sexta-feira, 8 de maio de 2020

Atividade sobre o texto "Os turistas secretos", de Moacyr Scliar

Os turistas secretos

Havia um casal que tinha uma inveja terrível dos amigos turistas -- especialmente dos que faziam turismo no exterior. Ele, pequeno funcionário de uma grande firma, ela, professora primária, jamais tinham conseguido juntar o suficiente para viajar. Quando dava para as prestações das passagens, não chegava para os dólares, e vice-versa; e assim, ano após ano, acabavam ficando em casa. Economizavam, compravam menos roupa, andavam só de ônibus, comiam menos -- mas não conseguiam viajar para o exterior. Às vezes passavam uns dias na praia. E era tudo. 
Contudo, tamanha era a vontade que tinham de contar para os amigos sobre as maravilhas da Europa, que acabaram bolando um plano. Todos os anos, no fim de janeiro, telefonavam aos amigos: estavam se despedindo, viajavam para o Velho Mundo. De fato, alguns dias depois começavam a chegar postais de cidades europeias, Roma, Veneza, Florença; e ao fim de um mês eles estavam de volta, convidando os amigos para verem os slides da viagem. E as coisas interessantes que contavam! Até dividiam os assuntos: a ele cabia comentar os hotéis, os serviços aéreos, a cotação das moedas, e também o lado pitoresco das viagens; a ela tocava o lado erudito: comentários sobre os museus e locais históricos, peças teatrais que tinham visto. O filho, de dez anos, não falava; apenas deixava escapar um pequeno suspiro quando os pais, entusiasmados pela própria narrativa, diziam:
-- Como fomos felizes em Florença! 
O que os amigos não conseguiam descobrir era de onde saíra o dinheiro para a viagem; um, mais indiscreto chegou a perguntar. Os dois sorriram, misteriosos, falaram numa herança e desconversavam. 
Depois é que se ficou sabendo. 
Não viajavam coisa alguma. Nem saíam da cidade. Ficavam trancados em casa durante todo o mês de férias. Ela dedicava-se a estudar os folhetos das companhias de turismo, sobre Florença: a história de Florença, os museus de Florença, os monumentos de Florença. Ele, que encarnava o lado prático do casal, fazia montagens fotográficas no computador da empresa em que trabalhava: imagens do casal, sorridente, tendo como fundo a cidade de Florença. Mandava e-mails, descrevendo com verdadeiro arrebatamento os tesouros culturais florentinos. Quanto ao filho, decorava as histórias contadas pelos pais para confirmá-las se necessário. 
Só saíam de casa tarde da noite, para caminhar um pouco e para fazer compras num supermercado distante. Ninguém os via, e assim esta encenação poderia ter se prolongado por muitos e muitos anos. 
Foi ela quem estragou tudo. Lá pelas tantas, cansou de ter um marido pobre, que só lhe proporcionava excursões fingidas. Apaixonou-se por um piloto, que lhe prometeu muitas viagens, para os lugares mais exóticos. E acabou pedindo o divórcio. 
Beijaram-se pela última vez ao sair do escritório do advogado. 
-- A verdade -- disse ela -- é que me diverti muito com a história toda. 
-- Eu também me diverti muito -- disse ela. 
-- Fomos muito felizes em Florença -- suspirou ele. 
-- É verdade -- disse ela, com lágrimas nos olhos. E prometeu-se que nunca mais iria a Florença.

(Moacyr Scliar)

01) Justifique o título dado à crônica:

02) Qual o desejo do casal? Por que eles não conseguiam realizar? 

03) Que sacrifícios eles faziam? Por que nada disso era suficiente? 

04) Que ideia o casal teve? Ela funcionou? Justifique sua resposta: 

05) Circule no texto dois exemplos de aposto: 

06) O filho do casal era a favor da farsa? Comprove sua resposta com uma passagem do texto: 

07) O que causava desconfiança nos amigos? Como isso foi resolvido pelo casal?

08) O que pôs fim ao plano do casal? O que você pensa a respeito disso? 

09) Que mensagem o texto transmite? Comente:  

10) Localize na crônica:

a) dois advérbios de tempo:
b) um advérbio de negação: 
c) três substantivos próprios:
d) dois numerais:
e) um advérbio de lugar: 
f) dois adjetivos: 
g) um advérbio de intensidade: 
h) uma antítese:

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