Mostrando postagens com marcador Atividade sobre conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Atividade sobre conto. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de julho de 2020

Atividade sobre o conto "Macacos me mordam", de Fernando Sabino

Macacos me mordam 

Morador de uma cidade do interior de Minas me deu conhecimento do fato: diz ele que há tempos um cientista local passou telegrama para outro cientista, amigo seu, residente em Manaus:
"Obsequio providenciar remessa 1 ou 2 macacos".
Necessitava ele de fazer algumas inoculações em macaco, animal difícil de ser encontrado na localidade. Um belo dia, já esquecido da encomenda, recebeu resposta:
"Providenciada remessa 600 restante seguirá oportunamente".
Não entendeu bem: o amigo lhe arranjara apenas um macaco, por seiscentos cruzeiros? Ficou aguardando, e só foi entender quando o chefe da estação veio comunicar-lhe:
-- Professor, chegou sua encomenda. Aqui está o conhecimento para o senhor assinar. Foi preciso trem especial. 
E acrescentou:
-- É macaco que não acaba mais!
Ficou aterrado:o telégrafo errara ao transmitir "1 ou 2 macacos", transmitira "1002 macacos"! E na estação, para começar, nada menos que seiscentos macacos engaiolados aguardavam desembarque. Telegrafou imediatamente ao amigo:
"Pelo amor Santa Maria Virgem suspenda remessa restante".
Ia para a estação, mas a população local, surpreendida pelo acontecimento, já se concentrava ali, curiosa, entusiasmada, apreensiva:
-- O que será que o professor pretende com tanto macaco?
E a macacada, impaciente e faminta, aguardava destino, empilhada em gaiolas na plataforma da estação, divertindo a todos com suas macaquice. O professor não teve coragem de aproximar-se: fugiu correndo, foi se esconder no fundo de sua casa. À noite, porém, o agente da estação veio desentocá-lo:
-- Professor, pelo amor de Deus, vem dar um jeito naquilo.
O professor pediu tempo para pensar. O homem coçava a cabeça, perplexo:
-- Professor, nós todos temos muita estima e muito respeito pelo senhor, mas tenha paciência: se o senhor não der um jeito eu vou mandar trazer a macacada para sua casa. 
-- Para minha casa? Você está maluco?
O impasse prolongou-se ao longo de todo o dia seguinte. Na cidade não se comentava outra coisa, e os ditos espirituosos circulavam:
-- Macacos me mordam! 
-- Macaco, olha o teu rabo.
À noite, como o professor não se mexesse, o chefe da estação convocou as pessoas gradas do lugar: o prefeito, o delegado, o juiz.
-- Mandar de volta por conta da prefeitura?
-- A prefeitura não tem dinheiro para gastar com macacos. 
-- O professor muito menos. 
-- Já estão famintos, não sei o que fazer.
-- Matar? Mas isso seria uma carnificina!
-- Nada disso -- ponderou o delegado: -- Dizem que macaco guisado é um bom prato...
Ao fim do segundo dia, o agente da estação, por conta própria, não tendo outra alternativa, apelou para o último recurso -- o trágico, o espantoso recurso da pátria em perigo: soltar os macacos. E como os habitantes de Leide durante o cerco espanhol, soltando os diques do mar do Norte para salvar a honra da Holanda, mandou soltar os macacos. E os macacos foram soltos! E o mar do Norte, alegre e sinistro, saltou para a terra com a braveza dos touros que saltam para a arena quando se lhes abre o curral -- ou como macacos saltam para a cidade quando se lhes abre a gaiola. Porque a macacada, alegre e sinistra, imediatamente invadiu a cidade em pânico. Naquela noite ninguém teve sossego.
Quando a mocinha distraída se despia para dormir, um macaco estendeu o braço da janela e arrebatou-lhe a camisola. No botequim, os fregueses da cerveja habitual deram com seu lugar ocupado por macacos. A bilheteria do cinema, horrorizada, desmaiara, ante o braço cabeludo que se estendeu através das grades para adquirir uma entrada. A partida de sinuca foi interrompida porque de súbito despregou-se do teto ao pano verde um macaco e fugiu com a bola 7. Ai de quem descascasse preguiçosamente uma banana! Antes de levá-la à boca um braço de macaco saído não se sabia de onde a surrupiava. No barbeiro, houve um momento em que não restava uma só cadeira vaga: todas ocupadas com macacos. E houve também o célebre macaco em casa de louças, nem um só pires restou intacto. A noite passou assim, em polvorosa. Caçadores improvisados se dispuseram a acabar com a praga -- e mais de um esquivo notívago correu risco de levar um tiro nas suas esquivanças, confundido com macaco dentro da noite. 
No dia seguinte a situação perdurava: não houve aula na escola pública, porque os macacos foram os primeiros a chegar. O sino da igreja badalava freneticamente desde cedo, apinhado de macacos, ainda que o vigário houvesse por bem suspender a missa naquela manhã, porque havia macaco escondido até na sacristia. 
Depois, com o correr dos dias e dos macacos, eles foram escasseando. Alguns morreram de fome ou caçados implacavelmente. Outros fugiram para a floresta, outros acabaram mesmo comidos ao jantar, guisados como sugerira o delegado, nas mesas mais pobres. Um ou outro surgia ainda de vez em quando num telhado, esquálido, assustado, com bandeirinha branca pedindo paz à molecada que o perseguia com pedras. Durante muito tempo, porém, sua presença perturbadora pairou no ar da cidade. O professor não chegou a servir-se de nenhum para suas experiências. Caíra doente, nunca mais pusera os pés na rua, embora durante algum tempo muitos insistissem em visitá-la pela janela. 
Vai um dia, a cidade já em paz, o professor recebe outro telegrama de seu amigo em Manaus:
"Seguiu resto encomenda".
Não teve dúvidas: assim mesmo doente, saiu de casa imediatamente, direto para a estação, abandonou a cidade para sempre, e nunca mais se ouviu falar nele. 

(Fernando Sabino)

01) Justifique o título do conto em questão:

02) Por que algumas frases aparecem sem acentuação e sem pontuação?

03) O que significa a expressão "Macacos me mordam"? Você costuma usá-la?

04) Circule no conto um vocativo:

05) O que gerou a confusão na entrega da encomenda?

06) O que esses problemas causaram? Qual a consequência para o protagonista?

07) Que ideia teve o delegado? O que você pensa a respeito disso?

08) Qual a decisão do chefe da estação? O que você faria no lugar dele?

09) Copie do texto uma passagem carregada de humor:

10) O que você faria no lugar do professor, nos dois momentos do texto?

11) Que mensagem o texto transmite? Comente:

(Texto sugerido pela minha colega de curso e xará Andréa de Macena)

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Atividade sobre o conto "Macacos", de Clarice Lispector


Macacos

Da primeira vez que tivemos em casa um mico foi perto do Ano Novo. Estávamos sem água e sem empregada, fazia-se fila para carne, o calor rebentara -- e foi quando, muda de perplexidade, vi o presente entrar em casa, já comendo banana, já examinando tudo com grande rapidez e um longo rabo. Mais parecia um macacão ainda não crescido, suas potencialidades eram tremendas. Subia pela roupa estendida na corda, de onde dava gritos de marinheiro, e jogava cascas de banana onde caíssem. E eu exausta. Quando me esquecia e entrava distraída na área de serviço, o grande sobressalto: aquele homem alegre ali. Meu menino menor sabia, antes de eu saber, que eu me desfaria do gorila: "E se eu prometer que um dia o macaco vai adoecer e morrer, você deixa ele ficar? e se você soubesse que de qualquer jeito ele um dia vai cair da janela e morrer lá embaixo?" Meus sentimentos desviavam o olhar. A inconsciência feliz e imunda do macaco-pequeno tornava-me responsável pelo seu destino, já que ele próprio não aceitava culpas. Uma amiga entendeu de que amargura era feita a minha aceitação, de que crimes se alimentava meu ar sonhador, e rudemente me salvou: meninos de morro apareceram numa zoada feliz, levaram o homem que ria, e no desvitalizado Ano Novo eu pelo menos ganhei uma casa sem macaco. 
Um ano depois, acabava eu de ter uma alegria, quando ali em Copacabana vi o agrupamento. Um homem vendia macaquinhos. Pensei nos meninos, nas alegrias que eles me davam de graça, sem nada a ver com as preocupações que também de graça me davam, imaginei uma cadeia de alegria: "Quem receber esta, que a passe a outro", e outro para outro, como o frêmito num rastro de pólvora. E ali mesmo comprei a que se chamaria Lisette. 
Quase cabia na mão. Tinha saia, brincos, colar e pulseira de baiana. E um ar de imigrante que ainda desembarca com o traje típico de sua terra. De imigrante também eram os olhos redondos. 
Quanto a essa, era mulher em miniatura. Três dias esteve conosco. Era de uma tal delicadeza de ossos. De uma tal extrema doçura. Mais que os olhos, o olhar era arredondado. Cada movimento, e os brincos estremeciam; a saia sempre arrumada, o colar vermelho brilhante. Dormia muito, mas para comer era sóbria e cansada. Seus raros carinhos eram só ordida leve que não deixava marca. 
No terceiro dia estávamos na área de serviço admirando Lisette e o modo como ela era nossa; "Um pouco suave demais", pensei com saudade do meu gorila. E de repente foi meu coração respondendo com muita dureza: "Mas isso não é doçura. Isto é morte". A secura da comunicação deixou-me quieta. Depois eu disse aos meninos: "Lisette está morrendo". Olhando-a, percebi então até que ponto de amor já tínhamos ido. Enrolei Lisette num guardanapo, fui com os meninos para o primeiro pronto-socorro, onde o médico não podia atender porque operava de urgência um cachorro. Outro táxi -- Lisette pensa que está passeando, mamãe -- outro hospital. Lá deram-lhe oxigênio.
E com o sopro de vida, subitamente revelou-se uma Lisette que desconhecíamos. De olhos muito menos redondos, mais secretos, mais aos risos e na cara prognata e ordinária uma certa altivez irônica; um pouco mais de oxigênio, e deu-lhe uma vontade de falar que ela mal aguentava ser macaca; era, e muito teria a contar. Breve, porém, sucumbia de novo, exausta. Mais oxigênio e dessa vez uma injeção de soro a cuja picada ela reagiu com um tapinha colético, de pulseira tilintando. O enfermeiro sorriu: "Lisette, meu bem, sossega!"
O diagnóstico: não ia viver, a menos que tivesse oxigênio à mão e, mesmo assim, improvável. "Não se compra macaco na rua", censurou-me ele abanando a cabeça, "às vezes já vem doente". Não, tinha-se que comprar macaca certa, saber da origem, ter pelo menos cinco anos de garantia do amor, saber do que fizera ou não fizera, como se fosse para casar. Resolvi um instante com os meninos. E disse para o enfermeiro: "O senhor está gostando muito de Lisette. Pois se o senhor deixar ela passar uns dias perto do oxigênio, no que ela ficar boa, ela é sua". Mas ele pensava. "Lisette é bonita!", implorei eu. "É linda", concordou ele pensativo. Depois ele suspirou e disse: "Se eu curar Lisette, ela é sua". Fomos embora, de guardanapo vazio. 
No dia seguinte telefonaram, e eu avisei aos meninos que Lisette morrera. O menor me perguntou: "Você acha que ela morreu de brincos?". Eu disse que sim. Uma semana depois o mais velho me disse: "Você se parece tanto com Lisette!" "Eu também gosto de você", respondi.

(Clarice Lispector)

01) Justifique o título dado ao conto acima, aproveitando para sugerir um outro:

02) Copie do texto uma parte carregada de humor, explicando sua escolha:

03) Quem era Lisette? Descreva-a, com base nos detalhes do conto:

04) Circule no texto exemplos de vocativo:

05) Justifique todas as aspas utilizadas no conto:

06) Explique a passagem destacada no final do texto:

07) O narrador participa da história? Comprove sua resposta com uma passagem do texto:

08) No final do conto, que implícito a mãe percebeu na fala do filho mais velho? Explique:

09) Justifique a afeição da personagem pela macaca e a aversão pelo macaco:

10) Na passagem "Aquele homem alegre ali", a quem a narradora se refere? Que figura de linguagem foi utilizada nessa expressão?

11) Quais descrições da narradora referentes aos macacos lembram características humanas? Com qual provável intuito?

12) O que revela a passagem "Olhando-a, percebi então até que ponto de amor tínhamos ido"?

13) Quanto tempo a narradora permaneceu com cada um dos macacos? Comprove com passagens do texto:

14) Que mensagem o conto transmite? Comente:

15) Que sentimentos ou sensações ele provocou em você? Explique bem:

16) Escreva UM parágrafo dissertativo-argumentativo sobre a ligação e a afeição depositada nos animais de estimação e a importância deles em nossa vida:

17) Crie um final diferente para o conto em questão:

18) Desenhe como você acha que era Lisette, caprichando nos detalhes:

19) Localize no texto:

a) três numerais cardinais:
b) dois numerais ordinais:
c) um substantivo próprio:
d) três advérbios de tempo:
e) um advérbio de negação:
f) um advérbio de intensidade:

(Atividade feita em parceria com a minha querida amiga Zizi Cassemiro!)

terça-feira, 7 de julho de 2020

Atividade sobre o conto "Olhos d´água", de Conceição Evaristo

Olhos d´água

Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando... De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe? 
Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi a conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo... Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela... Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lava-lava, o passa-passa das roupagens alheias, se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo dela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela?
Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe. Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nesses dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões, a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes, colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. As flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria de uma maneira triste e com um sorriso molhado... Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía. 
Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se sentava na soleira da porta e, juntas, ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu. Umas viravam carneirinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos, e havia aquelas que eram só nuvens, algodão doce. A mãe, então, espichava o braço, que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?
Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de prantos balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraaco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva... Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, por que não conseguia lembrar a cor dos olhos dela? 
E naquela noite a perguntava continuava me atormentando. Havia anos que eu estava fora de inha cidade natal; Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e de todas as mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas as nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?
E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento resolvi deixar tudo e, no dia seguinte, voltar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?
Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, pantos e prantos para enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d´água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum. 
Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas. 
Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma se tornam o espelho para os olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocoyu suavemente no meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho, como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando segredo. Eu escutei quando, sussurrando, minha filha falou:
-- Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos? 
(Conceição Evaristo)

01) Justifique o título dado ao conto, mencionando como ele ajuda na compreensão do texto:

02) O que significa o verbo "martelando"? Por que ele foi repetido? 

03) O que incomodava tanto a narradora? O que você pensa a respeito disso? 

04) Copie dois trechos carregados de descrição, explicando a importância deles para o contexto: 

05) Localize no texto uma antítese, explicando seu raciocínio:

06) Explique a passagem destacada no conto, dizendo que sentimento ela despertou em você e que problema social ela denuncia: 

07) Transcreva do texto uma passagem que contém humor, explicando sua escolha: 

08) Copie do conto uma prosopopeia, justificando sua resposta: 

09) Que solução a mãe encontrava para distrair a fome das filhas? Isso funcionava? Comprove com uma passagem do texto:

10) Quantas vezes aparece a cobrança da narradora sobre a cor dos olhos da mãe? Com que intuito?

11) Copie do conto uma passagem que tenta fazer suspense, explicando que efeito ela causa na história e no leitor:

12) Você acha que realmente era grave ela não se lembrar da cor dos olhos da mãe? Por quê? 

13) O texto evidencia problemas sociais. Quais são eles? Comprove com trechos do conto: 

14) Que mensagem o conto transmite? Comente: 

(Atividade feita em parceria com o colega de grupo: Henrique Souza)

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Atividade sobre o conto "Perdoando Deus", de Clarice Lispector


Perdoando Deus

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. 
Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso "fosse mesmo" o que eu sentia -- e não possivelmente um equívoco de sentimento -- que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.
E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos. 
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contiguidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.
Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar -- não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele -- mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.
... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em ofererenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria -- e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza se quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mudo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe. 

(Clarice Lispector)

01) Justifique o título dado ao conto acima:

02) Explique a passagem em destaque no final do primeiro parágrafo do texto:

03) O que aconteceu na história e que mudou o ritmo das emoções da protagonista?

04) Por que ela acha que Deus escolheu justamente um rato morto para confrontá-la?

05) Em que vingança a protagonista pensou? O que você pensa com relação a isso?

06) Interprete o trecho destacado no sexto parágrafo:

07) Copie do conto duas antíteses, explicando seu raciocínio:

08) Existe, no texto, algum paradoxo? Justifique sua resposta:

09) Transcreva do conto uma passagem carregada de humor:

10) Localize no texto um pleonasmo, explicando sua escolha:

11) Explique a passagem destacada no final do texto, posicionando-se sobre ela:

12) Que mensagem o conto transmite? Comente:

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Atividade sobre o conto "Como os campos", de Marina Colasanti

Como os campos

Preparavam-se aqueles jovens estudiosos para a vida adulta, acompanhando um sábio e ouvindo seus ensinamentos. Porém, como fizesse cada dia mais frio com o adiantar-se do outono, dele se aproximaram e perguntaram:
-- Senhor, como deveremos vestir-nos?
-- Vistam-se como os campos -- respondeu o sábio.
Os jovens estão subiram a uma colina e durante dias olharam para os campos. Depois dirigiram-se à cidade, onde compraram tecidos de muitas cores e fios de muitas fibras. Levando cestas carregadas, voltaram para junto do sábio.
Sob seu olhar abriram os rolos das sedas, desdobraram as peças de damasco, e cortaram quadrados de veludo, e os emendaram com retângulos de cetim. Aos poucos foram recriando em longas vestes os campos arados, o vivo verde dos campos em primavera, o pintalgado da germinação. E entremearam fios de ouro no amarelo dos trigais, fios de prata no alagado das chuvas, até chegarem ao branco brilhante da neve. As vestes suntuosas estendiam-se como mantos. O sábio nada disse. 
Só um jovem pequenino que não havia feito sua roupa. Esperava que o algodão estivesse em flor, para colhê-lo. E quando teve os tufos, os fiou. E quando teve os fios, os teceu. Depois vestiu sua roupa e foi para o campo trabalhar. 
Arou e plantou. Muitas e muitas vezes sujou-se de terra. E manchou-se do suo das frutas e da seiva das plantas. A roupa já não era branca, embora ele a lavasse no regato. Plantou e colheu. A roupa rasgou-se, o tecido puiu-se. O jovem pequenino emendou os rasgões com fios de lã, costurou remendos onde o pano cedia. Quando a neve veio, prendeu em sua roupa mangas mais grossas para se aquecer. 
Agora a roupa do jovem era de tantos pedaços, que ninguém poderia dizer como havia começado. E estando ele lá fora uma manhã, com os pés afundados na terra para receber a primavera, um pássaro o confundiu com o campo e veio pousar em seu ombro. Ciscou de leve entre os fios, sacudiu as penas. Depois levantou a cabeça e começou a cantar. 
Ao longe, o sábio que tudo olhava, sorriu.
(Marina Colasanti)

01) Justifique o título dado ao conto:

02) Todos os jovens entenderam da mesma maneira a explicação do sábio? Justifique sua resposta:

03) Copie do conto uma comparação, explicando-a:

04) Circule no texto um vocativo:

05) Que fato comprova quem realmente se vestiu como os campos? O que você pensa a respeito disso?

06) Por que você acha que o sábio preferiu não dizer nada?

07) Que mensagem o texto transmite?

08) Qual foi o ensinamento que, de acordo com o texto, os jovens poderiam aprender para a vida adulta? 

09) Complete o final do texto: "Ao longe, o sábio que tudo olhava, sorriu", PORQUE... 

10) Por que a autora faz uma descrição detalhada da cor? 

11) O conto revela uma série de ações para mostrar como a veste do jovem pequenino vai se transformando. Copie pelo menos três dessas ações: 

12) Que outro título você daria ao conto lido? 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Atividade sobre o texto "O homem que espalhou o deserto", de Ignácio de Loyola Brandão

O homem que espalhou o deserto 

Quando menino, costumava apanhar a tesoura da mãe e ia para o quintal, cortando folhas das árvores. Havia mangueiras, abacateiros, ameixeiras, pessegueiros e até mesmo jabuticabeiras. Um quintal enorme, que parecia uma chácara e onde o menino passava o dia cortando folhas. A mãe gostava, assim ele não ia para a rua, não andava em más companhias. E sempre que o menino apanhava o seu caminhão de madeira (naquele tempo, ainda não havia os caminhões de plástico, felizmente) e cruzava o portão, a mãe corria com a tesoura: tome, filhinho, venha brincar com as suas folhas. Ele voltava e cortava. As árvores levavam vantagem, porque eram imensas e o menino pequeno. O seu trabalho rendia pouco, apesar do dia-a-dia constante, de manhã à noite. 
Mas o menino cresceu, ganhou tesouras maiores. Parecia determinado, à medida que o tempo passava, a acabar com as folhas todas. Dominado por uma estranha impulsão, ele não queria ir à escola, não queria ir ao cinema, não tinha namoradas ou amigos. Apenas tesouras, das mais diversas qualidades e tipos. Dormia com elas no quarto. À noite, com uma pedra de amolar, afiava bem os cortes, preparando-as para as tarefas do dia seguinte. Às vezes, deixava aberta a janela, para que o luar brilhasse nas tesouras polidas. 
A mãe, muito contente, apesar do filho detestar a escola e ir mal nas letras. Todavia, era um menino comportado, não saía de casa, não andava em más companhias, não se embriagava aos sábados como os outros meninos do quarteirão, não frequentava ruas suspeitas onde mulheres pintadas exageradamente se postavam às janelas, chamando os incautos. Seu único prazer eram as tesouras e o corte das folhas. 
Só que, agora, ele era maior e as árvores começaram a perder. Ele demorou apenas uma semana para limpar a jabuticabeira. Quinze dias para a mangueira menor e vinte e cinco para a mangueira maior. Quarenta dias para o abacateiro que era imenso, tinha mais de cinquenta anos. E seis meses depois, quando concluiu, já a jabuticabeira tinha novas folhas e ele precisou recomeçar. 
Certa noite, regressando do quintal agora silencioso, porque o desbastamento das árvores tinha afugentado pássaros e destruído ninhos, ele concluiu que de nada adiantaria podar as folhas. Elas se recomporiam sempre. É uma capacidade da natureza, morrer e reviver. Como o seu cérebro era diminuto, ele demorou meses para encontrar a solução: um machado. 
Numa terça-feira, bem cedo, que não era de perder tempo, começou a derrubada do abacateiro. Levou dez dias, porque não estava habituado a manejar machados, as mãos calejaram, sangraram. Adquirida a prática, limpou o quintal e descansou aliviado. 
Mas insatisfeito, porque agora passava os dias a olhar aquela desolação, ele saiu de machado em punho, para os arredores da cidade. Onde encontrava árvore, capões, matos, atacava, limpava, deixava os montes de lenha arrumadinhos para quem quisesse se servir. Os donos dos terrenos não se importavam, estavam em via de vendê-los para fábricas ou imobiliárias e precisavam de tudo limpo mesmo.
E o homem do machado descobriu que podia ganhar a vida com o seu instrumento. Onde quer que precisassem derrubar árvores, ele era chamado. Não parava. Contratou uma secretária para organizar uma agenda. Depois, auxiliares. Montou uma companhia, construiu edifícios para guardar machados, abrigar seus operários devastadores. Importou tratores e máquinas especializadas do estrangeiro. Mandou assistentes fazerem cursos nos Estados Unidos e Europa. Eles voltaram peritos de primeira linha. E trabalhavam, derrubavam. Foram do sul ao norte, não deixando nada em pé. Onde quer que houvesse uma folha verde, lá estava uma tesoura, um machado, um aparelho eletrônico para arrasar. 
E enquanto ele ficava milionário, o país se transformava num deserto, terra calcinada. E então, o governo, para remediar, mandou buscar em Israel técnicos especializados em tornar férteis as terras do deserto. E os homens mandaram plantar árvores. E enquanto as árvores eram plantadas, o homem do machado ensinava ao filho a sua profissão.

(Ignácio de Loyola Brandão)

01) Justifique o título dado ao texto:

02) Qual o objetivo da mãe do protagonista ao permitir que ele ficasse constantemente cortando as folhas das plantas no quintal?

03) Que consequência a obsessão por cortar folhas trouxe para a vida do garoto durante sua juventude?

04) Localize no texto dois pares de antítese, justificando sua resposta: 

05) Copie do texto um vocativo, explicando seu raciocínio: 

06) Transcreva do texto uma passagem em que há uma opinião do autor, dizendo que opinião é essa e se você concorda ou não com ela: 

07) Copie do texto uma passagem que revela um certo "Complexo de vira-lata", explicando: 

08) Considerando o importante papel da mãe como formadora do caráter e da educação dos filhos, qual a sua opinião a respeito das atitudes da mãe do menino? Explique: 

09) Como o menino agia, com relação às plantas, na infância, na juventude e na vida adulta? A que conclusão de pode chegar? 

10) Transcreva do texto um trecho que apresenta as consequências de o garoto haver cortado todas as folhas das árvores de seu quintal:

11) Ao sair do quintal de sua casa e começar a desmatar os arredores da cidade, quem o personagem ajudou? 

12) Na sua opinião, qual o significado de "E enquanto as árvores eram plantadas, o homem do machado ensinava ao filho a sua profissão"? Comente: 

13) Destaque do texto três fatos que podem ser considerados exemplos de situações fantásticas, irreais: 

14) Por meio de um texto de ficção é feita uma crítica a uma postura da nossa sociedade. Que crítica é feita nesse texto? Você concorda com ela? Por quê? 

15) Procure no dicionário o significado das palavras destacadas e crie uma frase usando cada uma delas: 

16) Que mensagem o texto transmite? 

17) Por que a natureza é importante para o homem? Explique:

18) Quais as consequências de o homem continuar devastando as matas e exterminando os animais?

19) O que deve ser feito para a preservação da natureza? Você tem feito a sua parte? Comente:


20) O que a tirinha acima tem a ver com o texto lido? Comente:

21) Considere as seguintes afirmativas:

I - Ao dizer que está plantando "isperança", Chico Bento ironiza a pergunta feita pelo amigo, pois está muito ocupado com seu trabalho para responder às perguntas do outro.
II - O amigo do Chico Bento se assustou com a resposta inesperada que recebeu.
III - Chico Bento planta uma árvore representando a esperança, como forma de contrapor-se à situação de desmatamento que encontrou.

É correto o que se afirma:

(A) Apenas na I.
(B) Apenas na II.
(C) Apenas na I e na II.
(D) Apenas na I e III.
(E) Apenas na II e III.

22)  Reescreva as falas do primeiro quadrinho de acordo com a norma culta: 

domingo, 29 de março de 2020

Atividade sobre o conto "A vaca", de Moacyr Scliar


A vaca

Numa noite de temporal, um navio naufragou ao largo da costa africana. Partiu-se ao meio, e foi ao fundo em menos de um minuto. Passageiros e tripulantes pereceram instantaneamente. Salvou-se apenas um marinheiro, projetado à distância no momento do desastre. Meio afogado, pois não era bom nadador, o marinheiro orava e despedia-se da vida, quando viu a seu lado, nadando com presteza e vigor, a vaca Carola
A vaca Carola tinha sido embarcada em Amsterdam
Excelente ventre, fora destinada a uma fazenda na América do Sul. 
Agarrada ao chifre da vaca, o marinheiro deixou-se conduzir, e, assim, ao romper do dia, chegaram a uma ilhota arenosa, onde a vaca depositou o infeliz rapaz, lambendo-lhe o rosto até que ele acordasse. 
Notando que estava numa ilha deserta, o marinheiro rompeu em prantos: "Ai de mim! Esta ilha está fora de todas as rotas! Nunca mais verei um ser humano!". Chorou muito, prostrado na areia, enquanto a vaca Carola fitava-o com seus grandes olhos castanhos. Finalmente, o jovem enxugou as lágrimas e pôs-se de pé. 
Olhou ao redor, nada havia na ilha, a não ser rochas pontiagudas e umas poucas árvores raquíticas. Sentiu fome, chamou a vaca: "Vem, Carola", ordenhou-se e bebeu leite bom, quente e espumante. Sentiu-se melhor, sentou-se e ficou a olhar o oceano: "Ai de mim", gemia de vez em quando, mas já sem muita convicção; o leite fizera-lhe bem. Naquela noite dormiu abraçado à vaca. Foi um sono bom, cheio de sonhos, reconfortantes; e quando acordou -- ali estava o ubre a lhe oferecer o leite abundante. Os dias foram passando e o rapaz se apegava cada vez mais com a vaca. "Vem, Carola!", ela vinha, obediente. 
Ele cortava um pedaço de carne tenra -- gostava muito de língua -- e devorava-o cru, ainda quente, o sangue escorrendo pelo queixo. A vaca nem mugia. Lambia as feridas, apenas. O marinheiro tinha sempre o cuidado de não ferir seus órgãos vitais; se tirava um pulmão, deixava o outro; comeu o baço, mas não o coração. Com pedaços de couro o marinheiro fez roupas e sapatos e um toldo para abrigá-lo do sol e da chuva. Amputou a cauda de Carola para espantar as moscas
Quando a carne começou a escassear, atrelou a vaca a um tosco arado, feito de galhos, e lavrou um pedaço de terra mais fértil entre as árvores. Usou o excremento do animal como adubo. Como fosse escasso, triturou alguns ossos, para usá-los como fertilizante. Semeou alguns grãos de milho, que tinham ficado nas cáries da dentadura de Carola. Logo, as plantinhas começaram a brotar, e o rapaz sentiu renascer a esperança. Na festa de São João, ele comeu canjica. A primavera chegou. Durante a noite uma brise suave soprava de lugares remotos, trazendo sutis aromas.
Olhando as estrelas, o marinheiro suspirava. Uma noite, arrancou um dos olhos de Carola, misturou-o com água do mar e engoliu esta leve massa. Teve visões voluptuosas, como nenhum mortal jamais experimentou... Transportado de desejo, aproximou-se da vaca... E ainda dessa vez, foi Carola quem lhe valeu.
Muito tempo se passou, e o marinheiro avistou um navio no horizonte. Doido de alegria, berrou com todas as forças, mas não lhe respondiam: o navio estava muito longe. O marinheiro arrancou um dos chifres de Carola e improvisou uma corneta. O som poderoso atroou os ares, mas ainda assim não obteve resposta.
O rapaz desesperava-se: a noite caía e o navio afastava-se da ilha. Finalmente, o rapaz deitou Carola no chão e jogou um fósforo aceso no ventre ulcerado de Carola, onde um  pouco de gordura ainda aparecia.
Rapidamente a vaca incendiou-se. Em meio a fumaça negra, fitava o marinheiro com seu único olho bom. O rapaz estremeceu; julgou ter visto uma lágrima. Mas foi só impressão. O clarão chamou a atenção do comandante do navio; uma lancha veio recolher o marinheiro. Iam partir, aproveitando a maré, quando o rapaz gritou: "Um momento!", voltou para a ilha e apanhou do montículo de cinzas fumegantes, um punhado que guardou dentro do gibão de couro: "Adeus, Carola" -- murmurou. Os tripulantes da lancha se entreolharam. "É do sol" -- disse um. O marinheiro chegou ao seu país natal. Abandonou a vida no mar e tornou-se um rico e respeitado granjeiro, dono de um tambo com centenas de vacas. Mas, apesar disto, tornou-se infeliz e solitário, tendo pesadelos horríveis todas as noites, até os quarenta anos. Chegando a esta cidade, viajou pela Europa de navio.
Uma noite, insone, deixou o luxuoso camarote e subiu ao tombadilho iluminado pelo luar. Acendeu um cigarro, apoiou-se na amurada e ficou olhando o mar. De repente, estirou o pescoço, ansioso. Avistara uma ilhota no horizonte.
-- Alô -- disse alguém, perto dele.
Voltou-se. Era uma bela loira, de olhos castanhos e seios opulentos.
-- Meu  nome é Carola -- disse ela. 
(Moacyr Scliar)

01) Justifique o título dado ao conto, aproveitando para sugerir um outro:

02) Caracterize o marinheiro e a vaca Carola:

03) Copie do texto um vocativo, explicando seu raciocínio:

04) Localize no texto um substantivo que contém três adjetivos, explicando bem:

05) Transcreva do texto uma antítese, justificando:

06) Justifique todas as aspas usadas no conto:

07) Explique que implícito se encontra na expressão destacada quase no final do texto:

08) Por que você acha que o homem tinha pesadelos com tamanha constância?

09) Que mensagem o texto transmite? Comente:

10) Que parte do conto lhe trouxe mais desconforto? Por quê?

11) Identifique e classifique o sujeito presente na oração destacada no começo do texto:

12) Diga a que classe gramatical pertence cada palavra sublinhada no texto, respectivamente:

13) Que crítica social o texto mais faz? Comente:

14) Pode-se afirmar que o marinheiro tinha uma visão capitalista com relação à vaca? Justifique sua resposta: 

15) Como você explica o final do texto e a "coincidência" do nome?

16) Transforme todo o conto em uma HQ, sem perder nenhum detalhe! Capriche! 

(Texto indicado pelo meu xará André Mattos, colega de grupo!)

quinta-feira, 26 de março de 2020

Atividade sobre o texto "Muribeca", de Marcelino Freire


Muribeca

Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão. É a vida da gente o lixão. E por que é que agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho?
E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pelas ruas, roubar pra comer?
E o que eu vou cozinhar agora? Onde vou procurar tomate, alho, cebola? Com que dinheiro vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa? 
Fale, fale. Explique o que é que a gente vai fazer da vida? O que a gente vai fazer da vida? Não pense que é fácil. Nem remédio pra dor de cabeça eu tenho. Como vou me curar quando me der uma dor no estômago, uma coceira, uma caganeira? Vá, me fale, me diga, me aconselhe. Onde vou encontrar tanto remédio bom? E esparadrapo e band-aid e seringa? 
O povo do governo devia pensar três vezes antes de fazer isso com chefe de família. Vai ver que eles tão de olho nessa merda aqui. Nesse terreno. Vai ver que eles perderam alguma coisa. É. Se perderam, a gente acha. A gente cata. A gente encontra. Até bilhete de loteria, lembro, teve gente que achou. Vai ver que é isso, coisa da Caixa Econômica. Vai ver que é isso, descobriram que lixo dá lucro, que pode dar sorte, que é luxo, que lixo tem valor.  
Por exemplo, onde a gente vai morar, é? Onde a gente vai morar? Aqueles barracos, tudo ali em volta do lixão, quem é que vai levantar? Você, o governador? Não. Esse negócio de prometer casa que a gente não pode pagar é balela, é conversa pra boi morto. Eles jogam a gente é num esgoto. Pra onde vão os coitados desses urubus? A cachorra, o cachorro? 
Isso tudo aqui é uma festa. Os meninos, as meninas naquele alvoroço, pulando em cima de arroz, feijão. Ajudando a escolher. A gente já conhece o que é bom de longe, só pela cara do caminhão. Têm uns que vêm direto do supermercado, açougue. Que dia na vida que a gente vai conseguir carne tão barata? Bisteca, filé, chã de dentro -- o moço tá servido? A moça? 
Os motoristas já conhecem a gente. Têm uns que até guardam com eles a melhor parte. É coisa muito boa, desperdiçada. Tanto povo que compra o que não gasta -- roupa nova, véu, grinalda. Minha filha já vestiu um vestido de noiva, até a aliança a gente encontrou aqui, num corpo. É. Vem parar muito bicho morto. Muito homem, muito criminoso. A gente já tá acostumado. Até o camburão da polícia deixa seu lixo aqui, depositado. Balas, revólver 38. A gente não tem medo, moço. A gente é só ficar calado. 
Agora, o que deu na cabeça desse povo? A gente nunca deu trabalho. A gente não quer nada deles que não esteja aqui jogado, rasgado, atirado. A gente não quer outra coisa senão esse lixão pra viver. Esse lixão para morrer, ser enterrado. Pra criar os nossos filhos, ensinar o nosso ofício, dar de comer. Pra continuar na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não faltar brinquedo, comida, trabalho. 
Não, eles nunca vão tirar a gente deste lixão. Tenho fé em Deus, com a ajuda de Deus eles nunca vão tirar a gente deste lixo. 
Eles dizem que sim, que vão. Mas não acredito. Eles nunca vão conseguir tirar a gente deste paraíso. 

(Marcelino Freire)

01) Justifique o título dado ao conto acima:

02) Circule no texto um vocativo, explicando seu raciocínio: 

03) Transcreva do conto uma antítese, justificando-a:

04) Copie do texto importantes marcas de oralidade: 

05) Explique o possível estranhamento causado pela frase destacada no começo do texto:

06) Enumere o que a narradora, ao longo do texto, diz aproveitar do lixo:

a) Mobília, eletrodomésticos:
b) Divertimento:
c) Trabalho:
d) Comida:
e) Moradia: 
f) Lixo hospitalar: 
g) Vestuário: 

07) De acordo com o texto, o fato de esses produtos virem do lixo interfere no aproveitamento deles pelos moradores do lixão? Justifique sua resposta:

08) Por que existe uma palavra em itálico no texto? 

09) O que o conto denuncia? Explique seu ponto de vista: 

10) Que ameaça parece que estão fazendo a quem mora no lixão? O que deve tê-la motivado? 

11) Que medidas poderiam ser reivindicadas pelos moradores do lixão? 

12) O que a protagonista espera do poder público? Por que ela se mostra distante dele? 

13) Explique a última frase presente no texto:

14) Diga que crítica encontra-se na passagem sublinhada no texto, aproveitando para analisar se você se enquadra nela:

15) Que mensagem o conto transmite? Comente:


16) Associe a charge acima, de alguma maneira, ao conto lido:

17) Que crítica social a charge faz? Justifique sua resposta:

18) Por que há, na charge anterior, uma certa incoerência?


19) O que a charge acima denuncia? Por quê?

20) Retire da charge um vocativo, explicando seu raciocínio: 

domingo, 8 de março de 2020

Atividade sobre o conto "Entre a espada e a rosa", de Marina Colasanti

Entre a espada e a rosa 

Qual é a hora de casar, senão aquela em que o coração diz "quero"? A hora que o pai escolhe. Isso descobriu a Princesa na tarde em que o Rei mandou chamá-la e, sem rodeios, lhe disse que, tendo decidido fazer aliança com o povo das fronteiras do Norte, prometera dá-la em casamento ao seu chefe. Se era velho e feio, que importância tinha frente aos soldados que traria para o reino, às ovelhas que poria nos pastos e às moedas que despejaria nos cofres? Estivesse pronta, pois breve o noivo viria buscá-la. 
De volta ao quarto, a Princesa chorou mais lágrimas do que acreditava ter para chorar. Embotada na cama, aos soluços, implorou ao seu corpo, a sua mente, que lhe fizesse achar uma solução para escapar da decisão do pai. Afinal, esgotada, adormeceu. 
E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo ficou. E ao acordar de manhã, os olhos ainda ardendo de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Com quanto medo correu ao espelho! Com quanto espanto viu cachos ruivos rodeando-lhe o queixo! Não podia acreditar, mas era verdade. Em seu rosto, uma barba havia crescido. 
Passou os dedos lentamente entre os fios sedosos. E já estendia a mão procurando a tesoura, quando afinal compreendeu. Aquela era a sua resposta. Podia vir o noivo buscá-la. Podia vir com seus soldados, suas ovelhas e suas moedas. Mas, quando a visse, não mais a quereria. Nem ele nem qualquer outro escolhido pelo Rei. 
Salva a filha, perdia-se porém a aliança do pai. Que tomado de horror e fúria diante da jovem barbada, e alegando a vergonha que cairia sobre seu reino diante de tal estranheza, ordenou-lhe abandonar o palácio imediatamente. 
A Princesa fez uma trouxa pequena com suas jóias, escolheu um vestido de veludo cor de sangue. E, sem despedidas, atravessou a ponte levadiça, passando para o outro lado do fosso. Atrás ficava tudo o que havia sido seu, adiante estava aquilo que não conhecia.
Na primeira aldeia aonde chegou, depois de muito caminhar, ofereceu-se de casa em casa para fazer serviços de mulher. Porém ninguém quis aceitá-la porque, com aquela barba, parecia-lhes evidente que fosse homem. 
Na segunda aldeia, esperando ter mais sorte, ofereceu-se para fazer serviços de homem. E novamente ninguém quis aceitá-la porque, com aquele corpo, tinham certeza de que era mulher. 
Cansada, mas ainda esperançosa, ao ver de longe as casas da terceira aldeia, a Princesa pediu uma faca emprestada a um pastor, e raspou a barba. Porém, antes mesmo de chegar, a barba havia crescido outra vez, mais cacheada, brilhante e rubra do que antes. 
Então, sem mais nada pedir, a Princesa vendeu suas jóias para um armeiro, em troca de uma couraça, uma espada e um elmo. E, tirando do dedo o anel que havia sido de sua mãe, vendeu-o para um mercador, em troca de um cavalo. 
Agora, debaixo da couraça, ninguém veria seu corpo, debaixo do elmo, ninguém veria sua barba. Montada a cavalo, espada em punho, não seria mais homem, nem mulher. Seria guerreiro.
E guerreiro valente tornou-se, à medida que servia aos Senhores dos castelos e aprendia a manejar as armas. Em breve, não havia quem a superasse nos torneios, nem a vencesse nas batalhas. A fama da sua coragem espalhava-se por toda parte e a precedia. Já ninguém recusava seus serviços. A couraça falava mais que o nome. 
Pouco se demorava em cada lugar. Lutava cumprindo seu trato e seu dever, batia-se com lealdade pelo Senhor. Porém suas vitórias atraíam os olhares da corte, e cedo os murmúrios começavam a percorrer os corredores. Quem era aquele cavaleiro, ousado e gentil, que nunca tirava os trajes de batalha? Por que não participava das festas, nem cantava para as damas? Quando as perguntas se faziam em voz alta, ela sabia que era chegada a hora de partir. E ao amanhecer montava seu cavalo, deixava o castelo, sem romper o mistério com que havia chegado. 
Somente sozinha, cavalgando no campo, ousava levantar a viseira para que o vento lhe refrescasse o rosto acariciando os cachos rubros. Mas tornava a baixá-la, tão logo via tremular na distância as bandeiras de algum torreão. 
Assim, de castelo em castelo, havia chegado àquele governado por um jovem Rei. E fazia algum tempo que ali estava. 
Desde o dia em que a vira, parada diante do grande portão, cabeça erguida, oferecendo sua espada, ele havia demonstrado preferi-la aos outros guerreiros. Era a seu lado que a queria nas batalhas, era ela que chamava para os exércitos na sala de armas, era ela sua companhia preferida, seu melhor conselheiro. Com o tempo, mais de uma vez, um havia salvo a vida do outro. E parecia natural, como o fluir dos dias, que suas vidas transcorressem juntas. 
Companheiro nas lutas e nas caçadas, inquietava-se, porém, o Rei vendo que seu amigo mais fiel jamais tirava o elmo. E mais ainda inquietava-se, ao sentir crescer dentro de si m sentimento novo, diferente de todos, devoção mais funda por aquele amigo do que um homem sente por um homem. Pois não podia saber que à noite, trancado o quarto, a princesa encostava seu escudo na parede, vestia o vestido de veludo vermelho, soltava os cabelos, e diante do seu reflexo no metal polido, suspirava longamente pensando nele. 
Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la. E outros tantos em que, percebendo que isso não a afastava de sua lembrança, mandava chamá-la, para arrepender-se em seguida e pedia-lhe que se fosse. 
Por fim, como nada disso acalmasse seu tormento, ordenou que viesse ter com ele. E, em voz áspera, lhe disse que há muito tempo tolerava ter a seu lado um cavaleiro de rosto sempre encoberto. Mas que não podia mais confiar em alguém que se escondia atrás de ferro. Tirasse o elmo, mostrasse o rosto. Ou teria cinco dias para deixar o castelo. 
Sem resposta, ou gesto, a Princesa deixou o salão, refugiando-se no seu quarto. Nunca o Rei poderia amá-la, com sua barba ruiva. Nem mais a quereria como guerreiro, com seu corpo de mulher. Chorou todas as lágrimas que ainda tinha para chorar. Dobrada sobre si mesma, aos soluços, implorou ao seu corpo que lhe desse uma solução. Afinal, esgotada, adormeceu.
E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo brotou. E ao acordar de manhã, com os olhos inchados de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Não ousou levar as mãos ao rosto. Com medo, quanto medo! Aproximou-se do escudo polido, procurou seu reflexo. E com espanto, quanto espanto! Viu que, sim, a barba havia desaparecido. Mas em seu lugar, rubras como os cachos, rosas lhe rodeavam o queixo. 
Naquele dia não ousou sair do quarto, para não ser denunciada pelo perfume, tão intenso que ela própria sentia-se embriagar de primavera. E perguntava de que adiantava ter trocado a barba por flores, quando, olhando no escudo com atenção, pareceu-lhe que algumas rosas perdiam o viço vermelho, fazendo-se mais escuras que o vinho. De fato, ao amanhecer, havia pétalas no seu travesseiro. 
Uma após a outra, as rosas murcharam, despetalando-se lentamente. Sem que nenhum botão viesse substituir as flores que se iam. Aos poucos, a rósea pele aparecia. Até que não houve mais flor alguma. Só um delicado rosto de mulher. 
Era chegado o quinto dia. A Princesa soltou os cabelos, trajou seu vestido cor de sangue. E, arrastando a cauda de veludo, desceu as escadarias que a levariam até o Rei, enquanto um perfume de rosas se espalhava no castelo. 
(Marina Colasanti)

01) Justifique o título dado ao conto acima:

02) Segundo o texto, qual é a hora de casar?

03) Em troca de que o Rei daria a Princesa em casamento? O que você pensa a respeito disso?

04) Copie do texto uma antítese, explicando seu raciocínio:

05) O que a mente da princesa ordenou? Qual foi a consequência disso?

06) Qual foi a reação do Rei? Por que ele agiu dessa maneira? O que você faria no lugar dele?

07) O que a princesa levou consigo ao deixar o castelo?

08) Por que ela precisou vender as suas jóias?

09) Quais foram os serviços que a Princesa procurou e por que ela foi rejeitada?

10) Quanto tempo a princesa ficava em cada reino? E quando ela sabia que já era a hora de partir?

11) O que tinha de diferente no reino do jovem Rei? Como ele a tratava?

12) Do que o Rei fugia? Por quê?

13) Depois disso, o que o jovem Rei ordenou? O que você pensa a esse respeito?

14) Durante muitas passagens do texto, há referência à cor vermelha. Por quê?

15) Que mensagem o conto transmite? Comente:

16) Elabore um final para a história lida:

domingo, 1 de março de 2020

Atividade sobre o conto "Se ele tivesse nascido mulher", de Eduardo Galeano

Se ele tivesse nascido mulher

Dos dezesseis irmãos de Benjamin Franklin, Jane é a que mais se parece com ele em talento e força de vontade.  
Mas na idade em que Benjamin saiu de casa para abrir seu próprio caminho, Jane casou-se com um seleiro pobre, que a aceitou sem dote, e dez meses depois deu à luz seu primeiro filho. Desde então, durante um quarto de século, Jane teve um filho a cada dois anos. Algumas crianças morreram, e a cada morte abriu-lhe um talho no peito. Os que viveram exigiram comida, abrigo, instrução e consolo. Jane passou noites a fio ninando os que choravam, lavou montanhas de roupa, banhou montões de crianças, correu do mercado para cozinha, esfregou torres de pratos, ensinou abecedários e ofícios, trabalhou ombro a ombro com o marido na oficina e atendeu os hóspedes cujo aluguel ajudava a encher a panela. Jane foi esposa devota e viúva exemplar; e, quando os filhos já estavam crescidos, encarregou-se dos próprios pais, doentes, de suas filhas solteironas e de seus netos desamparados. 
Jane jamais conheceu o prazer de se deixar flutuar em um lago, levada à deriva pelo fio de um papagaio, como costumava fazer Benjamin, apesar da idade. Jane nunca teve tempo de pensar, nem se permitiu duvidar. Benjamin continua sendo um amante fervoroso, mas Jane ignora que o sexo possa produzir outra coisa além de filhos. 
Benjamin, fundador de uma nação de inventores, é um grande homem de todos os tempos. Jane é uma mulher do seu tempo, igual a quase todas as mulheres de todos os tempos, que cumpriu o seu dever nesta terra e expiou parte de sua culpa na maldição bíblica. Ela fez o possível para não ficar louca e buscou, em vão, um pouco de silêncio. 
Seu caso não despertará o interesse dos historiadores. 
(Eduardo Galeano)

01) Justifique o título dado ao texto acima:

02) Por que Jane casou-se com o seleiro?

03) Explique a passagem que se encontra em negrito no final do texto:

04) O que significa "trabalhar ombro a ombro com o marido na oficina"?

05) Localize no texto uma sequência de ações de Jane, dizendo a importância disso para o contexto:

06) Qual o objetivo do autor ao comparar Jane com o seu irmão famoso? E a vida dos dois?

07) Por que o caso de Jane, segundo o autor, "não despertará o interesse dos historiadores"? O que você pensa a respeito disso?

08) Observe que a palavra fio aparece em dois momentos do texto. Explique se os sentidos são os mesmos:

09) Explique, com suas palavras, as seguintes expressões do texto:

a) "... abrir seu próprio caminho":

b) "... abriu-lhe um talho no peito":

c) "... encher a panela":

10) Você acha que a vida de Jane foi menos importante do que a do seu irmão Benjamin Franklin? Justifique sua resposta: 

11) O que Benjamin, já idoso, fazia e sua irmã nunca pôde fazer? O que você pensa com relação a isso? 

12) Que mensagem o texto transmite?

13) Dê a sua opinião sobre o que teria acontecido a Benjamin Franklin, se ele tivesse nascido mulher: 

14) Posicione-se sobre a passagem sublinhada no final do texto:

15) O trabalho doméstico feito pela dona de casa não é remunerado. Qual a importância dele para a manutenção da família e da casa? Você acha que isso deveria ser revisto? Comente: 

16) Localize no texto:

a) dois numerais cardinais:
b) um numeral ordinal:
c) um numeral fracionário:
d) dois advérbios de tempo:
e) dois substantivos próprios:
f) dois adjetivos:
g) um aposto:
h) um verbo no gerúndio:

(Texto sugerido pela colega de grupo: Janaína Chaves!)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Atividade sobre o conto "Um peixe", de Luiz Vilela

Um peixe

Virou a capanga de cabeça para baixo, e os peixes espalharam-se pela pia. Ele ficou olhando, e foi então que notou que a traíra ainda estava viva. Era o maior peixe de todos ali, mas não chegava a ser grande: pouco mais de um palmo. Ela estava mexendo, suas guelras mexiam-se devagar, quando todos os outros peixes já estavam mortos. Como que ela podia durar tanto tempo assim fora d´água?...
Teve então uma ideia: abrir a torneira, para ver o que acontecia. Tirou para fora os outros peixes: lambaris, chorões, piaus; dentro do tanque deixou só a traíra. E então abriu a torneira: a água espalhou-se e, quando cobriu a traíra, ela deu uma rabanada e disparou, ele levou um susto -- ela estava muito mais viva do que ele pensara, muito mais viva. Ele riu, ficou alegre e divertido, olhando a traíra, que agora tinha parado num canto, o rabo oscilando de leve, a água continuando a jorrar da torneira. Quando o tanque se encheu, ele fechou-a. 
-- E agora? -- disse para o peixe. -- O que é que eu faço com você?... 
Enfiou o dedo na água: a traíra deu uma corrida, assustada, e ele tirou o dedo depressa.
-- Você está com fome?... E as minhocas que você me roubou no rio? Eu sei que era você; devagarzinho, sem a gente sentir... Agora está aí, né?... Está vendo o resultado?...
O peixe, quieto num canto, parecia escutar.
Podia dar alguma coisa para ele comer. Talvez pão. Foi olhar na lata: havia acabado. Que mais? Se a mãe estivesse em casa, ela teria dado uma ideia -- a mãe era boa para dar ideias. Mas ele estava sozinho. Não conseguia lembrar de outra coisa. O jeito era ir comprar pão na padaria. Mas sujo assim de barro, a roupa molhada, imunda?...
-- Dane-se -- disse, e foi. 
Era domingo à noite, o quarteirão movimentado, rapazes no footing, bares cheios. Enquanto ele andava, foi pensando no que acontecera. No começo fora só curiosidade; mas depois foi bacana, ficou alegre quando viu a traíra bem viva de novo, correndo pela água, esperta. Mas o que faria com ela agora? Matá-la, não ia; mão, não faria isso. Se ela já estivesse morta, seria diferente, mas ela estava viva, ele não queria matá-la. Mas o que faria com ela? Poderia criá-la; por que não? Havia o tanquinho do quintal, tanquinho que a mãe uma vez mandara fazer para criar patos. Estava entupido de terra, mas ele poderia desentupi-lo, arranjar tudo; ficaria cem por cento. É, é isso o que faria. Deixaria a traíra numa lata d´água até o dia seguinte e, de manhã, logo que se levantasse, iria mexer com isso. 
Enquanto era atendido na padaria, ficou olhando para o movimento, os ruídos, o vozerio do bar em frente. E então pensou na traíra, sua trairinha, deslizando silenciosamente no tanque da pia, na casa escura. Era até meio besta como ele estava alegre com aquilo. E logo um peixe feio como traíra, isso é que era o mais engraçado...
Toda manhã -- ia pensando, de volta para casa -- ele desceria ao quintal, levando pedacinhos de pão para ela. Além disso, arrancaria minhocas, e de vez em quando pegaria alguns insetos. Uma coisa que podia fazer também era pescar depois outra traíra e trazer para fazer companhia a ela; um peixe sozinho num tanque era algo muito solitário. 
A empregada já havia chegado e estava no portão, olhando o movimento.
-- Que peixada bonita você pegou...
-- Você viu?
-- Uma beleza... Tem até uma trairinha...
-- Ela foi difícil de pegar, quase que ela escapole; ela não estava em fisgada.
-- Traíra é duro de morrer, hem?
-- Duro de morrer?...
Ele parou. 
-- Uai, essa que você pegou estava vivinha na hora que eu cheguei, e você ainda esqueceu o tanque cheio d´água... Quando eu cheguei, ela estava toda folgada, nadando. Você não está acreditando? Juro. Eça estava toda folgada, nadando. 
-- E aí?
-- Aí? Uai, aí eu escorri a água para ela morrer, mas você pensa que ela morreu? Morreu nada! Traíra é duro de morrer, nunca vi um peixe assim. Eu soquei a ponta da faca naquelas coisas que faz o peixe nadar, sabe? Pois acredita que ela ainda ficou mexendo? Aí eu peguei  cabo da faca e esmaguei a cabeça dele, e foi aí que ele morreu. Mas custou, ô peixinho duro de morrer! Por que é que você está me olhando?
-- Por nada. 
-- Você não está acreditando? Juro; pode ir lá, à cozinha, ver: ela está lá, do jeitinho que eu deixei. 
Ele foi caminhando para dentro.
-- Eu vou ficar aqui mais um pouco -- disse a empregada. -- Depois vou arrumar os peixes, viu? 
-- Sei.
Acendeu a luz da sala. Deixou o pão em cima da mesa e sentou-se. Só então notou como estava cansado. 
(Luiz Vilela)

01) Justifique o título dado ao texto:

02) Quem narra a história? Justifique sua resposta com elementos do texto:

03) Nesse conto, existe um conflito interior, que se passa no íntimo da protagonista. Qual é esse conflito?  Que fato o provoca?

04) Qual é a decisão da protagonista a respeito do peixe?

05) Quais são as etapas desde o conflito até a tomada de decisão?

06) Qual é o clímax desse conto? Explique por que você considera esse o momento de maior tensão da história:

07) A traíra, no começo da narrativa, era realmente "um peixe" para a personagem principal, mas, no final, ele já poderia se referir a ela como "o peixe". Por quê? 

08) Nos primeiros parágrafos, o narrador descreve a cena em que a protagonista volta de uma pescaria. Logo em seguida, esse mesmo narrador oferece ao leitor uma informação que vai alterar a situação inicial da história. Que informação é essa? Por que ela vai alterar o rumo da trama?

09) A personagem começa a gostar do peixe. Como isso aparece no texto?

10) O que o diminutivo "trairinha" revela sobre os sentimentos da personagem e como esta encara essa sensação?

11) No texto, ao invés de dizer tudo o que a personagem sentiu ao ouvir a empregada, o narrador limitou-se a uma frase curta e seca: "Ele parou". Que efeito esse recurso provoca no leitor? O que a personagem pode ter pensado naquele momento?

12) Explique o emprego do diminutivo "vivinha" empregado no texto:

13) Há no texto perguntas não indicadas por travessão. Quem faz essas perguntas? Que informações elas revelam ao leitor?

14) Você considerou o desfecho do texto surpreendente? Justifique sua resposta:

15) Que mensagem o texto transmite?

16) Tente criar um outro possível final para a história:

domingo, 26 de janeiro de 2020

Atividade sobre o conto "O sapo encantado", de Silvana Salerno

O sapo encantado

Miguel vivia em seu sítio com a família. Na roça, tinha feijão, milho, mandioca e cana-de-açúcar; na horta, a mulher plantava legumes, verduras e temperos. Eles tinham duas vacas, cabras e galinhas, que os filhos ajudavam a criar. O pomar era uma festa para a criançada: tinha pé de manga, caju, graviola, cupuaçu, bacuri, coqueiros e palmeiras. Quando era época de uma fruta, a meninada sumia de casa; toda a vizinhança se reunia para chupar fruta no pé. 
Uma tarde em que Miguel voltava da feira, ouviu uns gemidos doidos na estrada. Parou para ver se descobria o que era e deu com um sapo gemendo debaixo de uma pedra; tirou a pedra de cima do sapo e o bicho agradeceu muito. O camponês ficou espantado com aquele sapo que falava -- e como falava bem! -- mas não se alongou na conversa. Em casa, comentou o que havia acontecido. O pessoal achou graça. Como viviam em contato direto com os bichos e as plantas, e conversavam com eles, todos viram com simpatia a história do sapo.
Muito tempo depois, numa noite em que Miguel caminhava pela estrada deserta, trazendo o dinheiro da venda dos ovos, sentiu que um sapo o seguia, coaxando.
"Croac, croac! Não siga por esse caminho!"
Cansado, o camponês não deu ouvido ao que o bicho dizia. Mas o sapo insistia:  "Croac, croac! Não siga por esse caminho!"
Querendo chegar logo. Miguel fingiu que não era com ele. Depois de caminhar mais um pouco, numa curva da estrada, uma figura saltou do meio do mato bem na sua frente. Um bandido mascarado apontou uma faca para o peito do camponês e ordenou: "A bolsa ou a vida!"
De repente, surgiu um guerreiro vestido com armadura e couraça, de espada em punho, que investiu contra o bandoleiro. O assaltante fugiu correndo pelo mato. O camponês ajoelhou-se aos pés do guerreiro, agradecendo a ajuda que havia recebido. 
"O senhor não deve me agradecer; sou aquele sapo que o senhor salvou. Lembra-se de quando retirou uma pedra de cima de mim?", disse o guerreiro. "Eu me lembro, sim, claro", respondeu o homem. "Eu era um príncipe guerreiro, e o gênio do mal me transformou em sapo e me colocou debaixo daquela pedra. Quando alguém me salvasse, o encanto seria desfeito. O senhor me salvou. Vim ajudar o meu salvador e lhe agradecer".
O príncipe levou o camponês ao palácio e deu-lhe uma bolsa com moedas de ouro. Ofereceu-lhe um cargo no governo, mas Miguel não aceitou. Preferia viver no sítio, como sempre fizera. 

(Silvana Salerno)

01) Justifique o título dado ao conto:

02) Quem conta a história? Que tipo de narrador existe? Comprove com uma passagem do texto: 

03) Quando e onde se passa a história? Quais são as personagens? 

04) Copie do texto uma onomatopeia, dizendo a que ela se refere: 

05) Justifique as apas utilizadas no texto: 

06) Podemos afirmar que o primeiro parágrafo é importante para o entendimento do texto? Explique sua resposta: 

07) Por que Miguel ia e voltava da feira? 

08) Que mensagem o texto transmite? 

09) O que você achou do desfecho do texto? Mudaria alguma coisa nele? Comente:

10) Transforme o texto (e cada detalhe dele) em uma HQ! Capriche!  

sábado, 25 de janeiro de 2020

Atividade sobre o conto "Os cegos e o elefante", de Heloísa Prieto

Os cegos e o elefante 

Numa cidade da Índia viviam sete sábios gregos. Como seus conselhos eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas os consultavam. Embora fossem amigos, havia uma certa rivalidade entre eles, que de vez em quando discutiam sobre qual seria o mais sábio. 
Certa noite, depois de muito debaterem acerca da verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sétimo sábio ficou tão aborrecido que resolveu ir morar sozinho numa caverna da montanha. Disse aos companheiros:
-- Somos cegos para que possamos ouvir melhor e compreender melhor que as outras pessoas a verdade da vida. E, em vez de aconselhar os necessitados, vocês ficam aí brigando como se quisessem ganhar uma competição. Não aguento mais! Vou-me embora. 
No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante montado num elefante imenso. Os cegos jamais tinham tocado nesse animal e correram para a rua ao encontro dele.
O primeiro sábio apalpou a barriga do bicho e declarou:
-- Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar em seus músculos e eles não se movem: parecem paredes. 
-- Que bobagem! -- disse o segundo sábio, tocando na presa do elefante. -- Este animal é pontudo como uma lança, uma arma de guerra. 
-- Ambos se enganam! -- retrucou o terceiro sábio, que apalpava a tromba do elefante. -- Este animal é idêntico a uma serpente! Mas não morde, porque não tem dentes na boca. É uma cobra mansa e macia. 
-- Vocês estão totalmente alucinados! -- gritou o quinto sábio, que mexia nas orelhas do elefante. -- Este animal não se parece com nenhum outro. Seus movimentos são ondeantes, como se seu corpo fosse uma enorme cortina ambulante! 
-- Vejam só! Todos vocês, mas todos mesmo, estão completamente errados! -- irritou-se o sexto sábio, tocando a pequena causa do elefante. -- Este animal é como uma rocha com uma cordinha presa no corpo. Posso até me pendurar nele. 
E assim ficaram debatendo, aos gritos, os seis sábios, durante horas e horas. Até que o sétimo sábio cego, o que agora habitava a montanha, apareceu conduzido por uma criança. Ouvindo a discussão, ele pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tateou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e errados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou:
-- Assim os homens se comportam diante da verdade. Pegam apenas uma parte, pensam que é o todo e continuam sempre tolos. 

(Heloísa Prieto)

01) Justifique o título dado ao conto acima:

02) O texto trata de um assunto parecido com o que você imaginou antes de lê-lo, só pelo título?

03) Onde e quando se passa essa história?

04) Essa história tem começo, meio e fim? Justifique sua resposta, tentando delimitar cada uma delas: 

05) Como podemos identificar as falas das personagens?

06) Na última fala registrada no texto, a quem a palavra HOMENS se refere?

07) Retire do texto uma antítese, explicando seu raciocínio:

08) Circule no conto os numerais, classificando-os e dizendo a importância deles para o contexto:

09) Que mensagem o texto transmite? Qual o ensinamento dessa história? Você concorda com ele?

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Atividade sobre o texto "Flor, telefone, moça", de Carlos Drummond de Andrade

Flor, telefone, moça

Não, não é um conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos. 
Falava-se de cemitérios? De telefone? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga -- bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores -- ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho. 
-- Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
-- Mas você não vai acreditar, juro. 
Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira. 
-- Era uma moça que morava na Rua General Polidoro -- começou ela. -- Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagens de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que de não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada. 
Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores -- por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defunto, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstito até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar para passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas, por preguiça, pela curiosidade dos enterros, sei lá por que, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada! 
-- No interior isso não é raro...
-- Mas a moça era de Botafogo.
-- Ela trabalhava?
-- Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir a certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear -- ou melhor, "deslizar" pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões -- sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e os túmulos mais modestos. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor. 
-- Que flor?
-- Uma flor qualquer. Margarida por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz -- não tem cheiro, como inconscientemente já se esperava --, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso. 
Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer este ponto, mas foi incapaz. O certo é que tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.
-- Alooô...
-- Quedê a flor que você tirou de minha sepultura?
A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E meio sem compreender. 
-- O quê?
Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo. 
-- Alô.
-- Quedê a flor que você tirou de minha sepultura? Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada. 
-- Está aqui comigo, vem buscar.
No mesmo tom lento, severo e triste, a voz respondeu:
-- Quero a flor que você me furtou. Me dá a minha florzinha. 
Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:
-- Vem buscar, estou te dizendo.
-- Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha.
-- Quero minha flor e você tem obrigação de devolver. 
-- Mas quem está falando aí?
-- Me dá minha flor, eu estou te suplicando. 
-- Diga o nome, senão eu não dou. 
-- Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura. 
O trote era estúpido, não variava, e a moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada. 
Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.
-- Alô.
-- Quedê a flor...
Não ouvia mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada voltou ao trabalho. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:
-- Olhe, vire a chapa. Já está pau. 
-- Você tem que dar conta de minha flor -- retrucou a voz de queixa. -- Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.
-- Esta é fraquinha. Não sabe de outra?
E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a ideia daquela flor, ou antes, a ideia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda... Você está vendo que a moça começou a ter medo.
-- E eu também. 
-- Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo quase nada. A perseguição telefônica não parava. Era sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que o seu sossego eterno -- admitindo que se tratasse de pessoa morta -- ficava dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências. 
A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz). Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam "a voz". 
-- A voz chamou hoje? -- indagava o pai, chegando da cidade.
-- Ora. É infalível -- suspirava a mãe, meio desalentada. 
Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a frequentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir? 
Dizem que o rapaz começou a tocar para todos os telefones da Rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia... Discava, ouvia o alô, conferia a voz -- não era --, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto -- o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça -- e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas. 
Claro que a moça deixou de atender ao telefone. Não falava mais nem para as amigas. Então a "voz", que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais "você me dá minha flor", mas "quero minha flor", "quem furtou minha flor tem de restituir", etc. Diálogo com essas pessoas a "voz" não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a "voz" não dava explicações. 
Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalo, mas teve de queixar-se à polícia. Mas, ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram a sua especialidade  - o fato é que não se apuou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica...
-- Mas é a tranquilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego da minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone? 
-- Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Então é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranquilize a família e aguarde os acontecimentos; Vamos fazer o possível. 
Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando. Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque -- já disse que era distraída -- nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse...
O irmão voltou de São João Batista dizendo que do lado por onde a moça passeara aquela tarde havia cinco sepulturas plantadas.
A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los volitivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado -- se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido. 
Mas a "voz" não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outas vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume -- isso não dizia a voz, mas era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?
O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era a sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de piedade; e se era de morto, como julgar os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e essa flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança? 
-- Mas, e a moça?
-- Carlos, eu preveni que o meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu. 

(Carlos Drummond de Andrade) 


01) Justifique o título dado ao conto:

02) Que mania tem a protagonista do texto? O que você pensa a respeito disso?

03) Que outras distrações a pessoa poderia ter? Cite-as: 

04) Retire do texto dois exemplos de antítese, explicando seu raciocínio: 

05) Circule no texto um vocativo: 

06) O que a protagonista fez e que teve duras consequências?

07) O que a "voz" queria da moça? O que você faria no lugar dela? 

08) O que aconteceu com a moça? Por que a "voz" a deixou em paz? 

09) Posicione-se sobre a passagem destacada no texto: 

10) Que mensagem o conto em questão transmite?


(Como é um texto que traz um certo SUSPENSE, uma boa é interromper a leitura, omitindo o final verdadeiro, para pedir para que o aluno crie o seu próprio final!)