terça-feira, 30 de agosto de 2016

Trabalhando com a INTERTEXTUALIDADE


Texto 01: Os primeiros milagres de Eliseu

Os cidadãos disseram a Eliseu: "A posição desta cidade é boa, como meu senhor vê, mas as águas são ruins e esterilizam o país." Disse el: "Trazei-me uma tigela nova e ponde sal nela". Trouxeram-na; e ele foi à fonte da água, e atirou lá o sal, dizendo: "Assim diz o Senhor: -- Eu saneio estas águas; doravante não produzirão mais nem monte nem esterilidade". E as águas ficaram sadias até ao dia de hoje, conforme a palavra que Eliseu tinha proferido. 

Dali subiu a Betel; e quando subia pelo caminho, uns rapazinhos que tinham saído da cidade começaram a zobar dele, dizendo: "Sobe, ó calvo! Sobe, ó calvo!". Ele, voltando-se para trás, olhou-os e amaldiçoou-os em nome do Senhor. Então, saíram da floresta duas ursas e dilaceraram quarenta e dois daqueles rapazinhos. Dali foi para o monte Carmelo, donde voltou para a Samaria. 

(2 Reis, 2, 19)

Texto 02: Eliseu

Apenas Elias foi arrebatado pelo redemoinho à sua vista. Eliseu ficou cheio de seu espírito; fez muitos milagres, em dupla medida, e prodígio era tudo o que da boca lhe saía. Durante a vida não tremeu diante de ninhguém, nem mortal algum teve poder sobre seu espírito. 

(Eclesiástico, 48, 12)

Texto 03: As ursas

O profeta Eliseu está a caminho de Betel. O dia é quente. 

Insetos zumbem, no mato. O profeta marcha em passo acelerado. Tem missão importante em Betel. 

De repente, muitos rapazinhos correm-lhe no encalço, gritando:

-- Sobe, calvo! Sobe, calvo! 

Volta-se Eliseu e amaldiçoa-os em nome do Senhor; pouco depois, saem do mato duas grandes ursas e devoram quarenta e dois eninos: doze a menor, trinta a maior. 

A ursa menor tem digestão ativa; os meninos que caem em seu estômago são atacados por fortes ácidos, solubilizados, reduzidos a partículas menores. Somem-se. 

O mesmo não acontece aos trinta meninos restantes. Descendo pelo esôfago da grande ursa, caem no enorme estômago. Ali ficam. A princípio, transidos de medo, abraçados uns aos outros, mal conseguem respirar; depois, os menores começam a chorar e a se lamentar, e seus gritos ecoam lugubremente no amplo recinto. "Ai de nós! Ai de nós!"

Finalmente, o mais velho acende uma luz e eles se veem num lugar semelhante a uma caverna, de cujas paredes anfractuosas escorrem gotas de um suco viscoso. O chão está juncado de resíduos semi-apodrecidos de antigas presas: crânios de bebês, pernas de menins. "Ai de nós" -- gemem. -- "Vamos morrer!"

Passa o tempo e, como não morrem, se animam. Conversam, riem: fazem brincadeiras, pulam, correm, jogam-se detritos e restos de alimentos. 

Quando cansam, sentam e falam sério. Organizam-se, traçam planos. 

O tempo passa. Crescem, mas não muito; o espaço confinado não permite. Tornam-se curiosa raça de anões, de membros curtos e grandes cabeças, onde brilham olhos semelhantes a faróis, sempre a perscrutar a escuridão das entranhas. E ali fazem a sua cidadezinha, com casinhas muito bonitinhas, pintadas de branco. A escolinha. 

A prefeiturazinha. O hospitalzinho. E são felizes. 

Esquecem o passado. Restam vagas lembranças. que com o tempo adquirem contornos místicos. 

Rezam: "Grandes Ursas, que estais no firmamento..."

Escolhem um sacerdote -- o Grande Profeta, homem de cabeça raspada e olhar terrível; uma vez por ano flagela os habitantes com o Chicote Sagrado. Fé e trabalho, exige. O povo, laborioso, corresponde. Os celeirozinhos transbordam de comidinhas, as fabricazinhas produzem milhares de belas coisinhas. 

Passa o tempo. Surge uma nova geração. Depois de anos de felicidade, os habitantes se inquietam: por um estranho atavismo, as crianças nascem com longos braços e pernas, cabeça nem proporcionada e meigos olhos castanhos. A cada parto, intranquilidade. Murmura-se: "Se eles crescerem demais, não haverá lugar para nós". Cogita-se de planificar os nascimentos. O Governinho pensa em consultar o Grande Profeta sobre a conveniência de executar os bebês tão logo nsçam. Discussões infinitas se sucedem. 

Passa o tempo. As crianças crescem e se tornam um bando de poderosos rapazes. Muito maiores que os pais, ninguém os contém. Invadem os cineminhas, as igrejinhas, os clubinhos. Não respeitam a polícia. Vagueiam pelas estradinhas. 

Um dia, o Grande Profeta está a caminho de sua mansãozinha, quando os rapazes o avistam. Imediatamente, correm atrás dele, gritando: 

-- Sobe, calvo! Sobe, calvo! 

Volta-se o profeta e os amaldiçoa em nome do Senhor. 

Pouco depois, surgem duas ursas e devoram os meninos: quarenta e dois. 

Doze são engolidos pela ursa menor e destruídos. Mas trinta descem pelo esôfago da ursa maior e chegam ao estômago -- grande cavidade, onde reina a mais negra escuridão. E ali ficam chorando e se lamentando: "Ai de nós! Ai de nós!"

Finalmente, acendem uma luz. 
(Moacyr Scliar)

01) Os dois primeiros textos foram retirados de livros da Bíblia. O fato de um remeter a outro caracteriza um tipo de intertextualidade: quando se lê um, automaticamente lembra-se do outro porque tratam da mesma personagem, dos mesmos fatos protagonizados por ela. 

a) Releia-os e aponte as características textuais que os diferenciam:

b) Que recursos são utilizados em cada um para atestar os fatos milagrosos?

c) É possível dizer que um texto "lança luz sobre o outro", ou seja, esclarece o outro? Justifique sua resposta:

02) A partir de uma passagem bíblica, o autor cria uma história que, na verdade, é muito semelhante a um mito de criação. É possível encontrar muitos mitos que explicam a criação do universo ou do homem nas religiões ou na cultura popular. Pesquise alguns e compare-os com o texto 03. Há semelhanças entre eles? Comente:

03) Apesar das características do conto, a narrativa do texto 03 é pontuada de descrições realistas das cenas, que ressaltam o aspecto  científico dos fatos. Aponte algumas passagens em que isso ocorre:

04) Note que as personagens, com exceção de Eliseu, não têm nome nem agem individualmente, mas em grupos. Na sua opinião, qual é o significado dessa escolha, no conto?

05) Quando a sociedade se organiza finalmente, o autor passa a utilizar o diminutivo para denominar seus produtos. Há um duplo significado para esse fato. Indique-os:

06) O diminutivo, nesses casos, indicam carinho (afetividade) ou tamanho? Comente:

07) Explique por que a palavra destacada no texto é grafada com S e não com Z:

08) Como você interpreta a estrutura circular desse conto? 

4 comentários:

  1. 1 – Leia a notícia (texto 1), a música do Rappa (texto2) e observe o cartum (texto 3):
    Texto 1:

    Restaurante é alvo de arrastão nos Jardins

    Após assaltarem três casais de clientes, criminosos fugiram.
    Ninguém foi preso.

    Dois homens e uma mulher fizeram um arrastão no restaurante Pecorino Bar e Trattoria na noite de quinta-feira na capital paulista. O estabelecimento fica na Alameda Joaquim Eugênio de Lima, esquina com a rua Cacondena, no bairro Jardins. Até a manhã desta sexta-feira, nenhuma das vítimas havia registrado boletim de ocorrência e ninguém havia sido preso, segundo informações do Bom Dia SP.
    O trio invadiu o restaurante por volta das 23h e rendeu funcionários. Ao menos três casais de clientes foram assaltados. Em seguida, os bandidos fugiram e a polícia não tem informações a respeito.

    Disponível em: http://noticias.terra.com.br/brasil/policia/restaurante-nos-jardins-e-alvo-de-arrastao-em-saopaulo,0e5bf128d6e30410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html>.
    Acesso em: 12 ago. 2013. 9h31min.







    Texto 2:

    Minha Alma (a Paz Que Eu Não Quero)

    A minha alma tá armada
    E apontada para a cara
    Do sossego
    Pois paz sem voz
    Paz sem voz
    Não é paz é medo

    Às vezes eu falo com a vida
    Às vezes é ela quem diz
    Qual a paz que eu não quero
    Conservar
    Para tentar ser feliz (x4)

    As grades do condomínio
    São para trazer proteção
    Mas também trazem a dúvida
    Se é você que está nessa prisão
    Me abrace e me dê um beijo
    Faça um filho comigo

    Mas não me deixe sentar
    Na poltrona no dia de domingo, domingo
    Procurando novas drogas
    De aluguel nesse vídeo
    Coagido é pela paz
    Que eu não quero
    Seguir admitindo
    É pela paz que eu não quero, seguir
    É pela paz que eu não quero, seguir
    É pela paz que eu não quero, seguir
    Admitindo

    Disponível em: .Acesso em:

    Texto 3:

    Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2013. 10h20min


    a) Qual é o assunto abordado nos três textos?

    b) Em relação à notícia, texto 1, qual é o tema que ela explora?

    c) Sobre a música responda:

    I – Paz sem voz não é paz é medo. Qual é a interpretação para essa frase? Por que paz sem voz é medo?



    II – As grades do condomínio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que “tá” nessa prisão. Que prisão é essa a que se refere o compositor?

    III - O título da canção é Minha Alma (A paz que eu não quero). Que tipo de paz esse homem não quer?


    IV - Conclua, qual é a principal crítica que a música faz?



    d) Sobre o cartum responda:

    I – Por que o homem está escondido atrás da poltrona?


    II – Qual a intenção do cartum ao mostrar armamentos desse tipo, como armas de fogo, granada e faca, saindo de dentro da TV?

    e) Com base nos três textos, responda:

    I - Qual deles fala sobre a violência de maneira mais clara?
    II - Qual deles fala sobre a violência, mas é preciso de uma leitura mais criteriosa para compreendê-lo e interpretá-lo? Por quê?

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    1. Por favor, querida, poderia enviar para mim por e-mail?!?
      andreiadequinha@oi.com.br
      Beijos e obrigada, desde já!

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  2. Bom dia, Andreia! Não consegui colocar o cartum referente às perguntas da questão E. Favor, enviar-me o nome de sua página no Facebook, pois não a achei . Obrigada!

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    1. Olá, Ana Paula, tudo bem? Pode mandar o cartum para mim, por e-mail, que eu posto esta atividade aqui no blog, agradecendo a você pela contribuição! Valeu mesmo! Fiquei curiosa...

      Não é página no Face e sim um GRUPO, chamado "Arte e Manhas da Língua", o mesmo nome daqui do blog. Mas pode me adicionar no Face (Andreia Dequinha) que eu coloco você lá. Mais fácil. Beijinhos e até breve.

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