segunda-feira, 3 de julho de 2017

"Repolhos iguais" - Lya Luft


Sempre me impressiona o impulso geral de igualar a todos: ser diferente, sobretudo ser original, é defeito. Parece perigoso. E, se formos diferentes, quem sabe aqui e ali uma medicaçãozinha ajuda. 

Alguém é mais triste? Remédio nele. Deprimido? Remédio nele (ainda que tenha acabado de perder uma pessoa amada, um emprego, a saúde). Mais gordinho? Dieta nele. Mais alto? Remédio na adolescência para parar de crescer. Mais relaxado na escola? Esse é normal. Mais estudioso, estudioso demais? A gente se preocupa, vai virar nerd (se for  menina, vai demorar a conseguir marido).

Não podemos, mas queremos tornar tudo homogêneo: meninas usam o mesmo cabelo, a mesma roupa, os mesmos trejeitos; meninos, aquele boné virado. Igualdade antes de tudo, quando a graça, o poder, a força estão na diversidade. Narizes iguais, bocas iguais, sobrancelhas iguais, posturas iguais. 

Não se pode mais reprovar crianças e jovens na escola, pois são todos iguais. Serão? É feio, ou vergonhoso, ter mais talento, ser mais sonhador, ter mais sorte, sucesso, trabalhar mais e melhor. 

Vamos igualar tudo, como lavouras de repolhos, se possível... iguais. E assim, com tudo o que pode ser controlaado com remédios, nos tornamos uma geração medicada. Não todos -- deixo sempre aberto o espaço da exceção para ser realista, e respeitando o fato de que para muitos os remédios são uma necessidade --, mas uma parcela crescente da população é habitualmente medicada. 

Remédios para pressão alta, para dormir, para acordar, para equilibrar as emoções, para emagrecer, para ter músculos, para ter um desempenho sexual fantástico, para ter a ilusão de estar com 30 anos quando se tem 70. Faz alguns anos reina entre nós o diagnóstico de déficit de atenção para um número assustador de crianças. 

Não sou psiquiatra, mas a esta altura de minha vida criei e acompanhei e vi muitas crianças mais agitadas, ou distraídas, mas nem por isso precisadas de medicação a torto e a direito. Fala-se, não sei em que lugar deste mundo doido, em botar Ritalina na merenda das escolas públicas. Tal fúria de igualitarismo esconde uma ideologia tola e falsa. 

Se déssemos a 100 pessoas a mesma quantidade de dinheiro, e as mesmas oportunidades, em dois anos todas teriam destino diferente: algumas multiplicariam o dinheiro; outras o esbanjariam; outros o guardariam; outras ainda o dedicariam ao bem (ou ao mal) alheio. 

Então, quem sabe, querer apaziguar todas as crianças e jovens com medicamentos para que não estorvem os professores já desesperados por falta de estímulo e condições, ou para permitir aos pais se preocuparem menos, ou ajudar as babás enquanto os pais trabalham ou fazem academia ou simplesmente viajam, nem valerá a pena. 

Teremos mais crianças e jovens aturdidos, crianças e jovens mais violentos e inquietos quando a medicação for suspensa. Bastam, para desatenção, agitação e tantas dificuldades, relacionadas, as circunstâncias de vida atual. 

Recentemente, uma pediatra experiente me relatou que a cada tantos anos aparecem em seu consultório mais crianças confusas, atônitas, agitadas demais, algumas apenas sofrendo por separações e novos casamentos, em que os filhos, que não querem se separar de ninguém, são puxados de um lado para o outro, sem casa fixa, um centro de referência, um casal de pais sempre os mesmos. 

Quem as traz são mães ou pais em igual estado. Correrias, compromissos, ansiedade por estar na crista da onda, por participar e ser o primeiro, por não ficar para trás, por não ser ignorado, por cumprir os horários, as prescrições, os comandos, tudo o que tantas pressões sociais e culturais ordenam, realmente estão nos tornando eternos angustiados e permanentes aflitos. 

Mudar de vida é difícil. Em lugar de correr mais, parar para pensar, roubar alguns minutos para olhar, contemplar, meditar, também é difícil, pois é fugir do padrão. Então seguimos em frente, nervosos com nossos filhos mais nervosos. Haja psicólogo, psiquiatra e medicamento para sermos todos uns repolhos iguais.
(Lya Luft - "Revista Veja" - São Paulo)

01) No fragmento "Não se pode mais reprovar crianças e jovens na escola, pois são todos iguais. Serão?", a estrutura em destaque traduz: 

(A) a dúvida em relação à veracidade dessa igualdade que tanto se busca. 
(B) a importância que a sociedade moderna atribui à diversidade.
(C) uma crítica às escolas que ainda admitem a reprovação.
(D) a ideia de um futuro próximo em que ocorrerá a supervalorização do igualitarismo.

02) Com base na leitura do texto, considere as afirmativas seguintes e assinale com V as verdadeiras e com F, as falsas: 

(   ) Existe, hoje, uma banalização do uso de medicamentos, os quais atuam como instrumentos de cura nas situações mais inusitadas.
(   ) A fragilidade dos laços afetivos na família, respaldada pela diversidade de pressões sociais e culturais, tem responsabilidade na angústia e na aflição que caracterizam, atualmente, as pessoas. 
(    ) A fuga ao padrão pré-estabelecido é difícil porque significa posicionar-se contra a corrente. 
(    ) A igualdade só traz benefícios às pessoas, pois evita os conflitos. 
(    ) Na ansiedade de obedecer aos padrões impostos pela sociedade, as pessoas têm-se esquecido de que a diversidade é a condição da ação humana. 

A sequência CORRETA é:

(A) V - F - V - F - V
(B) F - V - F - V - F 
(C) V - V - V - F - V
(D) F - F - F - V - V

03) Sabemos que um título bem empregado valoriza um texto. Isso ocorreu com o texto em questão? Copie do texto uma passagem que justifique o emprego de tal título: 

04) Que outro título você daria ao texto? 

05) Qual a "solução" mais utilizada para adequar as pessoas que ousam ser diferentes? O que você pensa sobre isso? Justifique sua resposta:

06) Transcreva do texto uma passagem que utiliza a linguagem coloquial: 

07) Qual o sentido da conjunção na passagem "Não podemos, mas queremos tornar tudo homogêneo"? 

08) Qual a função das passagens entre parênteses, situadas no segundo parágrafo? 

09) Por que a autora afirma que, para a sociedade, ser original parece ser perigoso? O que você pensa a respeito disso? Comente: 

10) Por que a palavra "nerd" aparece em itálico no texto? 

11) O texto faz uma crítica ao uso exagerado de remédios. Retire um trecho que comprove tal afirmação: 

12) Que recurso foi utilizado na passagem "Narizes iguais, bocas iguais, sobrancelhas iguais, posturas iguais" e com que objetivo? 

13) Podemos afirmar que há ironia no trecho "Vamos igualar tudo, como lavouras de repolhos, se possível... iguais"? Justifique sua resposta:

14)  No trecho acima, determine o valor semântico das conjunções COMO e SE: 

15) Retire do terceiro parágrafo: 

a) um trecho em que se usa a vírgula para separar itens de uma enumeração:

b) um trecho em que se empregou a vírgula para omitir um verbo: 

16) Posicione-se sobre a passagem "Fala-se, não sei em que lugar deste mundo louco, em botar Ritalina na merenda das escolas públicas", apontando a palavra ali presente que expressa OPINIÃO da autora: 

17) O que a autora quis dizer com a informação "Não sou psiquiatra"? 

18) Você se considera um "repolho igual"? Justifique sua resposta: 

19) No oitavo parágrafo, a autora usa como exemplo um valor monetário dado, de igual forma, a várias pessoas. Imagine que esse valor seja de R$ 1000,00.

a) O que você faria se recebesse tal quantia? 

b) O que você imagina que seus pais fariam se recebessem essa quantia? 

c) De que forma essa passagem confirma a ideia de que nem todos são iguais? 

20) Afinal, o texto lido é um artigo de opinião ou um editorial? Justifique sua resposta: 

21) Transcreva do texto um exemplo de polissíndeto, explicando seu raciocínio:

22) Que mensagem o texto lhe transmitiu?

23) A partir da leitura do texto, analise as seguintes proposições:

I - A autora critica a tendência generalista de igualitarismo vazio e sem sentido.
II - A autora critica a atuação dos médicos pela prescrição excessiva de medicamentos.
III - A autora cririca os pais pela falta de compromisso com os filhos.
IV - A autora critica os filhos pela falta de controle emocional.

Assinale a alternativa CORRETA:

(A) Somente as proposições I e II são corretas.
(B) Somente as proposições I e III são corretas.
(C) Somente as proposições II e IV são corretas.
(D) Somente as proposições III e IV são corretas.

24) O texto apresenta várias estratégias argumentativas. Considere as proposições:

I – O trecho “vamos igualar tudo, como lavouras de repolhos, se possível… iguais. E assim, com tudo o que pode ser controlado com remédios, nos tornamos uma geração medicada. Não todos – deixo sempre aberto o espaço da exceção para ser realista, e respeitando o fato de que para muitos os remédios são uma necessidade -, mas uma parcela crescente da população é habitualmente medicada.”-->  indica uma restrição, que evidencia cautela por parte da autora.

II – O fragmento “não sou psiquiatra, mas a esta altura de minha vida criei e acompanhei e vi muitas crianças mais agitadas, ou distraídas, mas nem por isso precisadas de medicação a torto e a direito.” --> revela uma contra-argumentação a uma reação de leitor que poderia desautorizar o posicionamento da autora.

III – O emprego do plural em “não podemos, mas queremos tornar tudo homogêneo”--> constitui estratégia para envolver o leitor na situação comentada.

IV – O fragmento “recentemente, uma pediatra experiente me relatou...” --> mostra que a autora relata a posição de um especialista, que se diferencia de seu posicionamento.

V – O fragmento “mudar de vida é difícil.” -->  evidencia a falta de conhecimento da autora sobre as alternativas para o redimensionamento da problemática discutida no texto.

Assinale a alternativa CORRETA:

(A) Somente as proposições I, II e IV são corretas.
(B) Somente as proposições I, II e III são corretas.
(C) Somente as proposições II, IV e V são corretas.
(D) Somente as proposições III, IV e V são corretas.

25) As alternativas apresentam segmentos em que a autora exprime opinião pessoal ou posicionamento crítico, EXCETO:

(A) “Não se pode mais reprovar crianças e jovens na escola, pois são todos iguais. Serão?”
(B) “Remédios para pressão alta, para dormir, para acordar, para equilibrar as emoções, para emagrecer, para ter músculos”
(C) “Sempre me impressiona o impulso geral de igualar a todos: ser diferente, sobretudo ser original, é defeito. Parece perigoso.”
(D) “Então seguimos em frente, nervosos com nossos filhos mais nervosos. Haja psicólogo, psiquiatra e medicamento para sermos todos uns repolhos iguais.”

26) Em relação à análise dos sinais de pontuação destacados nos trechos, as alternativas são corretas, EXCETO:

(A) [...] “algumas multiplicariam o dinheiro; outras o esbanjariam; outras o guardariam; outras ainda o dedicariam ao bem (ou ao mal) alheio”. O ponto-e-vírgula separa orações coordenadas não unidas por conjunção, que guardem relação entre si.

(B) “Não podemos, mas queremos tornar tudo homogêneo: meninas usam o mesmo cabelo, a mesma roupa, os mesmos trejeitos; meninos, aquele boné virado” Os dois-pontos introduzem argumentos que respaldam o que foi afirmado anteriormente no texto.

(C) “[...] outras ainda o dedicariam ao bem (ou ao mal) alheio”. Os parênteses separam uma indicação de comentário/reflexão feito pela autora.

 (D) “E, se formos diferentes, quem sabe aqui e ali uma medicaçãozinha ajuda.”. As vírgulas foram empregadas para indicar a elipse de um termo.

27) Todos os trechos justificam o título do texto, EXCETO:

(A) “Quem as traz são mães ou pais em igual estado.”.
(B) “Não podemos, mas queremos tornar tudo homogêneo”.
(C) “algumas multiplicariam o dinheiro; outras o esbanjariam; outras o guardariam”.
(D) “reina entre nós o diagnóstico de déficit de atenção para um número assustador de crianças”.

28) Leia o trecho: “Não se pode mais reprovar crianças e jovens na escola, pois são todos iguais. Serão? É feio, ou vergonhoso, ter mais talento, ser mais sonhador, ter mais sorte, sucesso, trabalhar mais e melhor.”. É correto inferir do texto, EXCETO:

(A) A autora critica o sistema educacional.
(B) A autora defende a ideologia das diferenças.
(C) A autora zela pelo tratamento igualitário a todos.
(D) A autora reconhece o mérito daqueles que se destacam.

29) O trecho “Fala-se, não sei em que lugar deste mundo louco, em botar Ritalina na merenda das escolas públicas. Tal fúria de igualitarismo esconde uma ideologia tola e falsa.” evidencia que a autora:

(A) mostra que toda ideologia traz prejuízos para a sociedade.
(B) procura se isentar de um compromisso em relação à informação absurda.
(C) critica o fato de as escolas tentarem diminuir a heterogeneidade entre estudantes.
(D) busca preservar os médicos que receitam Ritalina como estratégia para acalmar as crianças.

30) “Remédios para pressão alta, para dormir, para acordar, para equilibrar as emoções, para emagrecer, para ter músculos, para ter um desempenho sexual fantástico, para ter a ilusão de estar com 30 anos quando se tem 70.”.

No trecho acima é CORRETO afirmar que a disposição estrutural dos elementos:

(A) Vai do necessário ao aparente.
(B) Valoriza o envelhecimento saudável.
(C) Reconhece a importância da aparência.
(D) Mostra a dependência aos medicamentos.

31) Em “Sempre me impressiona o impulso geral de igualar a todos: ser diferente, sobretudo ser original, é defeito.”, o emprego de “sobretudo”, nesse fragmento, indica que a autora:

(A) Valoriza a ideia de “ser diferente”.
(B) Descarta a importância de “ser original”.
(C) Considera que “ser diferente” e “ser original” são sinônimos.
(D) Indica uma escala em que “ser original” é mais do que “ser diferente”.

32) De que forma a tirinha do Armandinho, a seguir, dialoga com o texto? Ela reforça ou contradiz a visão da autora? Justifique sua resposta:



(Participação especial das amigas Lívia Ramos e Aparecida Ferreira de Carvalho
na elaboração de algumas questões!)  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui o seu comentário sobre o blog ou sobre esta postagem em especial!!! Vou amar saber o que você pensa!! Muito obrigada pela visita!!! Volte sempre!!!