segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A greve das mulheres dos PMs. Quando as mulheres resolvem agir.


PMs morrem toda semana. Falta segurança, falta preparo. Falta salário. Respeito. Escalas de trabalho justas e dentro da lei. Como fazer valer seus direitos sem ter direito à greve? Eles nada podem fazer. Mas os parentes podem! Bingo! Eis a grande descoberta.

É duro ver a pessoa amada sair, sem saber se volta vivo. Duro trabalhar e não ter o que comer. Ver os filhos pedindo e não ter dinheiro para atender. Por essas e por outras questões, as mulheres dos PMs resolveram agir.

Com cadeiras de praia, café, suco, lanchinhos. Diria que quase um piquenique. Elas acamparam em frente aos batalhões. Se organizaram para impedir a saída dos PMs dos batalhões.

Centenas? Milhares? Não muitas. Menos de meia dúzia de gatas pingadas. Em alguns batalhões, apenas quatro! Certamente, não o suficiente para impedir o que quer que fosse. Na fila para o show do Justin Bieber, que só acontece em março, tem mais que isso.

Homens fortes, tão valentes, aquartelados por poucas mulheres? Um spray de pimenta? Aquele que eles usam com os grevistas? Ou uma bomba? Uma só. Não botava todo mundo para correr rapidinho? Botava. Mas a questão não é essa. Podia ser uma mulher só. Ou duas, como as que esvaziaram os pneus da viatura sob o olhar complacente dos PMs. Nada seria feito. O bloqueio é simbólico. A resistência possível.

Uma espécie de vamos brincar de faz de conta. Elas fazem de conta que mandam. Eles, que obedecem. A gente, que acredita. Quando a lei nos rouba direitos, é preciso de artifícios. E esse foi até bem esperto. Eles precisam dessas mulheres. Elas são o escudo protetor. O disfarce da greve.

Sou a favor da luta por mais respeito. Sou a favor da luta de peito aberto pelos direitos duramente conquistados durante anos. De todos os trabalhadores. Inclusive os da PM, que costuma atrapalhar bastante a greve alheia.

Mas uma dúvida me atormenta: Se, em vez de mulheres de PMs, fossem professores? Aposentados? Funcionários outros do mesmo estado? Sobreviventes do mesmo abandono? Seriam tratados com a mesma paciência?

Ou seriam arrastados pelo chão, com spray de pimenta na cara? Com bombas, como tantos já foram? Enxotados como vira-latas mais uma vez?

Em casos de PM, é razoavelmente tranquilo deixar os parentes permanecerem na porta do batalhão. Afinal, pense bem, quem vai agredir a família dos PMs? Quem enfrentaria? Quem peitaria tal atitude? Quem teria tamanha coragem?

Os professores, talvez, em revanche? Não. Professores lutam com giz. Com o poder da palavra. São seres de paz. Não dariam esse tipo de troco. Bandidos também não ousariam tanto. Então é seguro. Tranquilo. Conveniente.

Toda paralisação traz prejuízos. Faz parte. É a moeda que cada um tem. O Rio que já vive em plena violência, tem piorado bastante. O que me choca, nessa situação, não é o aumento da violência. Faz parte do combo da greve.

Me choca é o apoio das pessoas, na televisão. Essas pessoas tão boazinhas, compreensivas e tolerantes, onde estavam nas greves dos professores que eu não vi? Ou a Educação não é importante? Por que ninguém luta junto quando o assunto é Educação?

A greve é necessária? Sim. As de todos os funcionários do Estado. Por isso, queridos PMs, é hora de deixar nascer um mínimo de empatia. Sofremos igual. Estamos todos no mesmo buraco.

É hora de pensar sobre respeito aos outros grevistas que, na falta de parentes, vão pessoalmente brigar pelo que querem. Que colocam a cara a tapa. E que têm sofrido muito.

Somos todos vítimas, amigos. Todos nós. Indignados com a mesma corrupção. Desconsiderados pelo mesmo desgovernos. Calejados com tanta truculência. Mas partidos, separados, não chegaremos a lugar nenhum.

O poder que nos joga uns contra os outros é o mesmo que nos despe de tudo o que é nosso como direito. Que nos mata sem saúde, sem segurança. Que rouba das nossas crianças um futuro digno e melhor.

O inimigo é outro. Estamos do mesmo lado. Estamos juntos nessa. Somos escravos do mesmo senhor. Basta. O momento é de união. Imagina a gente na mesma luta? O estrago ia ser bom!
Troque as bombas pelo aperto de mão. Baixe a guarda. E o escudo. Olhe a gente no olho. Faz de conta que a gente é parente. A vida já está tão difícil. Um pouco de delicadeza só faz bem. Afinal, simpatia é quase amor.

(Mônica Raouf El Bayeh - Jornal "Extra" - 12/02/17)


01) A autora parece ser contra ou a favor da greve indireta dos PMs? Comente com elemento(s) do próprio texto: 

02) A que a palavra sublinhada no texto se refere? A que classe de palavras ela pertence? 

03) Responda, sinceramente, à pergunta feita no oitavo parágrafo? Justifique sua resposta: 

04) Copie uma passagem do texto em que há ironia, explicando: 

05) Que mensagem o texto lhe transmitiu? Comente: 

06) Explique a passagem destacada no quinto parágrafo: 

07)  Que aparente "incoerência" é levantada pela autora no texto? Por que você acha que ela ocorre? 

08) Circule no texto um exemplo de vocativo, explicando seu raciocínio: 

09) De alguma maneira a charge abaixo dialoga com o texto lido? O que você pensa a respeito disso? Justifique sua resposta: 


10) Que crítica encontra-se embutida na charge a seguir? Podemos afirmar que há ironia presente nela? Explique: 



11) Relacione a charge acima à situação da greve de PM que ocorreu no Espírito Santo e o fato de o próprio povo se aproveitar disso para saquear lojas: 

12) Elabore UM parágrafo dissertativo-argumentativo sobre o tema em questão, utilizando o máximo de argumentos que conseguir para defender o seu ponto de vista: 

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