quarta-feira, 20 de julho de 2016

O caso de Miguel


Não são raras as vezes em que nós mesmos nos assustamos com nossa permanente capacidade de julgamento. Na verdade, vivemos julgando pessoas e coisas. Vivemos mensurando e avaliando tudo o que encontramos pela frente, como um radar atento. Não raro, também, equivocamo-nos escandalosamente. 

Que efeito esta nossa faceta produz sobre o grupo no qual convivemos? Sobre qual base lógica nos situamos para ceder a esses juízos e a estas aferições? É a lógica que nos torna capazes de organizar nossas ideias a ponto de enxergarmos com maior clareza determinadas situações. O sociólogo David William Carraher defende que para pensarmos criticamente é necessário sermos perspicazes, enxergarmos além das superfícies, questionarmos onde não há perguntas já formuladas e ver prismas que os outros não veem. 

Instruções: Formar cinco grupos e distribuir um relato para cada grupo. Eles terão dez minutos para avaliar o caso de Miguel. Nesse período, devem procurar avaliar o comportamento de Miguel, observado em diferentes momentos de um dia e descrito nos relatos a seguir: 


RELATO Nº 01 — a mãe de Miguel 

Miguel levantou-se correndo, não quis tomar café e nem ligou para o bolo que eu havia feito especialmente para ele. Só apanhou o maço de cigarros e a caixa de fósforos. Não quis colocar o cachecol que eu lhe dei. Disse que estava com pressa e reagiu com impaciência a meus pedidos para se alimentar e abrigar-se direito. Ele continua sendo uma criança que precisa de atendimento, pois não reconhece o que é bom para si mesmo. 

Após esse relato, como a equipe percebe Miguel? 


RELATO Nº 02 — O garçom da boate

Ontem à noite ele chegou aqui acompanhado de uma morena, bem bonita por sinal, mas não deu a mínima bola para ela. Quando entrou uma loura de vestido colante, ele me chamou e queria saber quem era ela. Como eu não conhecia, ele não teve dúvidas: levantou-se e foi até a mesa falar com ela. Eu disfarcei, mas só pude ouvir que ele marcava um encontro, às 9 da manhã, bem nas barbas do acompanhante dela. Sujeito peitudo! 

Após esse relato, como a equipe percebe Miguel?


RELATO Nº 03 — O motorista de táxi 

Hoje de manhã, apanhei um sujeito e não fui com a cara dele. Estava de cara amarrada, seco, não queria saber de conversa. Tentei falar sobre futebol, política, sobre o trânsito e ele sempre me mandava calar a boca, dizendo que precisava se concentrar. Desconfio que ele é daqueles que o pessoal chama de subversivo, desses que a polícia anda procurando ou desses que assaltam motorista de táxi. Aposto que anda armado. Fiquei louco para me livrar dele. 

Após esse relato, como a equipe percebe Miguel? 


RELATO Nº 04 — O zelador do edifício 

Esse Miguel, ele não é certo da bola, não! Às vezes cumprimenta, às vezes finge que não vê ninguém. As conversas dele a gente não entende. É parecido com um parente que enlouqueceu. Hoje de manhã, ele chegou falando sozinho. Eu dei bom dia e ele me olhou com olhar estranho e disse que tudo no mundo era relativo, que as palavras não eram iguias para todos, nem as pessoas. Deu um puxão na minha gola e apontou para uma senhora que passava. Disse, também, que quando pintava um quadro, aquilo é que era a realidade. Dava risadas e mais risadas... Esse cara é um lunático.

Após esse relato, como a equipe percebe Miguel? 


RELATO Nº 05 — A faxineira 

Ele anda sempre ccm um ar misterioso. Os quadros que ele pinta, a gente não entende. Quando ele chegou, na manhã de ontem, me olhou meio enviesado. Tive um pressentimento ruim, como se fosse acontecer alguma coisa ruim. Pouco depois chegou a moça loura. Ela me perguntou onde ele estava e eu disse. Daí a pouco ouvi ela gritar e acudi correndo. Abri a porta de supetão e ele estava com uma cara furiosa, olhando para ela cheio de ódio. Ela estava jogada no divã e no chão tinha uma faca. Eu saí gritando: Assassino! Assassino! 

Após esse relato, como a equipe percebe Miguel?


Relato do próprio Miguel sobre o ocorrido nesse dia 

Eu me dedico à pintura de corpo e alma. O resto não tem importância. Há meses que eu quero pintar uma Madona do século XX, mas não encontro uma modelo adequada, que encarne a beleza, a pureza e o sofrimento que eu quero retratar. Na véspera daquele dia, uma amiga me telefonou dizendo que tinha encontrado a modelo que eu procurava e propôs nos encontrarmos na boate. Eu estava ansioso para vê-la. Quando ela chegou, fiquei fascinado; era exatamente o que eu queria. 

Não tive dúvidas. Já que o garçom não a conhecia, fui até a mesa dela, me apresentei e pedi para ela posar para mim. Ela aceitou e marcamos um encontro no meu ateliê às 9 horas da manhã. Eu não dormi direito naquela noite. Me levantei ansioso, louco para começar o quadro, nem pude tomar café, de tão afobado. 

No táxi comecei a fazer um esboço, pensando nos ângulos da figura, no jogo de luz e sombra, na textura, nos matizes... Nem notei que o motorista falava comigo!

Quando entrei no edifício, eu falava baixinho. O zelador tinha falado comigo e eu nem tinha prestado atenção. Aí, eu perguntei: o que foi? E ele disse: bom dia! Nada mais do que bom dia. Ele não sabia o que aquele dia significava para mim. Sonhos, fantasias e aspirações... Tudo iria se tornar real, enfim, com a execução daquele quadro. Eu tentei explicar pcara ele que a verdade era relativa, que cada pessoa vê a outra à sua maneira. Ele me chamou de lunático. Eu dei uma risada e disse: está aí a prova do que eu disse. O lunático que você vê, não existe. 

Quando eu pude entrar, dei de cara com aquela velha mexeriqueira. Entrei no ateliê e comecei a preparar a tela e as tintas. Foi quando ela chegou. Estava com o mesmo vestido da véspera e explicou que passara a noite em claro, numa festa. Aí eu pedi que sentasse no lugar indicado e que olhasse para o alto, que imaginasse inocência, sofrimento... que... Aí ela me enlaçou o pescoço com os braços e disse que eu era simpático. Eu afastei seus braços e perguntei se ela tinha bebido. Ela disse que sim, que a festa estava ótima, que foi pena eu não ter estado lá e que sentiu minha falta. Enfim, que estava gostando de mim. Quando ela me enlaçou de novo eu a empurrei e ela caiu no divã e gritou. Nesse instante a faxineira entrou e saiu berrando: Assassinol Assassino! A loura levantou-se e foi embora. Antes, me chamou de idiota. Então, eu suspirei e disse: ah, minha Madona! 

(Autor desconhecido)

4 comentários:

  1. Em primeiro lugar, a primeira impressão que tive foi sobre o nome,,,,pensava que era o seu Miguel...kkkkkkkk
    Uma atividade diferente, muito bem pensada e elaborada que nos coloca um espelho para que possamos enxergar nossas graves falhas ao julgar as atitudes alheias. Esse Miguel poderia ser qualquer um de nós, ou então nós tb poderíamos ser os "juízes".
    Será bem interessante ouvir as deduções dos integrantes dos grupos..eu até acharia viável dois grupos para cada situação. Assim teríamos duas visões para um mesmo fato.
    Parabéns pela proposta!

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    1. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
      Essa foi boa! Eu sabia que corria esse risco, pois o Miguel está presente em todas, até quando não é o meu! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

      Com dois para cada grupo eu acho que ficaria mais complicado na hora de apresentar... na questão do tempo em si... mas certamente ficaria bem mais rico e interessante, né?

      Beijocas, amiga, e valeu pela força de sempre!

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  2. Que proposta hein! Super diferente, dá pra pensar absurdos com isso!!
    Parabéns! Suas atividades são um espetáculo!!

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    1. Muito legal, né? Eu também adorei! Sem falar que a gente pode até pedir para o aluno bolar outros exercícios semelhantes a este, com outros temas e situações, né?

      Esta não foi criada por mim, amiga, apenas compartilhada mesmo! Não alcancei esse nível ainda não. Quem me dera... rs rs rs

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