreu no último feriado? 

16) Encontre no texto verbos referentes à primeira pessoa e em terceira e informe a pertinência desse uso: 

17) Qual o sujeito presente em "Vive-se em um mundo paralelo, de consequência egoísta e satisfação imediata"? Justifique sua resposta: 

18) Embora o autor se coloque contrário às atitudes das pessoas citadas no texto, em um momento ele usa "brincamos de morto-vivo". Justifique o uso da primeira pessoa do plural nesse contexto: 

19) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

20) Você acha que tem feito a sua parte, durante a pandemia? Por quê? 

(Atividade feita em parceria com as amigas Maria Aparecida
Ana Cristina Pontes e Zizi Cassemiro)

domingo, 6 de setembro de 2020

Atividade sobre a crônica "Deixe a casa em paz", de Fabrício Carpinejar


Deixe a casa em paz 

O que forçosamente absorvi em cinco meses na quarentena: deixar a casa em paz. Nem ela mais aguentava a minha exigência pela perfeição. Como estava sempre dentro dela, fui obrigado a fazer uma escolha: ou vivia o espaço com liberdade ou não vivia mais para consertá-la. 
Precisei perguntar: Quem manda em quem? Quem serve a quem?
Será que vale a pena dedicar a rotina inteira para que ela não tenha nenhum problema? A arrumação nunca terminaria. 
Comecei a me precaver com a insaciliabilidade da faxina. De diarista, migrava para a carteira de trabalho assinada. Já chegava ao ponto de varrer o teto e comemorar a localização de teias de aranha. 
Limpo o banheiro, estará sujo em dois dias. Esfrego pano na geladeira, estará desorganizada em uma semana. Lavo as roupas e estarão logo sujas para uma nova remessa nos varais. 
Casa não é hotel, não é cenário, não é estúdio. Não estava nem mais recebendo visitas. Qual sentido da permanente cobrança? Buscava uma crise de ansiedade pela absoluta falta de controle? 
Morar é gastar, é se espalhar, é quebrar algo, é dividir presença. 
Não que eu tenha me tornado desleixado. Eu só me preocupo menos. (...) O que me interessa é estarmos bem dentro desse nosso cantinho. Com os nossos defeitos em harmonia com os defeitos do imóvel.
Reservo momentos para uma bagunça essencial, orgânica, permitindo livros fora de ordem, computador perdido, colchonete de ginástica na sala. 
Passei a aceitar as suas falhas, já que nem podia chamar eletricista, hidráulico, pintor, marceneiro. 
Não me comovo mais com as chantagens das cicatrizes. Convivo com as manchas no braço do sofá, com o círculo do copo na mesa de madeira, com os fios puxados do tapete, com o controle remoto da televisão com durex na tampa, com as bolhas na parede do lado da jardineira, com os arranhões das rodinhas da cadeira do escritório no piso. 
São os sinais de que tem gente em casa, gente consciente respeitando o isolamento, dando tempo para a ciência encontrar a cura. Um dia a mais no confinamento é um dia a mais para a medicina no entendimento da doença. 

(Fabrício Carpinejar)

01) Justifique o título dado à crônica, aproveitando para explicar se há ou não nele uma ambiguidade: 

02) Responda, sinceramente, às duas perguntas presentes no segundo parágrafo: 

03) Copie do texto um trecho carregado de humor:

04) Posicione-se sobre a passagem destacada no final do texto, argumentando bem e dizendo se você tem feito a sua parte:

05) O que significa a passagem "Não me comovo mais com as chantagens das cicatrizes"? A que "cicatrizes" o autor se refere?

06) Para o autor, "Morar é gastar, é se espalhar, é quebrar algo, é dividir a presença". E para você? O que é?

07) Que mensagem o texto transmite? Comente:

08) O que você aprendeu em todo esse tempo de isolamento?

09) Elabore uma lista de sugestões viáveis para se manter ocupado(a) na quarentena:

10) Você concorda com a ideia do autor? O que leva as pessoas a terem tais atitudes em suas casas, nesse período de quarentena?

11) Em sua argumentação, o autor emite alguns questionamentos. Existe um provável interlocutor para tais perguntas? Explique:

12) A forma como o autor descreve sua relação com a própria casa é objetiva ou subjetiva? Justifique sua resposta e cite um exemplo que a comprove:

13) Transcreva do texto um exemplo de personificação, explicando seu raciocínio:

14) Se a casa do autor pudesse responder a esse texto, o que ela lhe diria? Imagine e elabore esse texto-resposta:

15) Faça um paralelo entre esse texto e o texto "Casa arrumada", de Lena Gino. Em que se identificam e em que se diferem? 

(Texto indicado pela querida amiga Lívia Pimenta 
e atividade feita em parceria com a amiga Zizi Cassemiro

Atividade sobre a crônica "Relógio digital", de Luís Fernando Veríssimo

Relógio digital

O pai achou que o filho já estava na idade para terem a tal conversa. Encontrou o menino brincando com um amiguinho e convidou os dois para uma caminhada. Começou com a agricultura. O agricultor, meu filho, coloca uma semente na terra, a semente cresce e se transforma em planta. Com os animais é a mesma coisa. O macho coloca uma semente na fêmea, a semente cresce etc. Com as pessoas também é assim. È por isso que nós temos órgãos sexuais, e o do homem é diferente do da mulher. O papai colocou uma sementinha na barriga da mamãe, a sementinha cresceu e você nasceu. 
Para que o amiguinho não se sentisse desprezado, o pai acrescentou:
-- Com seu pai e sua mãe também foi assim. 
Os dois meninos estavam interessadíssimos. Foi uma caminhada longa durante a qual o pai não parou de falar. Como o pai sabia de coisas! Para tudo que os meninos perguntavam sobre sexo o pai tinha uma resposta. Êta, pai! 
-- E os buracos negros, pai? 
-- Que buracos negros? 
-- Os buracos negros do Universo. 
-- Isso não tem nada a ver com sexo. 
-- Eu sei, mas como é que eles são? 
-- Ah, bom. Olha, sobre isso eu não sei muita coisa, não.
-- E, pai, como é essa história de supercondutores?
-- Não sei bem. 
Mas o menino continuava entusiasmado. Era o dia de saber de coisas. 
-- Pai, por que as ondas de rádio acompanham a curvatura da Terra e as ondas de TV não?
-- É porque, sei lá. Devem ser ondas diferentes. 
O menino já estava desanimado. 
-- Como é que funciona o relógio digital? 
-- Não sei, meu filho. 
Chegaram em casa e o pai perguntou:
-- Mais alguma pergunta sobre sexo?
Eles não tinham mais nenhuma pergunta sobre sexo e o pai foi embora.  Os dois meninos ficaram em silêncio. Então um disse: 
-- Que crânio o meu pai, hein? Sabe tudo. 
O amigo fez cara de pouco caso, lembrando todas as perguntas sem resposta. 
Mas o outro tinha a explicação.
-- É que ele se especializou, só isso. 

(Luís Fernando Veríssimo)

01) Justifique o título da crônica, aproveitando para sugerir um outro:

02) Que aspectos caracterizam esse texto como humorístico?

03) Qual é o tema central do texto? Justifique sua resposta: 

04) Em uma colocação diferente, séria, voltada para adultos, como o autor desenvolveria esse assunto?

05) Como leitor, qual das duas abordagens você preferiria? Por quê?

06) Circule no texto todos os vocativos, explicando seu raciocínio:

07) Por que o autor diz no início do texto para terem a tal conversa?

08) Você acha que o pai foi inteligente e feliz na abordagem do assunto? Por quê?

09) Qual foi a intenção do autor ao contar que o pai tirou todas as dívidas do filho quanto ao sexo, mas sobre outros assuntos nada soube responder? O que você pensa a esse respeito? 

10) O que você achou da explicaçãp do filho na última linha do texto? Fez sentido? 

11) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

(Atividade feita em parceria com a querida amiga Clécia Melo

sábado, 5 de setembro de 2020

Atividade sobre o texto "A descoberta do mundo", de Clarice Lispector

A descoberta do mundo 

O que eu quero contar é tão delicado quanto a própria vida. E eu quereria poder usar a delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura da camponesa que é o que me salva. 
Quando crianla, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em aprender uma atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais. 
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. Ou será que eu adivinhava, mas turvava a minha possibilidade de lucidez para poder, sem me escandalizar comigo mesma, continuar em inocência a me enfeitar para os meninos? 
Enfeitar-me aos onze anos de idade consistia em lavar o rosto tantas vezes até que a pele esticada brilhasse. Eu me sentia pronta, então. Seria minha ignorância um modo sonso e inconsciente de me manter ingênua para poder continuar, sem culpa, a pensar nos meninos? Acredito que sim. Porque eu sempre soube de coisas que nem eu mesma sei que sei. 
As minhas colegas de ginásio sabiam de tudo e inclusive contavam anedotas a respeito. Eu não entendia, mas fingia compreender para que elas não me desprezassem e à minha ignorância. 
Enquanto isso, sem saber da realidade, continuava por puro instinto a flertar com os meninos que me agradavam, a pensar neles. Meu instinto precedera a minha inteligência. 
Até que um dia, já passados os treze anos, como só então eu me sentisse madura para receber alguma realidade que me chocasse, contei a uma amiga íntima o meu segredo: que eu era ignorante e fingira de sabida. Ela mal acreditou, tão bem eu havia antes fingido. Mas terminou sentindo a minha sinceridade e ela própria encarregou-se ali mesmo na esquina de me esclarecer o mistério da vida. Só que também ela era uma menina e não soube falar de um modo que não ferisse a minha sensibilidade de então. Fiquei paralisada olhando para ela, misturando perplexidade, terror, indignação, inocência mortalmente ferida. 
Mentalmente eu gaguejava:mas por quê? mas por quê? O choque foi tão grande -- e por uns meses traumatizante -- que ali mesmo na esquina jurei alto que nunca iria me casar. 
Emora meses depois esqueceesse o juramento e continuasse com meus pequenos namoros. 
Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez. 
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. Esse adulto saberia como lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e os seus mistérios. 
Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino. 
Pois juro que a vida é bonita. 
(Clarice Lispector)

01) Justifique o título da crônica acima:

02) A que a narradora se refere quando menciona "os fatos da vida"?

03) Como a narradora se sentia em relação às colegas? E como ela se comportava diante delas?

04) Qual o caminho imediato que encontra para suprir sua ignorância?

05) E você? sente-se assim em algum aspecto? Por quê?

06) Você concorda com a narradora em sua afirmação no último parágrafo? Justifique sua resposta:

07) Como a narradora faz a sua própria descrição? Tente agora fazer a sua:

08) Por que a narradora demorou tanto para tomar coragem e fazer perguntas à amiga?

09) Que mensagem o texto transmite? Comente:

(Atividade feita em parceria com a amiga Maria Aparecida Carvalho)

domingo, 23 de agosto de 2020

Atividade sobre o texto "Na fila da liberdade", de Mário Prata


Na fila da liberdade

É interessante notar as diferenças em filas, de um lugar para o outro. Em Florianópolis, por exemplo, tanto nas filas de banco como de supermercado, as pessoas ficam conversando, com calma, esperando. Mesmo no Rio de Janeiro, enfrenta-se uma fila com mais humor.
Na cidade de São Paulo, a fila é uma tortura. A fila é triste e interminável. Parece que, se fosse possível, a gente mataria aqueles quatro ou cinco que estão na nossa frente. E, se alguém conversa com alguém, o assunto é a própria fila. Uns chegam a dizer palavras chulas. Xingam, como se a culpa fosse da pobre mocinha que está do outro lado da fila, muito mais aflita que os filenses. 
Pois foi numa dessas filas que o fato se deu. 
Era uma bela fila, de umas dez pessoas. E em supermercado, com aqueles carrinhos lotados, a gente ali olhando a mocinha tirar latinha por latinha, rolo por rolo de papel higiênico, aquela coisa que não tem fim mesmo. E naquela fila tinha um garotinho de uns dez anos, que existe apenas uma palavra para definir a figurinha: um pentelho. Como muito bem define o Houaiss: "pessoa que exaspera com sua presença, que importuna, que não dá paz aos outros". 
Pois ali estava o pentelhinho no auge de sua pentelhação. Quanto mais demorava, mais ele se aprimorava. E a mãe, ao lado, impassível. Chegou uma hora que o garoto começou a mexer nas compras dos outros. Tirar leite condensado de um carrinho e colocar no outro. Gritava, ria, dava piruetas. Era o reizinho da fila. E a mãe, não era com ela. 
Na fila do lado (aquela de velhos, deficientes e grávidas), tinha um casal de velhinhos. Mas velhinhos mesmo, de mãos dadas. Ali, pelos oitenta anos. A velhinha, não aguentando mais a situação, resolveu tomar as dores de todos e foi falar com a mãe. Que ela desse um jeito no garoto, que ela tomasse uma providência. No que a mãe, de alto e bom tom:
-- Educo meu filho assim, minha senhora. Com liberdade, sem repressão. Meu filho é feliz. É assim que se deve educar as crianças hoje em dia. 
A velhinha ainda ameaçou dizer alguma coisa, mas se sentiu antiga, ultrapassada. Voltou para a sua fila. Só que não encontrou o seu marido, que havia sumido. 
Não demorou muito e se aproximou da mãe do pentelho, abriu e entornou tudo na cabeça da mulher.
 -- O que é isso, meu senhor?
O velhinho colocou o vasilhame (que palavra antiga) no seu carrinho e, enquanto a mulher esbravejava e o pentelho morria de rir, disse bem alto: 
-- Também fui educado com liberdade!!! 
Foi ovacionado. 

(Mário Prata) 

01) Justifique o título dado à crônica acima:

02) Qual é o tema do texto? Justifique sua resposta:

03) Explique o emprego das aspas no texto:

04) Copie do texto um vocativo:

05) O que você faria no lugar da mãe do menino? Justifique sua resposta:

06) O que você achou da ideia do velhinho? Será que ela surtiu o efeito desejado?

07) Que ditado popular se adequa ao texto lido? Por quê?

08) Que mensagem o texto transmite? Comente:

09) Você também teria coragem de, assim como a velhinha, reclamar com a mãe do pentelho? Explique:

sábado, 22 de agosto de 2020

Atividade sobre o texto "Vizinha fake news", de Nádia Coldebella


Vizinha fake news

A primeira fake news da vida de Ana chegou quando ela devia ter três, quatro anos:
-- Menina, não aponta o dedo pro céu pra contar estrela que vai nascer verruga -- era a vizinha quem dizia. 
Isso foi terrível, primeiro porque ela não queria ter verruga nos dedos, depois porque amava contar estrelas. E ela tinha contado muitas estrelas aquele dia. Junto com a filha da vizinha. 
Foi dormir e o sono não foi tranquilo. Estava muito preocupada com a quantidade de verrugas que iriam nascer nos seus dedos.
-- Será que vai ser uma verruga para cada estrela? -- pensou no meio da noite, desatando a chorar. 
Felizmente, em seus dedos nenhuma verruga nasceu. Alguns dias depois, percebeu que os dedos da filha da vizinha estavam infestados de bolinhas estranhas. Anos mais tarde, Ana descobriu que isso era comum em crianças ansiosas, o que fazia todo o sentido em se tratando da filha da vizinha, que tinha uma mãe como aquela. 
Ana cresceu e passou a subir escondida no telhado da casa. Gostava de ficar lá, só olhando o céu e imaginando de onde teria vindo. Porém, nunca mais em sua cida contou estrelas. 
Depois dessas, outras fake news vieram, geralmente da mesma fonte. Não entendo porque algumas crianças gostam tanto de ouvir disparates, talvez porque aguça a imaginação fértil. Ana escutava muito a vizinha, sem perceber, na época, que ela dizia o que dizia com um prazer cruel estampado no rosto. 
As fakes news mais ouvidas eram as que a faziam sofrer, geralmente relacionadas com a possível morte de alguém de sua família. Ela se tornou obcecada em deixar o chinelo milimetricamente arrumado ao lado da cama, fora do caminho. de qualquer um. Se ele estivesse virado, provavelmente sua mãe morreria. E protagonizou uma briga farônica com o filho da vizinha, criativamente apelidado pela mãe de Mindinho -- embora ele fosse bem grande. O Mindinho a acusou de querer matar a própria mãe, porque Ana brincava de andar para trás. Essa era uma das únicas brincadeiras em que ela e a irmã não brigavam,mas que foi cortada do seu rol de diversões porque não poderia conviver com a culpa de ser a responsável pela morte da mãe. 
Na medida em que crescia, Ana resolveu testar algumas das histórias plantas pela vizinha entre a criançada da rua e que, ao seu ver, eram menos perigosas. 
Saiu várias vezes de casa, escondida, em dia de chuva, procurando um arco-íris acessível. Tinha esperança de passar por debaixo dele e voltar logo depois, só pra ver por alguns instantes como era ser menino. Vivia deitada no chão pedindo para os irmãos passarem por cima dela, só para não crescer. 
Assim, foi desvendando pouco a pouco as mentieas de que vinha sendo vítima. Quando a vizinha aparecia em casa, Ana insistentemente colocava a vassoura atrás da porta, bem a sua vista. 
-- Para com isso, Ana -- dizia a mãe. Mas a menina se fazia de surda. Esperava que a vizinha percebesse o recado e errasse o rumo da sua casa. Logo a mãe entendeu e, já farta de tantas fake news espalhadas pela abominável criatura, parou de abrir a porta de sua casa para ela, sempre inventando alguma desculpa para estar ocupada exatamente naquela hora, fosse que hora fosse. 
Depois disso, Ana passou algum tempo sem saber da vizinha. Mas já era tarde. As fake news da vizinha alteraram para sempre sua espontaneidade infantil. Anos depois marcaram, de forma muito cruel, o fim de sua adolescência, quando aquele ser humano foi responsável por mergulhar sua jovem vida numa nova onda de falsas notícias, completamente assombrosas, chaadas fofoca. 
É que a vizinha nunca havia esquecido da vassoura atrás da porta. 
Quero esclarecer que existem dois tipos de fofoca e duas intenções que a acompanham. Um tipo de fofoca é falar mentiras sobre a vida de alguém a terceiros, como se estas mentiras fossem verdades; o segundo tipo é divulgar os fatos verídicos da vida de uma pessoa, sem que essa pessoa tenha dado consentimento para isso. Das intenções, uma se trata de um simples comentário, pretensamente "inocente"; a outra intenção tem finalidade maligna da difamação. 
No caso de Ana foi o primeiro tipo de fofoca com a segunda das intenções. 
Faço aqui um parêntese: se algum leitor deseja saber como é o inferno, sugiro que prove o efeito da fofoca sobre sua vida. Vejam o que aconteceu com Ana. 
Dia após dia, a vizinha batia na porta de sua família para contar o que havia descoberto sobre a Ana.
-- A menina não estava na escola. Não! Não estava, não... Ela estava por aí, se é que você me entende. 
Ou então: 
-- Ela não tá trabalhando não. Vocês nem imaginam o que ela está fazendo agora. 
Embora os pais conhecessem a fama da boca maldita da rua, passaram a sondar a pobre adolescente e logo, para sua própria segurança, Ana passou a ter os passos vigiados. A vizinha foi desmascarada quando sugeriu que, noite dessas, Ana teria fugido de casa na madrugada e voltado antes de os pais acordarem. Curiosamente, essa foi a mesma noite em que Ana foi levada ao hospital pelo pai por conta de uma forte febre. 
Ana só se livrou da velha boca suja quando foi embora, estudar, em outra cidade. Levou anos para juntar os cacos das fake news do início da vida. Ela não só sobreviveu, como superou e esqueceu da vizinha. 
Recentemente, porém, Ana procurou uma psicóloga. Precisava de ajuda. O trauma havia voltado com força. É que ela tem acompanhado as notícias nas redes sociais e reconhece o padrão. Não fala nada para ninguém por medo de ser chamada de louca, mas tem certeza de que a vizinha anda dando consultoria em fake news por aí. 

(Nádia Coldebella)


01) Justifique o título dado ao texto acima:

02) Qual foi a primeira fake news da vida de Ana? Que sentimento isso gerou na menina? 

03) As fake news eram, na verdade, superstições. Qual a diferença entre uma e outra? Comente:

04) Você já tinha escutado falar nas superstições citadas no texto? Quais? Você conhece mais alguma?

05) Por que os dedos da filha da vizinha estavam infestados de "bolinhas estranhas"?

06) O que fez Ana passar a deixar o chinelo arrumado ao lado da cama? 

07) O que a menina deixou de fazer para não conviver com a "culpa pela morte da mãe"?

08) Como Ana descobriu que as histórias contadas pela vizinha não eram reais?

09) Por qual motivo a garota colocava a vassoura atrás da porta quando a vizinha aparecia em sua casa? 

10) De acordo com o texto, quais são os tipos de fofoca que existem? Qual deles você considera mais grave? Por quê? 

11) Qual dos tipos de fofoca a vizinha passou a fazer a respeito de Ana quando a garota atingiu a adolescência? Por que a mulher fazia isso?

12) Como os pais de Ana descobriram que as histórias contadas a respeito dela eram mentirosas? 

13) Explique o trecho em destaque no final do texto, comentando por que Ana tem certeza de que a vizinha está "dando consultoria": 

14) Circule no texto todos os vocativos:

15) Por que há palavras em itálico no texto? Que palavras poderiam substituí-las? 

16) Qual o sentido transmitido pela conjunção utilizada na primeira passagem em destaque no texto? 

17) O pronome ISSO (sublinhado no início do terceiro parágrafo) retoma o quê? 

18) Copie do texto um adjetivo utilizado para caracterizar a vizinha de Ana: 

19) Qual é a mensagem transmitida pelo texto? Comente: 

20) Localize no texto:

a) três numerais, classificando-os:
b) um advérbio de negação:
c) três marcas de oralidade:
d) dois substantivos próprios:
e) dois advérbios de tempo:
f) um pronome possessivo: 
g) dois adjetivos: 

(Atividade feita em parceria com a querida amiga Maiara Batista)

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Atividade sobre a crônica "Vende frango-se", de Martha Medeiros


Vende frango-se


Alguém encontrou esta pérola escrita numa placa em frente a um mercadinho de um morro do Rio: "Vende frango-se". É poesia? Piada? Apenas mais um erro de português? É a vida e ela é inventiva. Eu, que estou sempre correndo atrás de algum assunto para comentar, pensei: isto dá samba, dá letra, dá crônica. Vende frango-se, compra casa-se, conserta sapato-se.
Prefiro isso aos "q tc cmg?" espalhados pelo mundo virtual, prefiro a ingenuidade de um comerciante se comunicando do jeito que sabe, é o "beija eu" dele, o "que vim aqui casa?" de tantos.
Vende carne-se, vende carro-se, vende geleia-se. Não incentivo a ignorância, apenas concedo um olhar mais adocicado ao que é estranho a tanta gente, o nosso idioma. Tão poucos estudam, tão poucos leem, queremos o quê? Ao menos trabalham, negociam, vendem frangos, ao menos alguns compram e comem e os dias seguem, não importa a localização do sujeito indeterminado. Vive-se.
Talvez eu tenha é ficado agradecida por este senhor ou senhora que anunciou-se de forma errônea, porém inocente, já que é do meu feitio também trocar algumas coisas de lugar, e nem por isso mereço chicotadas, ao contrário: o comerciante do morro me incentivou a me perdoar. Esquecer o nome de um conhecido, não reconhecer uma voz ao telefone, chamar Gustavos de Olavos, confundir os verbos e embaralhar-se toda para falar: sou a rainha das gafes, dos tropeços involuntários. Tento transformar em folclore, há que falta de educação não é. Conserta destrambelhada-se. Eu me ofereço pro serviço. Quem não? Sabemos todos como é constrangedor não acertar, mas lá do alto do seu boteco, ele nos absolve. Ele, o autor de um absurdo, mas um absurdo muito delicado.
Vende frango-se, e eu achar graça é uma coisa boa, sinal de que ainda não estamos tão secos, rudes e patrulheiros, ainda temos grandeza para promover o erro alheio a uma inesperada recriação a gramática, fica eleito o dono da placa o Guimarães Rosa do morro, vale o que está escrito, e do jeito que está escrito, uma vez que entender, todos entenderam. Fica aqui minha homenagem à imperfeição. 

(Martha Medeiros)

01) Justifique o título dado à crônica acima:

02) Em que a autora encontrou inspiração para escrever tal texto?

03) Copie um trecho da crônica em que a autora demonstra a sua opinião sobre a forma como a oração "Vende frango-se" foi escrita:

04) Quais são as justificativas utilizadas pela autora após dizer que noso idioma é "estranho a tanta gente"?

05) Qual seria a maneira correta de escrever a placa elaborada pelo comerciante?

06) Por que a autora diz "não importa a localização do sujeito indeterminado"?

07) O título da crônica apresenta sujeito indeterminado? Justifique sua resposta:

08) Qual o objetivo do questionamento destacado no terceiro parágrafo?

09) Qual o sentido da palavra "pérola", utilizada logo no começo do texto?

10) Justifique as aspas usadas no primeiro parágrafo da crônica:

11) Qual das três opções dadas pela autora, em forma de pergunta, logo no parágrafo inicial, você escolheria? Por quê?

12) Em "É a vida e ela é inventiva", há uma opinião ou um fato? Por quê? O que você pensa a respeito disso?

13) Que crítica a autora faz à forma de escrever de alguns? Você concorda com ela?

14) Copie do texto uma antítese, explicando seu raciocínio:

15) Transcreva da crônica marcas de oralidade:

16) Que favor quem escreveu a placa fez à autora? Explique bem:

17) Pesquise sobre o autor Guimarães Rosa e explique por que ele foi citado pela autora:

18) Por que a autora faz uma "homenagem à imperfeição"?

19) Segundo a autora, a placa cumpre uma das principais funções da Língua. Qual é ela? Justifique sua resposta, utilizando uma passagem do texto:

20) Que mensagem a crônica transmite? Comente:

(Atividade feita em parceria com a querida amiga Maiara Batista)

domingo, 16 de agosto de 2020

Atividade sobre o texto "O apanhador de mulher", de Stanislaw Ponte Preta

O Apanhador de mulher 

Foi um dia aí que eu tive que ir ao Recife! Eu sou danado para chegar atrasado no Galeão. Eu ainda chego. Atrasado , mas chego. 
Dizia eu que tive de ir ao Recife e fui mesmo. Fui o último a entrar no avião e sentei ao lado de um cara que tinha uma cor puxada para o esverdeado: 
-- Esse sujeito deve ter um figado desses que se deixam subornar pelas hostes inimigas. Ou então é desses que têm mais medo de avião do que beatnik de sabonete. 
Mas não. Mal o avião levantou voo, o cara pediu um uísque duplo à aeromoça e puxou conversa. Explicou que estava saindo do Rio por causa de uma mulher. E que mulher, seu moço! Dessas que nem presidente de associação de família bota defeito. Ela soube que ele estava andando com a Julinha. 
-- Manja a Julinha? -- ele me perguntou.
Não. Eu não manjava, e era um trouxa por causa deste detalhe. A Julinha era uma das melhores coisas que podem acontecer a qualquer sujeito apreciador do gênero. 
E assim foi o cara, até Vitória. Na hora em que o avião ia descer, ele estava explicando que ali, na capital capixaba, tinha tido grandes momentos. Mas grandes momentos mesmo. Se meteu com uma pequena ótima, sem saber que ela tinha duas irmãs melhores ainda. E ele foi pulando de uma para outra. 
-- Apanhei as três, tá bem? -- batia na minha perna e dizia, balançando a cabeça, com um sorriso vitorioso (talvez em homenagem à já citada capital capixaba). E repetia: -- Apanhei as três! 
Depois da escala em Vitória, tentei sentar longe do folgazão, mas me dei mal. Ele me viu sozinho na poltrona, isto é, com a poltrona do lado dando sopa, e não conversou. Pediu mais um uísque duplo à aeromoça e retomou o assunto mulher. Descreveu como é que foi com a mulher do quinto andar lá do prédio onde ele mora. No começo não queria. Sabe como é -- a gente não deve se meter com essas desajustadas que moram perto, porque fica difícil de controlar. E parecia que ele estava adivinhando. Todo dia de manhã era uma bronca, porque todo dia de manhã -- é lógico -- saía uma mulher do seu apartamento, e a dona do quinto andar ficava na paquera. 
-- Mandei andar, viu? 
-- Qual?
-- A do quinto. 
-- Ah, sim...
Entre Vitória e Salvador o sujeito já tinha apanhado mais mulher do que o falecido Juan Tenório. Mas nem por isso deixou de contar mais umas duas ou três aventuras amorosas, enquanto aqui o filho de Dona Dulce aproveitou a boca para comer uns dois ou três acarajés. Era eu com o acarajé e ele com mulher. Desisti até de me livrar do distinto. No Recife cada um de nós iria para o seu lado e eu não veria mais o garanhão. 
Retornamos ao avião. Ele firme, do meu lado. Pediu outro uísque duplo à aeromoça -- a qual, inclusive, elogiou, afirmando que tinha umas ancas notáveis. 
-- Hem? Hem? Notáveis! -- e me catucava com o cotovelo. 
Foi quando sobrevoamos Penedo que ele confessou que já tinha casado três vezes. Felizmente não tivera filhos, mas mulher não faltou. Depois do terceiro casamento, com várias senhoras de diversos tamanhos e feitios intercalados entre cada casamento, resolveu que não era trouxa.  
-- Comigo não, velhinho. Chega de casar! -- nova catucada: -- Comigo agora é só no passatempo. Por falar nisso, você tem algum compromisso no Recife?  
Fingi que tinha. Uma senhora que não poderia ser suspeitada, caso contrário poderia sair até tiro. Ele compreendeu. Embora tremendo boquirroto, concordou que, às vezes, é preciso manter o sigilo. Mas era uma pena eu não estar disponível no Recife. Ele conhecia umas garotas bem interessantes. Era bem possível que, já no aeroporto de Guararapes, algumas estivessem à sua espera.  
-- Você dá uma espiada -- aconselhou-me. Se alguma delas me conviesse e -- naturalmente -- se a tal senhora inconfessável falhasse...
-- A gente vai para a praia. De noite... aqueles mosquitinhos mordendo a gente. 
Disse isso com tal entusiasmo na voz que, por um instante, eu cheguei a pensar que ele gostasse mais do mosquitinho do que de mulher. Mas foi só por um instante. Enquanto o avião manobrava e descia no Recife, o cara ainda falou numa prima lá dele, pela qual tivera uma bruta paixão. 
Aí o avião parou, todo mundo desamarrou o cinto e -- coisa estranha -- o meu companheiro de viagem voltou a ficar esverdeado. Saímos, apanhamos as malas, e quando eu ia pegar um táxi, lá estava o cara sozinho, também atrás de condução. Ele me viu, sorriu e explicou: 
-- Olha, meu velho, aquilo tudo era bafo. Eu não apanho mulher nenhuma. Eu tenho é pavor de viajar e só falando de mulher é que eu perco o medo. 

(Stanislaw Ponte Preta)

01) Justifique o título dado à crônica: 

02) Qual o fato principal do texto? Justifique sua resposta:

03) Duas personagens estão envolvidas no tema, no desenrolar dos fatos. Por quê?

04) Como inicia o fato no texto?

05) Comente o diálogo e a reação das personagens durante o desenvolvimento do fato:

06) Há um aspecto típico e comum a uma personagem: o copo de uísque. Por quê?

07) Uma das personagens conta vantagens sobre mulheres e aventuras. Elas são reais? Justifique sua resposta: 

08) Havia uma atitude que acontecia, quase sempre, por parte da personagem que falava excessivamente. Qual? Era sinal de nervosismo ou um simples hábito? Comente: 

09) Comente a defesa da personagem -- falando de mulher -- para espantar esse sentimento:

10) Que mensagem o texto transmite? Comente: 

11) Que reflexão o cronista quis suscitar em nós, leitores?

12) Comente o final da crônica e se posicione, dizendo se ele foi ou não surpreendente, argumentando bem: 

13) Copie do texto marcas de oralidade:  

14) Circule todos os vocativos da crônica: 

15) Transcreva do texto uma passagem carregada de humor: 

16) Copie da crônica uma expressão utilizada no sentido conotativo, explicando seu raciocínio: 

17) Localize no texto:

a) um numeral ordinal:
b) dois substantivos próprios:
c) um numeral multiplicativo:
d) dois numerais cardinais:
e) um advérbio de negação:
f) um advérbio de lugar:
g) um advérbio de tempo: 
h) um pronome possessivo:

(Atividade feita em parceria com a colega de grupo: Ana Voig)

domingo, 9 de agosto de 2020

Atividade sobre o texto "Amores grisalhos", de Walcyr Carrasco


Amores grisalhos

Quando cheguei em casa, minha mãe colocou o tricô de lado, ajeitou os óculos e disse, com voz trêmula: 
-- Preciso falar com você.
"Lá vem problema", refleti, com a lógica dos filhos. Quando alguém com 65 anos vem visitar o rebento e pede conversa séria, já se imagina algum achaque da velhice. Porém, quem quase teve um enfarte fui eu, ao ouvir a verdade dos fatos. 
-- Estou namorando.
-- O quê, mamãe?
-- Por que esse espanto, sou viúva, não tenho o direito?
Suspirei, surpreso com as voltas que o mundo dá. Tivemos a mesma conversa, com os papéis trocados, quando eu tinha uns 12 anos. Na época, ela se revoltou com a minha escolha:
-- Justo aquela? Uma menina sem sal e sem açúcar! 
Agora cabia a mim opinar. Quis saber quem era. 
-- Um senhor do prédio vizinho. Foi ferroviário, como seu pai. Ele me trata bem: todo dia me traz um agrado. Ontem me deu três mamões papaia.
"Pelo menos, esperto ele é", pensei intimamente. "Ela sempre foi prática. Nunca gostou de flores". Resolvi.
-- Você gosta dele, mãe?
-- Adoro.
-- Então vá em frente. Muitas amigas minhas de 30 têm menos sorte. 
Ela retomou o tricô com um sorriso no rosto enrugado. Mais tarde, encontrei com uma amiga. Narrei o episódio. Ela espantou-se. 
-- Você não ficou preocupado?
-- Se fosse um surfista de 25, talvez eu estivesse, e muito. Mas ele tem 63.
Nos dias que se seguiram, surpreendi-me com o choque das pessoas. 
-- Mas como, namorando com 65 anos? Não faz mal? gritou uma conhecida. 
Um amigo cortara relações com a mãe viúva quando ela se casou de novo.
-- Não piso mais na casa dela. Não suporto aquele homem.
-- Quem tem de suportar é ela, não você, retruquei.
Outro me confessou que, quando a mãe quis casar-se, há dez anos, foi tal o escândalo provocado por ele e pelos irmãos que a pobre senhora desistiu. Atualmente, ela não se aguenta de solidão, porque os filhos jamais podem visitá-la. O rapaz gemeu:
-- A gente devia ter permitido. Teria sido melhor.
Também ouvi falar de vários casais que se apaixonam depois dos 70. É algo que ocorre apenas nas grandes cidades, como São Paulo, onde ninguém tem tempo para ninguém, e os velhos acabam sozinhos. Não é à toa que gente de cabelo branco anda em busca de novas emoções. 
O grande problema são os filhos. Gente séria que, na adolescência, andou queimando sutiã e ouvindo rock-and-roll, agora reclama quando os pais entram num grupo da terceira idade e renascem. 
Revolta pelas repressões do passado ou inveja porque a vida dos pais está ficando muito mais interessante do que a própria? Por que não, afinal?
O melhor de tudo é que as histórias de amor provectas tendem a ser mais duradouras. Nessa fase, ninguém tem disposição para ficar namorando e separando, e um tende a relevar as manias do outro. Quem criou filhos como eu e meus amigos deve ter mesmo uma paciência inesgotável. 
Por falar nisso, e minha mãe?
A história que contei tem cinco anos. 
Tirou a roupa escura, pintou as unhas e continua apaixonada. 
Sempre, muito feliz. 

(Walcyr Carrasco)

01) Justifique o título dado ao texto acima:

02) Qual o assunto abordado na crônica? O que você pensa sobre isso?

03) O que significa a expressão "sem sal e sem açúcar!"? Você costuma empregá-la?

04) Copie uma passagem carregada de humor, explicando seu raciocínio:

05) Circule no texto os vocativos:

06) Transcreva da crônica um trecho que revela uma certa incoerência, justificando sua escolha:

07) Que palavra no texto encontra-se em itálico? Por quê?

08) Que mensagem o texto transmite? Comente:

09) Você acha que as pessoas costumam ser preconceituosas com relação ao namoro depois dos 60 anos? Por quê?