segunda-feira, 6 de março de 2017

Falando, ainda, sobre o goleiro Bruno...

TEXTO 02: 

Bruno está feliz. Leve. Solto, em todos os sentidos. 
Este fato despertou horror em uns e euforia em outros. 

1 - O olhar de Bruno. Já repararam? É um olhar frio. Calculado. De quem não se arrepende do que fez. Olhar de quem crê na impunidade safada que cobre esse país. Na certeza absoluta de quem não voltará para a cadeia. Tranquilo, ele começa a refazer a vida. Coisa que só quem está vivo pode fazer. Só quem está vivo. Entendeu, ou quer que eu desenhe? 

2 - Você também quer uma selfie com Bruno? Bruno ainda tem fãs! A euforia com que Bruno é defendido por fãs me embrulhou o estômago. Bruno era bom goleiro. Ok. Eu me lembro disso. O Flamengo brilhava. O que as pessoas esquecem é que na vida a gente escolhe. Escolhe ações, paga as reações. Bruno estava rico. A pensão para o filho Bruninho ia sair no xixi. Ele podia pagar sem sentir. Não ia lhe empobrecer em nada. 

Ele escolheu mandar matar Elisa. Houve depoimento de que talvez tivesse mandado matar o menino também. Ele escolheu o crime. Como se não houvesse justiça para se discutir, se chegar a acordos. Ele escolheu o risco. De ser pego. De ser descoberto. De acabar na prisão. Foi escolha dele. Ele mandou sequestrar. Maltratar. Torturar. Matar. A mulher que era a mãe de seu filho. E ainda tem fãs? Tem. Acredite, tem. Vi pessoas defendendo esse homem com unhas e dentes: 

-- Antes de mais nada, a gente tem que agradecer ao Bruno por tudo o que ele fez pelo Flamengo. 

Engraçado. Por quê? Quando ele escolheu tirar a vida de outra pessoa, ele não pensou no Flamengo. Não se preocupou com a falta que faria. E fez. Ele se lixou para o time. Para os fãs. Ou será que ele fez o que fez na certeza de ser protegido? Na confiança de que um goleiro tão bom não ficaria preso porque faria falta? 

Ouvi na época da Copa pessoas lamentando o fato de ele estar preso. Ouvi pessoas sugerindo que ele fosse solto para jogar na seleção. Ele, com certeza, estaria convocado. Foi dele a escolha pelo crime. Foi ele que preferiu não ficar com o time e com os torcedores. 

-- Não há provas contra Bruno. 

Oi? Não há provas? E o sangue no carro? As confissões dos criminosos amigos dele? As peças de roupa da Elisa com ele? A namorada da época que ficou com o bebê? Há provas. Não há cadáver. Porque a moça virou ração para cachorro. Com requintes de crueldade. Imagina a dor de uma família não poder enterrar uma filha com um mínimo de dignidade? Imagina o vácuo? A angústia de passar por isso? Pois é. 

Quem fala uma coisa dessas deve ser fã mesmo. É bem igual a ele. A mesma falra de dó. De empatia. A mesma alma gelada de quem não sabe o que é sentir junto. Sofrer junto. 

-- Ele já cumpriu o que devia. 

Quem tira uma vida, tira tudo. Ele deixou um filho sem mãe. Uma mãe sem filha. Essa é uma dívida eterna. De dor. De estrago. De desrespeito. O rombo que ele causou na vida dessas pessoas é uma dívida que não tem preço. No Brasil, ela tem tempo. E esse tempo não foi cumprido não. Então ele não cumpriu o que devia. 

3 - Ela era puta! Eu li isso. Não acreditei. Li de novo. Assim a pessoa defendia Bruno. E eu pergunto: e daí? Elisa era garota de programa. Fez filmes pornôs. Elisa não era santa. E Bruno sabia. Conhecia bem. Se há uma coisa que Bruno não é é santo também. Bruno sabia exatamente com quem estava. Sexo é coisa feita a dois. Se não tem outro nome. Ele era Maria Chuteira? Então cabia a ele o cuidado para não ser pego no golpe da barriga. Para toda barriga que cresce com um filho dentro, houve um pinto que não fez questão de se proteger. Não é mesmo? Elisa podia ser o que fosse. Não importa. Não justifica. A vida era dela. De mais ninguém. A ninguém cabe julgar. Nem condenar. Nada justifica a morte de uma pessoa. Nada. Nunca. 

Sabe o que é mais triste? Todas essas frases foram de mulheres. As mulheres são as que mais atacam as próprias mulheres. As que mais crucificam. As que apontam dedo acusando. Já não basta a sociedade machista? A gente também vai se esculachar? Quem será por nós, mulheres, então? Com quem poderemos contar? 

4 - O advogado pediu um exame de DNA para confirmar paternidade. Mas, vem cá, se era para pedir exame de DNA por que não pediram logo, antes de matar a moça? Já imaginou se o filho não for dele? O estrago que ele fez à toa? 

5 - Bruno se diz desejado por dez clubes de futebol de Minas, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Entre eles, Bangu. Eu acho que Bangu é bom. Com sorte, já joga em casa. Não tem deslocamento. Gasto com transporte. O que eu não vi é se é o 1 ou o 2. 

6 - Agora é a hora de ele viver a vida dele, em liberdade -- afirmou o advogado ao EXTRA. O que você sente lendo isso? O que essa frase desperta em você? Em mim, sobe revolta. Uma tristeza. Uma sensação de que está tudo largado mesmo. Estamos à deriva. Num país sem lei. Sem ordem. Sem justiça. 

Bruno  tem direito à lierdade porque não foi julgado? Se Bruno, famoso, do Flamengo, não foi julgado, imagine os pobres, os desconhecidos. Quantos injustiçados e com casos bem menos graves ainda estão encarcerados? Os que não têm como pagar advogados caros? Até quando viverão sem vida e sem liberdade? 

Escrevam aí. Não preciso nem usar minha bola de cristal. Madame Mônica prevê. Bruno vai ficar solto. Não volta mais para a cadeia. Mais um homem protegido pela justiça injusta. Nossa Justiça de olhos vendados. MachistaEle vai arrumar time para jogar. Um time que não ligue para ética, moral, justiça. Só para gols, bola na rede, vitórias certas. Um time que se preze não contrata pessoas assim. Ele vai entrar em campo e vai ter gente sem noção gritando: -- Ah, o campeão voltou! Aplaudindo, gritando, torcendo, sem ligar para o que passou, Dizendo coisas como: -- Já são águas passadas. -- Ele já pagou o que deve. -- Não houve provas. 

O certo seria ninguém ir ao estádio. Boicotar o time. O patrocinador do time. Fazer um auê. Mas estamos num país em que se vota nos mesmos. Em políticos que aprontam tanto que conseguiram falir estados inteiros. E que daqui a pouco estarão livres de novo. Eles sabem disso. Prontos a desfrutar de rica liberdade. 

Estamos num país em que milhares de pessoas vão às ruas atrás dos blocos da Anitta e da Preta Gil. E não vão protestar pela falta dos seus salários, da saúde, da educação. Antigamente davam "pão e circo"; hoje nem pão dão mais. Mas o povo se ilude com o circo. E está tudo bem. Não é à toa que Bruno foi solto no Carnaval. Povo feliz, nas ruas. Tudo certo. Só mais um sem pagar pelo que fez. 

Sou a favor do Carnaval. Sempre. E da luta. E da vida. De todos! É preciso lutar por uma justiça justa. Enquanto as pessoas que matam e que agridem não tiverem justiça, a vida de todos nós está em risco. Não se iluda. Nada é longe da gente. Homens que se protegem, esquecem que têm filhas, irmãs, mães. Qualquer um pode virar ração de cachorro, sabia? O que isso provoca em você? 


01) O que seria, já no texto, o duplo sentido para a passagem "solto, em todos os sentidos", empregado pela autora? Você concorda com isso? 

02) Copie uma passagem já no título que comprove que o assunto em questão é polêmico e que divide bem as opiniões das pessoas, aproveitando para dizer qual é a sua: 

03) Quando a expressão destacada no primeiro parágrafo costuma ser usada? Qual a função dela no texto? 

04) Por que a palavra "selfie" apareceu em itálico no texto? Você tiraria uma com o ex-goleiro? Por quê? 

05) Por que a passagem destacada no segundo parágrafo trouxe o verbo no passado? 

06) Explique, posicionando-se, a passagem destacada no terceiro parágrafo: 

07) Transcreva do texto duas passagens carregadas de ironia, explicando seu raciocínio: 

08) Copie do texto passagens que indicam a presença da linguagem coloquial: 

09) Posicione-se com relação às passagens destacadas no nono e no décimo parágrafos, explicando bem: 

10) Observe a passagem destacada no item 03 e responda: você acha que é motivo para alguém ser assassinada? Justifique sua resposta: 

11) Ainda no item 03, observe a palavra em destaque e repetida. Por que outra palavra ela poderia ser substituída sem causar prejuízo à frase? 

12) Na expressão "Se não tem outro nome", destacada no texto, que nome teria? Justifique sua resposta:

13) No décimo segundo parágrafo, o que a opinião em destaque demonstra? Você concorda ou discorda? Por quê? 

14) Concorde ou não com a passagem destacada no décimo terceiro parágrafo, explicando seu ponto de vista: 

15) No parágrafo 18, posicione-se sobre a passagem nele destacada, comentando sua opinião: 

16) Retire do texto um exemplo de antítese, explicando: 

17) Na última passagem destacada do texto podemos afirmar que há nela uma redundância? Por quê? 

18) Observe a última palavra destacada no texto (justiça) e substitua por outra que caberia ainda mais no contexto, explicando o porquê: 

19) O texto 01 ou o texto 02 foi mais agressivo, mais forte? De que texto você gostou mais? Por quê? 

20) Que mensagem o texto lhe transmitiu?

21) Explique o que a charge abaixo tem em comum com o texto lido:



22) Relacione, de alguma forma, a charge abaixo ao texto lido, explicando seu raciocínio:



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