segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Autóctone (Luís Fernando Veríssimo)

A menina atirou o lápis sobre o caderno e ficou olhando para a rua. Era um belo dia de outono e ela precisava escrever uma composição com a palavra "autóctone". Era um dia perfeito de outono e ela precisava ficar ali e escrever uma composição com a palavra autóctone. E para o dia seguinte. Autóctone. 

Aquilo nao era uma palavra, era um empacamento. Um solavanco verbal. Uma frase com "autóctone" devia ter avisos desde o começo, como os que colocam nas estradas antes de curvas perigosas ou defeitos na pista: "Cuidado, autóctone adiante". Quem chegasse a "autóctone" sem estar preparado arriscava-se a capotar e cair fora do texto. "Autóctone" era uma ameaça para leitor desavisado. "Autóctone" devia ser proibido. Ainda mais num dia de outono. 

O que queria dizer "autóctone"?
Autóctone, autóctone... 
Aurélio! 
Autóctone. (Do gr. "autóchton" pelo lat "autochtone". Adj. 2 g.) 1. Que é oriundo da terra onde se encontra... 

Meu Deus, pensou a menina. Eu sou uma autóctone! Vivi todo este tempo sem saber que era uma autóctone. Era melhor não saber. Agora vou passar pelos outros com cara de autóctone. 

-- Minha filha -- diria a mãe. -- Que cara é essa?
Cara de autóctone. Não ia poder disfarçar. Confessaria para a sua melhor amiga, a Maura. 

-- Descobri uma coisa horrível a meu respeito. 
-- O quê? Conta! 
-- Eu sou uma autóctone.
-- Não! 
-- Sou.
-- E isso pega?
-- Não faz diferença. Você também é uma autóctone. 
-- Eu?

Mas depois de descobrir o que era "autóctone" Maura daria um pulo, de alegria, a nojenta. 

-- Eu não sou. Eu não nasci aqui! 

A menina faria a amiga jurar que não contaria para ninguém que ela era uma autóctone. 
Autóctone.

Como é que alguém podia usar aquela palavra numa frase? Uma pessoa nunca mais era a mesma depois de dizer "autóctone". A vida terminava de um lado e começava do outro lado da palavra "autóctone". A menina suspirou. O dia ficava cada vez mais lindo e a folha de caderno à sua frente ficava cada vez mais vazia. Autóctone. Um cachorro oriundo da terra em que se encontrava, seria um au-autóctone?

Que bobagem. Precisava pensar. Precisava encher a folha do caderno. 
Teve uma ideia. Escreveu:
"A pessoa pode ser autóctone ou não autóctone, dependendo do lugar onde estiver."
Leu o que tinha escrito e depois acrescentou: "Tem gente que emigra só para não ser autóctone".
Depois apagou tudo. A professora, obviamente, queria uma composição a favor de "autóctone", não contra. 
Começou outra vez:
"Nós, os autóctones..."

(Luís Fernando Veríssimo)

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