quinta-feira, 23 de março de 2017

Vamos discutir mais um pouquinho?!?

Não se pode banalizar a maldade.
Lugar de bandido rico não pode ser em casa. É na cadeia.



       Adriana Ancelmo é liberada para cuidar dos filhos em casa. Os filhos precisam muito dela, coitada. Quando ela participou de falcatruas, sabia exatamente o que estava fazendo... pensou nos filhos? Não. Nem nos dela, nem nos nossos.

As presas pobres, solteiras, viúvas, abandonadas, com filhos pequenos, vão ser liberadas? Com a mesma eficiência e rapidez da senhora Justiça? Mãe é importante, não é? E as que morreram sem direito à saúde? As crianças que, pelo dinheiro desviado, ficaram órfãs? Os pequenos que morreram por falta de condições de tratamentos adequados e dignos? Isso é assassinato. Não tem outro nome. Adriana Ancelmo é homicida. Ela e seus amigos roubaram saúde, esperanças de cura. Roubaram vidas e tempo de vida. Esbanjaram, tripudiaram. Agora ela vai para casa? Tomar champanhe? Comer do bom e do melhor? Isso não é prisão domiciliar. Isso são férias. Isso é prêmio.

Vivemos num país em que lugar de bandido pobre é na cadeia. Lugar de bandido rico é onde ele quiser. Isso é deboche com quem é honesto. Bruno solto. Adriana em férias na sua prisão domiciliar. Tudo dentro da legalidade. Uma legalidade torta, míope e tendenciosa. Que só aparece quando o réu é rico. Enquanto Bruno é liberado com eficiência, quantos presos pobres, muitos inclusive inocentes, estão ainda vendo o sol nascer quadrado sem que a Justiça sequer se coce? Um criminoso tão cruel que nunca devolveu o corpo da vítima. Imagina o que é não saber onde está o corpo da sua filha? Imagina uma pessoa não ter o direito de ser enterrada em paz? É de uma maldade infinita. Ter Bruno como ídolo é mostrar que tudo pode e a vida não vale nada. Ser bom goleiro basta para ser admirado.

Você levaria seu filho para tirar foto com uma pessoa assim? Se fosse um zoológico, até entenderia. -- Olha ali a cobra! -- Tira foto. Se fosse para mostrar Bruno preso e dizer: -- Viu? Aprenda! Isso não se faz. Ok. Mas livre, feliz e contratado e dizendo que não é bandido? Não me parece bom exemplo para criancinhas. Inocente? Bruno, vamos brincar de bingo. Pega uns feijões aí. Cada palavra que servir você vai marcando. Está nos dicionários. Bandido - nome masculino. Pessoa que pratica atividades ilegais e criminosas; malfeitor; criminoso. Pessoa sem caráter. Quadrilheiro, desalmado, homicida. Bingou? Bingou! E de cartela cheia! Bruno, não vou te enganar. Você é bandido, sim. Não fui eu que disse. Foi o dicionário. E a Justiça que te condenou a vinte e dois anos e três meses de prisão. Condenação que, pelo jeito, não vai ser cumprida, né? Imagine seu filho animado dizendo: -- Quando crescer, quero ser igual ao Bruno! Você não se preocuparia? É isso. Essa pessoa não pode ser modelo para nossas crianças.


Tirar selfie com Bruno é um sintoma. A ponta do iceberg. O estrago é muito maior. Estamos no meio de uma crise de valores. De quem é valorizado. Do que presta ou não. Nossos ídolos são criaturas muito esquisitas. De gente com comportamento duvidoso, de moral torta. E a gente bate palma.

Os pais que levam a criança para tirar retrato com Bruno não são diferentes dos que chegam na escola botando banca e desrespeitando professor. Dos que acham que os filhos estão sempre certos. E fazem curvas nas regras para que elas só valham sempre a seu favor. E dos seus filhos, claro. São seres do tipo: - O que que tem? A defesa perfeita. Além das desculpas que fazem o pior réu parecer um coitadinho inocente. Estamos criando monstros. Crianças sem valores. Sem ética. Sem empatia. Sem um pingo de senso moral. Expõem e se expõem sem pudores. Sem reservas. Sem pensar em consequências. Elas aprendem que mentir dá bom retorno. Que roubar não tem problema. Que adultos e colegas não precisam ser respeitados. Que o umbigo delas é o centro do universo. Tudo pode. Tudo é permitido. Pior. Com a falta de regras, na verdade, é recompensado. Batem, humilham, tripudiam de colegas, funcionários, professores. Sabe o que acontece? Nada. Não há respeito pelo outro. Só pelos próprios desejos. Crianças sem limites. Más. Insuportáveis. Pequenos Brunos. Está certo tirar foto junto. Agora até entendo.

Alunos trabalham no ponto morto. Copiam deveres dos outros. Não participam, só colocam nomes nos trabalhos alheios. Colam a prova toda. A resposta, já combinada, deixada no banheiro. Ou passada pelo celular no estojo. Vigora a lei do menor esforço. Escolas esvaziadas com a crise, no medo de perder alunos, se tornam permissivas. Aprovam sem nota, nem mérito. Curvam-se a qualquer ordem dos pais. Que, cientes disso, se organizam para o ataque em bandos irracionais de WhatsApp. Quem não educa, deseduca. Cria pequenos ditadores. Crianças com egos inflados que mentem sem pestanejar. Torcem verdades. Riem na nossa cara.

Reparem. A carne é de papelão. O leite vem contaminado. Os legumes cheios de agrotóxico. Os governadores desgovernam. As pessoas não sentem culpa, remorsos. Envenenam. Enganam. Sem dó. Não há mais limites para a maldade humana. Para o desrespeito ao outro. Enganar e tirar vantagem. Lucrar. Esses são os verbos do momento. É a banalização do mal. Matar, sequestrar, torturar, desviar verbas, corromper é normal. A gente deu defeito. Alguma coisa deu muito errado na raça humana. A vontade é de dar o sinal e saltar. Nessa impossibilidade, é preciso lutar. Mostrar para nossos meninos que não pode ser assim.

É preciso lutar hoje, para que nossos filhos tenham direito a um mundo melhor. Onde Brunos não ousem matar. Mesmo sendo ótimos goleiros. Onde corruptos confraternizem, sim. Com as quentinhas da cadeia. Onde cadeias sejam um lugar não só de bandido pobre. Mas, principalmente de bandido rico também. Porque esses fazem um estrago muito maior.

Ser pai, mãe, exige gastar menos tempo nas telas de celulares e laptops. Olhar nos olhos dos filhos. Sentar do lado. Estar junto. Agarrar, abraçar, fazer cosquinha. Eles reclamam, mas gostam. Estar presente. Dizer NÃO. Botar limite. Dar castigo, se for o caso. Fazer filho é uma delícia. Ter filho é razoavelmente fácil. Criar um ser decente, esse é o maior desafio. Dá trabalho. Cansa. Tem horas que é chato. Que irrita. Que a vontade é dizer SIM e se livrar logo da criatura. Mas eles dependem de nós. Eles testam, para ver até onde podem ir. Até onde nosso discurso é coeso. Até onde a gente acredita no que fala. Eles testam porque querem limites. Precisam disso.

Filho é como água. Sem os limites para servir de continente, se espalham e se perdem. Por isso é preciso estar do lado. Perto. Acompanhar. Puxar assunto. Dizer que ama. É preciso. Para ontem. Filho melhora a gente. E a gente melhora com o filho. Filho é crescimento. É embate. É amor. É por eles que a gente acorda a cada dia. E se supera mesmo quando tudo é espinho. E a gente anda descalço. Mas leva eles no colo. Eles serão nossos. Amados. E para sempre. Então é melhor caprichar agora.
(Mônica Raouf El Bayeh – Jornal “Extra” – 19/03/17)

01) Transcreva do texto três passagens carregadas de ironia:

02) Copie uma pergunta retórica do texto, explicando seu raciocínio:

03) Posicione-se sobre a passagem destacada no segundo parágrafo do texto, explicando bem:

04) Dê a sua sincera opinião sobre o trecho em destaque no terceiro parágrafo, comentando:

05) Qual a sua opinião sobre as outras duas passagens situadas ainda no terceiro parágrafo?

06) O que significa a expressão “vendo o sol nascer quadrado”, empregada no texto?

07) Responda à pergunta que inicia o quarto parágrafo do texto:

08) Posicione-se acerca da passagem  destacada no quarto parágrafo, justificando seu ponto de vista:

09) O que você tem a comentar sobre o sexto parágrafo? O que gostaria de complementar ou discordar, contrapor?

10) Podemos afirmar que a passagem em destaque no sétimo parágrafo traz uma antítese? Explique:

11) Você concorda ou não com a parte em negrito presente no oitavo parágrafo? Por quê?

12) Copie do texto um par de antítese:

13) Há algum desvio gramatical presente no último trecho destacado no texto? Explique:

14) Que mensagem o texto lhe transmitiu? Comente: 

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