domingo, 3 de julho de 2016

"Da utilidade dos animais", de Carlos Drummond de Andrade

Da utilidade dos animais

Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram ani­mais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envol­ve toda a fauna, protegendo-a. Eles tem direito à vida, como nós, e além disso são muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca... Todos ajudam.
― Aquele cabeludo ali, professora, tam­bém ajuda?
Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Cen­tral. Aquele serve de montaria e de burro de car­ga. Do pêlo se fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.
― Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?
― Bem, primeiro serve para uma coisa, de­pois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, es­colham pincel de texugo. Parece que é ótimo.
― Ele faz pincel, professora?
― Quem, o texugo? Não, só fornece o pêlo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer.
Arturzinho objetou que pretende usar bar­beador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar de­le, mas a professora já explicava a utilidade do canguru :
― Bolsas, malas, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando na carne. Canguru é utilíssimo.
― Vivo, fessora?
― A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz... produz é maneira de dizer, ela forne­ce, ou por outra, com o pêlo dela nós prepara­mos ponchos, mantas, cobertores, etc.
― Depois a gente come a vicunha, né fessora?    
― Daniel, não é preciso comer todos os ani­mais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a crescer...
― E a gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.
― Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve pa­ra forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?
― A carne também é listrada? - pergunta que desencadeia riso geral.
― Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garan­tir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível por causa disto. Ah, o pingüim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, on­de costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enga­nados. Vocês devem respeitar o bichinho. O ex­cremento - não sabem o que é? O cocô do pin­güim é um adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito com a gordura do       pingüim. . .
― A senhora disse que a gente deve respeitar. - Claro. Mas o óleo é bom.
― Do javali, professora, duvido que a gen­te lucre alguma coisa.
Pois lucra. O pêlo dá escovas de ótima qualidade.
― E o castor?
― Pois quando voltar a moda do chapéu para homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para agasa­lhos. É o que se pode chamar um bom exemplo.
― Eu, hem?
― Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living de sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pêlos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utili­dade que vocês não calculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa... O biguá é engraçado.
― Engraçado, como?
― Apanha peixe pra gente.
― Apanha e entrega, professora?
― Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe, mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá. - Bobo que ele é.
Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu; Ricardo?
Entendi. A gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o pê­lo, o couro e os ossos.

 (Carlos Drummond de Andrade)


01) O texto apresenta uma aula em andamento, caracterizando uma situação bastante dinâmica. Na apresentação da fala das personagens, predomina o discurso direto ou indireto? Por quê?

02) A utilização predominante no tipo de discurso acima colabora para o dinamismo, para a vivacidade do texto? Por quê?

03) “É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a.” Existe uma grande contradição entre esse trecho inicial e o que se mostra no restante do texto. Explique essa contradição:

04) Alguns trechos revelam que as crianças estavam achando incoerente a ideia de amar e respeitar os animais e, ao mesmo tempo, retirar coisas deles, como o pêlo ou mesmo a vida. Retire do texto dois trechos que comprovem essa afirmação:

05) Quem foi o primeiro a perceber o discurso contraditório da professora? Comprove com uma passagem do texto:

06) Procure outras falas dos alunos que demonstram perceber a incoerência da professora: 

07) Como a professora reage a esse tipo de intervenção das crianças?

08) O que mostra a conclusão a que chegou Ricardo no final da aula? 

09) O texto apresenta um humor que não é puro entretenimento: ele tem uma intenção crítica. O que o texto critica?

10) De acordo com o texto, o que o homem tem em vista na sua relação com os animais?

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