domingo, 23 de abril de 2017

Exercícios sobre crônica da Marina


Quem somos? 

Neste início de ano, o noticiário nos impõe uma pergunta pouco confortável: quem somos? 

Ninguém de nós responderia "eu sou um dos revoltosos do presídio Anísio Jobim", assim como nenhum de nós contou as cabeças decepadas dos rivais, filmando a cena para exibi-la -- ou exibir-se -- nas redes sociais. Nós não somos os bárbaros. 

Bárbaros são sempre os outros. Mas um bárbaro ou uma matilha de bárbaros ou hostes de bárbaros não aparecem por acaso, não têm geração espontânea. Sobretudo quando inseridos em uma sociedade que se pretende civilizada, os bárbaros são um produto.

Em geral, produto de uma barbárie menos aparente. Fabrica-se um bárbaro colocando três para viver onde só um caberia. Ajuda-se um bárbaro a tomar plena posse de sua barbárie colocando-o num ambiente propício. Bárbaros exercitam melhor sua barbárie quando armados e com acesso a celulares. Pode-se enxertar barbárie numa criança privando-a de proteção, educação e de um ambiente adequado ao seu crescimento. Bárbaros proliferam melhor sem esgotos do que postos em uma universidade. Bárbaros se alimentam e se multiplicam graças a exemplos de barbárie bem sucedida. 

Quem somos? Nenhum de nós é aquele que viu os dois primos matando a socos o ambulante indefeso, cujo único crime havia sido defender uma travesti. Nenhum de nós é o que passou mais rápido e nada fez para impedir o assassinato. Muito menos somos aquele que, sorrateiro, aproximou-se do morto para roubar-lhe o celular que já não lhe serviria. 

Nenhum de nós é um prefeito sumido do posto depois de ter sumido com outras coisas. Nenhum de nós, ao retirar-se do cargo público que exercia, levou o computador ou a mesa. Nenhum de nós foi buscar o filho em um condomínio, na manhã de domingo, depois de uma festa de reveillón, a bordo de um helicóptero do Estado. Nós não somos aquele que percorreu cerca de 300 quilômetros de carro, procurando o lugar melhor para desovar ou queimar o corpo do homem que havia assassinado e que levava na mala. Nós não somos sequer aqueles que escreveram "Fora Lésbica!", sem esquecer o ponto de exclamação, em um quadro imantado destino a atividades infantis. 

O problema é que a pergunta não se pretende individual. Não se trata de saber quem sou eu ou quem é você. Trata-se de saber quem somos nós, os brasileiros, como sociedade. De como nos vemos e de como somos vistos. 

O morticínio do presídio foi notícia no mundo inteiro. O olhar que se pousa sobre nós fez-se mais denso. 

E aqui, o horror que sentimos diante do massacre de Manaus é o mesmo que sentimos diante dos repetidos massacres do EI? As cabeças cortadas, de um lado e do outro, têm para nós o mesmo peso? O fato de uns serem reféns inocentes e os outros serem bandidos faz diferença? 

Ou estamos mais preocupados com os 80 e tantos que fugiram pelo túnel ameaçando a tranquilidade fora do presídio, do que com os que mataram ou foram mortos? 

Na foto publicada na primeira página de "O Globo" de terça-feira, mostrando o lado de fora do Anísio Jobim há, entre os familiares, duas mulheres encapuzadas, só olhos de fora. Pode ser temor de um eventual gás lacrimogêneo, ou medo de ser reconhecida por elementos da facção rival à do seu parente. O enfrentamento não se limita ao recinto do presídio. Nem se limita à luta entre uma facção de traficantes e outra. O enfrentamento mais amplo e mais fundo se situa, já faz tempo, entre a sociedade que somos e a que queremos ser. 

(Marina Colasanti)

01) Qual a temática do texto? Justifique sua resposta: 

02) Que fatos citados no texto propiciam o aparecimento dos bárbaros? Qual deles você acha o mais frequente em nossa sociedade? 

03) O que o texto mais denuncia? Explique seu raciocínio: 

04) Você acha que a indiferença ante o sofrimento alheio contribui indiretamente com o aumento da violência? Justifique sua resposta: 

05) "Pode-se enxertar barbárie numa criança, privando-a de proteção, educação e de um ambiente adequado ao seu crescimento". segundo o texto. Mas quando uma criança tem, por exemplo, tudo isso e, ainda assim, se torna um jovem capaz de atos como queimar mendigos, espancar pessoas, matar, roubar... o que falta? Justifique sua resposta: 

06) Transcreva do texto uma passagem que comprove a importância do coletivo, do NÓS: 

07) Observe com atenção o sexto parágrafo e explique por que a construção do mesmo se deu em cima de negações. Qual o objetivo disso? 

08) Responda, sinceramente, a essa pergunta feita no texto: "O fato de uns serem reféns inocentes e os outros serem bandidos faz diferença?", justificando seu ponto de vista: 

09) Comente o que você entendeu com o trecho destacado no final do texto, posicionando-se: 

10) Que sentimento o texto mais despertou em você? Explique:

11) Escreva UM pequeno parágrafo associando, de alguma forma, a tirinha abaixo ao texto lido: 


12) Como, afinal, você responderia à pergunta do título? Justifique sua resposta: 

13) Relacione o pensamento de Einstein ao texto em questão, dizendo se você considera ou não esse comportamento frequente e por quê: 


14) Segundo o crítico e historiador francês Taine, "o homem é produto do meio, da raça e do momento histórico em que vive". Que passagem do texto dialoga com esse pensamento? Transcreva-a, explicando seu raciocínio:

15) A autora faz uso de sentenças interrogativas ao longo do texto. Qual seria a função dessa estratégia discursiva?

16) Que mensagem o texto lhe transmitiu, como um todo? 

(Agradecimento especial a algumas meninas do grupo "Arte e Manhas da Língua": Adriana Lessa, Regina Maria, Aparecida Ferreira, Luciana Chaves, Maria Ruth, Sandra Curvelo, Maria Regina)

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