segunda-feira, 4 de julho de 2016

Mais um texto ma-ra-vi-lho-so!

Uma vergonha de proporções olímpicas



Jhonata, por um saco de pipoca. Gisele, por ter ido trabalhar. Ana Beatriz, indo buscar a mãe no aeroporto. Isso sem falar nas mortes por falta de hospitais. Por falta de leitos, de medicamentos. Na falta que o dinheiro evaporado não paga, nem compra.

Nossa lista diária de mortes é de cortar o coração. Não tem hora. Não tem cor. Idade, classe social, nem lugar. Reze ao sair de casa. Agradeça, se voltar.

A Educação vai muito mal. A Saúde agoniza. Segurança já não aparece há muito tempo. Até quando?

UERJ de portas fechadas. Hospital Pedro Ernesto também fechando as portas. Os funcionários sem salários ou com salários atrasados. Professores em greve há meses sem que haja real interesse do governante em negociação. Falta verba. Como, se todo mundo continua pagando os impostos?

O dinheiro some de onde devia estar. Evapora. Como mágica. Aposentados com salários atrasados passam fome. Enquanto isso, cargos comissionados são criados com salários de até vinte e cinco mil reais. Fomos todos abandonados. Largados ao Deus dará. Sem saúde, educação, segurança, salários. Não tem dinheiro para quem? Essa é a pergunta correta, não?

Nossa situação por aqui já não era boa, há muito tempo. Mas, sem dúvida, piorou muito com as somas vultuosas das obras feitas para a Olimpíada. Cidade maquiada. Obras que caem e se desfazem dias depois de inauguradas. Para inglês ver.

Conheço pessoas ótimas que carregaram a tocha. Pessoas que eu admiro. Fiquei feliz de ver o brilho nos olhos, o sorriso vitorioso. Mereceram. Foi bonito. Não estou aqui julgando as pessoas que têm participado da passagem da tocha.

Só acho que é preciso compreender de forma mais ampla as tentativas das pessoas de apagar a tocha. Apagar tocha é crime?

Crime é deixar criança com frio de noite na rua. Crime é sumir com o dinheiro da saúde. Crime é precisar do básico e não ter. Crime é ver civis e policiais morrendo como moscas todos os dias sem que uma política adequada seja providenciada.

Crime é não cuidar das escolas. Crime é mandar bater em professor. Crime é ter permitido durante tantos anos que as águas da Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas ficassem imundas. Crime é a cara de pau de quem acha que trabalhador não merece salário digno e no dia correto.

Por trás de cada balde e extintor que se ergue, é a nossa revolta que se ergue junto. O povo não é burro! O famoso e antigo "Pão e Circo" não funciona mais. Sabe por quê? Porque o pão acabou. O povo já não consegue comprar. O Pão e Circo virou um pobre Circo. E o circo não sustenta quem tem fome. Temos fome. De pão, sim. E de Educação, Saúde, Segurança e, sobretudo, Justiça.

Uma Justiça que, tristemente, não tira a venda. E uma balança que está bem tendenciosa. Nunca para o lado dos pobres. Esses, abandonados, cada dia mais.

Somos onça Juma. Não importa se o que acontece nos agride os ouvidos. Se não nos é confortável. A gente que se dane. Na menor ameaça de revolta, somos recebidos a tiro, bomba, bala de borracha, sumiço.

Nos querem de coleiras, mordaças, para irmos mansos para onde eles quiserem nos levar. Povo acovardado. Adestrado. Obediente. Um povo sem cultura, doente, inseguro vira fácil massa de manobra. Esse é o que interessa.

Por isso nos tiram escolas. Para que a gente não questione, não levante hipóteses, não aprenda a ler de outra forma os dados que se apresentam. Professores incomodam. Por isso nos tiram as universidades. Os hospitais, os bandejões. Por isso não há segurança. E nunca vai haver. O que dá segurança é a escola. A instrução. Para cada escola fechada, um presídio aberto amanhã.

Pagamos uma fortuna por uma festa de gosto duvidoso, a começar pelo uniforme esquisito e cafona. A lista de falhas e vergonhas só faz crescer. Brasil virou chacota nos jornais do mundo todo. Muitos dos escolhidos para carregar a tocha são ex-BBB e atores. Qual sentido?

Somos piada pronta. Isso a preço de ouro. Superfaturado. Ainda querem aplausos e claque? Para! Pode parar! Essa tocha que atocha o povo, a gente não quer, não. Queremos apagar essa tocha de direitos para sempre e só para os mesmos.

A tocha arruma a cidade para gringo ver. Nos abandona miseráveis num canto. Essa tocha, dessa forma, não nos interessa. Precisamos de tocha, sim. De outro tipo. Uma que traga luz, que ilumine os tão abandonados caminhos da retidão. Basta de circo. O povo quer seus direitos. O retorno de seu dinheiro de impostos. Sobretudo, respeito e dignidade.

(Mônica Raouf El Bayerh)

(http://extra.globo.com/mulher/um-dedo-de-prosa/uma-vergonha-de-proporcoes-olimpicas-19635699.html#ixzz4DPABVKlP)


01) No primeiro parágrafo, embora deixe claro que existem muitos casos "anônimos", a autora cita três nomes. Explique o que aconteceu com cada um deles:

02) Ela também cita três áreas bem problemáticas no nosso país. Quais são elas? O que você pensa a respeito disso? Concorda com ela? Citaria mais alguma? Comente:

03) Quais os principais sintomas do caos citados por ela no quarto parágrafo? 

04) Tente responder à pergunta (retórica) feita pela autora nesse mesmo parágrafo:

05) Você concorda com ela que as coisas pioraram por conta da Olimpíada? E na época da Copa do Mundo, aqui sediada? Justifique sua resposta:

06) O que significa a expressão "para inglês ver"? A que ela é relacionada no texto? Explique: 

07) A autora parece ter alguma coisa contra as pessoas que carregaram ou carregarão a tocha? Comprove sua resposta com uma passagem do texto:

08) Recentemente vimos a notícia de que um jovem de Manaus resolveu apagar a tocha, quando a mesma passava por lá. Foi preso. O que você pensa a respeito disso? E qual parece ser a postura da autora com relação a isso? Comente:

09) Justifique o emprego dos dois porquês destacados no texto, situados no décimo primeiro parágrafo: 

10) Explique o que é a famosa política de "Pão e circo", dizendo porque, segundo a autora, ela não funciona mais:

11) Qual dos "crimes" citados pela autora que mais chamou a sua atenção? Por quê?

12) Que crítica a autora faz, dentre outras coisas, à Justiça? O que você pensa com relação a isso?

13) Qual o interesse dos nossos governantes? Como eles querem que seja o povo e por quê?

14) Qual a intenção da autora ao citar a onça Juma? Você sabe o que aconteceu com ela? O que então a metáfora utilizada pela autora quer dizer? 

15) Posicione-se sobre a afirmação que se encontra em destaque no texto, justificando sua resposta:

16) Que crítica a autora faz a determinadas pessoas que levarão a tocha? Por quê? Com que intenção provavelmente foram escolhidas? Quem apenas deveria conduzir a tocha? 

17) Você acha que o Brasil está virando chacota nos jornais do mundo todo? Merecidamente ou não? Justifique sua resposta:

18) Que expectativa você tem com relação à Olimpíada em si? Comente:

19) Por que a autora diz que a piada é a preço de ouro e superfaturado? Explique: 

20) Que mensagem o texto lhe transmitiu? 

12 comentários:

  1. A Mônica arrasa!!! Ela me representa, assim como você Andreia Dequinha . Como é bom saber que não estamos sozinhos... que existem pessoas que pensam como nós! Pessoas sérias, que defendem igualdade de direito, amor ao próximo, respeito à vida... Que nem de longe utilizam a mídia para justificar desmandos de político A ou B...É gratificante ler um texto tão verdadeiro quanto este, mas que nem por isso deixa de ser poético também... assim como descobrir uma profissional do seu quilate , cuja criatividade e sensibilidade na elaboração das atividades propostas me dão a certeza de que você é mesmo dez... com louvor! Vocês duas formam uma dupla imbatível. Que troca boa!!! E que tocha tenhamos sim... mas " Uma tocha que traga luz, que ilumine os tão abandonados caminhos da retidão."

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    1. Eu já virei fã de carteirinha da Mônica... Li o primeiro texto dela, sobre o "ouro olímpico ser do professor" (postei aqui, com questões que elaborei) e gostei demais, mas depois percebi que não é só "um" texto bom... é uma pessoa show de bola que escreve de forma sensata e justa, como ela pensa mesmo! Um achado!

      Só por causa dela que eu ainda leio o EXTRA... Só por causa dela que eu vejo que nem tudo está perdido e que nem todos que estão na mídia têm um preço! Se bem que... ela tem... é PRECIOSA! Pra mim, pra nós, pra uma categoria que só tem levado pedradas... aí vem ela e oferece flores... verdinhas... esperança pura!

      Eu sou apenas uma mera aprendiz... mas faço o que posso... sempre que posso... e fazer essas parcerias com pessoas do bem e de bem me renovam! E obrigada por vir aqui, Zenilda, e por acender a minha tocha de esperança com relação à humanidade. Ela ainda tem jeito. Não somos poucos, só estamos espalhados. Que este blog possa, de alguma forma, ser um ponto de encontro. Topa? Um abraço.

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    2. Obrigada , Zenilda e Andreia, pelo carinho. Fico mt feliz mesmo com suas palavras!

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    3. Vc merece, querida! Um honra ter seus textos por aqui, sua força e sua presença! Um abraço.

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  2. Topo. Já topei. Não tem como não topar sua proposta... até porque, como educadoras que somos, temos a missão de também ser luz na vida de nossos semelhantes. Andreia, desculpe-me pela ausência da vírgula antes do seu nome, no comentário que expus. Obrigada a você também, Mônica; seus textos me encantam.

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    1. Que fofa vc, Zenilda! Sempre!
      E não tem nada pelo que se desculpar, imagina...
      Um abraço...

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  3. Perfeito!! Que texto cheio de verdades!! É triste, porque é um clamor que parece que nunca vai ser ouvido, mas se vai ser ouvido ou não, é preciso gritar!!! E o grito ficou perfeitoooo!!! Mônica e Andreia, Adorei a parceria!!! Amei!!! Amei!!!

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    1. Também gostei demais do texto. A Mônica arrasa. Terceiro texto dela que trago pra cá e que exploro, com questões. Certamente levarei para os meus alunos, assim que a luta terminar, aliás, assim que a GREVE terminar, pois a luta é constante, eterna... (in)felizmente.

      Não é "Eduardo e Mônica", mas é "Mônica e Dequinha"... toda voz que se soma à outra forma uma linda parceria... Beijos. Obrigada pelo comentário, sempre carinhoso e animador.

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  4. Excelente texto e atividade!

    Clécia

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    1. Muito obrigada, Clecinha! Bom demais ver vc aqui, como nos velhos tempos... Beijos.

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  5. Texto excelente e que realmente vale uma grande reflexão por parte dos alunos e por todos nós. E amei as perguntas !

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    1. Feliz que tenha gostado do texto da Mônica (também amei) e das questões que elaborei sobre ele. Beijocas e valeu pelo incentivo, sempre, minha amiga querida!

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