sábado, 23 de julho de 2016

Escola sem partido ou a lei da mordaça?!?

Escola sem partidos, eu apoio!




-- Não fale nada. Não se misture. Tome cuidado.

Era época do AI5. O medo rondava. Pensar era perigoso. Falar o que pensava, então, saía caro. Custava a vida. Pessoas sumiam. Umas por dias. Outras para sempre. Não voltavam. Ou voltavam torturadas. Aos pedaços. Coração em farrapos.

Nas escolas, a matéria era decoreba. Folhinhas e mais folhinhas de nomes e datas. Só. Sem grandes questionamentos ou discussões. O receio se espalhava nas almas como triste erva-daninha em jardim abandonado. Política? A prudência aconselhava: melhor largar de mão.

De temor em temor, a gente se encolheu. Se afastou do contexto político. Não se envolvia, não questionava. Assim a gente chegou ao fundo do poço. Com uma coleção vergonhosa de políticos corruptos que, impunes, fazem o que bem entendem.

As falcatruas são tantas que daria um álbum. Aliás um álbum bem grosso e com direito a muitas figurinhas repetidas. Inclusive várias da mesma família.

O povo virou herança. Passa de pai para filho. Herança que ninguém cuida. Políticos se espalham como mato. Sugam, matam, como parasitas. Dilapidaram nossas riquezas, e o que havia de condições de vida. Da gente, só querem o voto. Depois descartam. Até as eleições seguintes.

A gente permitiu. Se omitiu. Omissão também é escolha. Não ter partido já é tomar partido. A falta de escolha já é escolha.

Agora, como reedição do AI5, surge essa proposta da “escola sem partido”. Um projeto de lei que visa, resumidamente, murchar a capacidade de questionamento dos alunos. Cercear a colocação crítica dos professores. Um “projeto mordaça”.

O que está por trás desse projeto de lei? A proposta verdadeira não é a de uma escola neutra. Não se iluda. Nada é neutro e apartidário. O real objetivo é excluir a liberdade de ensinar. Empobrecer ainda mais a escola que temos. Um crime.

Quem elabora um projeto desses não tem ideia do que seja Educação. Mas tem a exata ideia do que é pressão, repressão, perseguição e ameaça. Voltamos à ditadura. E estupramos a constituição que assegura o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas.

Estamos abrindo a temporada de caça às bruxas. As bruxas? Os professores, essas criaturas perigosas que pensam e ensinam a pensar.

A escola que questiona, pondera, critica, incomoda. A escola que te leva a sonhar com uma sociedade minimamente justa, é perigosa. Final de linha para os corruptos que precisam e contam com os votos dos incautos abobalhados. Melhor garantir que não se saia da decoreba boba e básica, não é?

Professores não incitam. Alunos não são seres manipuláveis. Entre numa sala de aula. Assista o que se passa. Os alunos de hoje são super bem informados. Antenados, têm as próprias ideias.

Ao contrário, manipulados, alienados é o que eles querem que a gente construa. Alunos apáticos. Que não pensem. Não participem da dinâmica social. Não se coloquem, não enxerguem os absurdos, não reivindiquem o justo. Robôs eleitores são o sonho dourado para candidatos manipuladores e corruptos.

Reparem os alunos que fizeram o lindo movimento de ocupação das escolas. Eles incomodam. Eles põem poderes em risco. Meninos não manipuláveis? Que vão às ruas? Que ocupam suas escolas e brigam pelos seus direitos? Meninos que se envolvem em manifestações, atos públicos e passeatas? Claro que não pode. Cortem suas asas. São muito perigosos. Não se pode permitir esse abuso!

Por isso é preciso calar a educação o quanto antes. Já se perguntou porque as greves de professores duram tanto? Porque escola fechada dá lucro. O interesse é esse mesmo. Escolas falidas. Professores sem aula. Mal remunerados. Insatisfeitos. Fracos. Professores que não ensinem. É o que eles precisam criar.

Professores são como a onça Juma, morta no desfile da tocha olímpica. Você finge que trata bem. Finge que tem consideração. Sempre mantendo cuidadosamente atrás das grades. No máximo , se andar livre, de coleira. Ao menor ataque, nem pestaneje: tiro, porrada e bomba. Acabe com ele.

Essa é a “lei coleira”. Vamos aceitar? Abaixar as cabeças para facilitar a colocação? Você que está dentro da escola, me diga. Como não falar do dia-a-dia? Do contexto histórico? Das barbaridades que acontecem? Do desrespeito ao povo?

Como não abordar a realidade crua e pobre dos alunos, se é o que eles vivem? Como estar ali e não levantar questionamentos? Não se preocupar em apontar saídas? Não dar voz às revoltas?

Disputas políticas fazem parte da escola viva. Acontecem a todo momento. No embate pelo respeito, pela hierarquia, nos limites, nas regras de convivência. Na compreensão de que não vivo sozinho.

Diferenças partidárias são apenas mais uma ponta de um todo muito maior. Professores são diferentes. Alunos são diferentes. Faz parte. É preciso que se pense:

-- A quem serve a escola partida, rachada, sucateada que os governos têm se empenhado em perpetuar?

-- A quem serve o fechamento progressivo de escolas?

-- A quem serve um ensino que não ensina? E que, mesmo não ensinando, é obrigado a aprovar?

-- A quem vai servir essa pretensa “escola sem partido”?

-- Quem propõe esse projeto de lei? Quem lucra com ele?

-- Quem vai se servir do seu desserviço?

-- A pedido de quem ela está sendo criada? (vou dar uma cola: procure por família Bolsonaro...)

Pensei muito. Medi prós e contras e aqui me posiciono. Sou a favor da escola sem partido. Isso mesmo. Ao contrário do que você imaginou, sou a favor. Estou aberta a mudanças. Quero uma escola melhor. Diferente da que temos hoje.

Há muito tempo que estamos partidos. Estamos partidos nos direitos de avaliar o aluno corretamente. Partidos de medo com o portão aberto, por falta de porteiro. Partidos, no coração, ao ver que faltou merenda e o menino, que só contava com aquela refeição, se encolhe de fome.

Partidos em nossa consideração como profissionais. Desrespeitados. Somos partidos à força em nossas greves. Partidos ao meio, profundamente, quando apanhamos da polícia no meio da rua.

Partidos e segregados na hora de pagamentos e reajustes que surgem como regalias só para categorias específicas. Partidos e parcelados em salários e descontos inadequados e ilegais. Partidos e deixados de lado, como comida ruim, pelo Ministério Público que insiste em não nos enxergar, nem ouvir nossos apelos.

Estou farta! Quero escola inteira, sem partidos! Tenho sede é de escola inteira. Uma escola de discursos múltiplos. De debate e criação de conhecimento. Uma escola crítica, como críticos já são as crianças e os adolescentes.

Uma escola de qualidade. Boa. Suculenta em conhecimento e cidadania. Plural e linda. Um inteiro de diversidades. De diferenças. De cabeças pensantes. De cores e brigas, discussões e acertos.

Sem pedaços e destroços. Sem rachaduras, nem maquiagem. Inteira em teto, chão, paredes. Inteira em almas diversas e unidas no mesmo objetivo.

Uma escola empenhada em problematizar. Em desconstruir e refazer. Onde, cada um com suas características, se exponha, sem medo. E todos juntos sejam ponte, laço, futuro. Um futuro que nos redima de um passado tão triste. E de um presente tão duro.

Escola inteira. Formadora de cidadãos inteiros e conscientes. Capazes de modificar o mundo. Porque o que está aí, sinceramente, não está servindo mais.

Existe uma consulta pública. Entre, vote. Dê seu voto. Proteste, enquanto ainda é possível. Pelo jeito que as coisas andam, a gente não sabe até quando ainda vai poder falar o que pensa.

(Mônica Raouf El Bayeh)
(http://extra.globo.com/mulher/um-dedo-de-prosa/escola-sem-partidos-eu-apoio-19755894.html#ixzz4FFdGk0MF)

01) O título parece indicar que a autora é a favor do projeto de lei "Escola sem partidos". No decorrer do texto isso se confirma? Justifique sua resposta:

02) Como as matérias eram ensinadas no tempo da ditadura? Voltar a isso seria um avanço ou um retrocesso, na sua opinião? Comente:

03) Por que a gente chegou ao fundo do poço, segundo a autora? Você concorda ou não com ela? 

04) Quando a autora menciona que há algumas figurinhas repetidas, tal expressão encontra-se no sentido denotativo ou conotativo? Explique: 

05) Ao dizer que existem várias figurinhas "da mesma família", que problema a autora denuncia? Isso é comum de acontecer? Se é proibido, por que então nada acontece? 

06) A que a autora compara os políticos? Tais comparações são, de fato, válidas? Comente: 

07) Posicione-se sobre a passagem destacada no texto, explicando: 

08) Por que tal projeto de lei também pode ser chamado de "lei da mordaça"? Qual o REAL objetivo dele? 

09) O que é uma "caça às bruxas"? 

10) Por que o professor tem sempre sido alvo desse tipo de ameaça, de castração? 

11) Por que a escola, dependendo do que ela ensina, pode ser perigosa? Perigosa para quem? 

12) Além dos professores, a autora cita outros seres "perigosos". Quem? Por quê? O que você pensa a respeito disso?

13) Por que a greve, segundo a autora, dura tanto? Você concorda com isso? Justifique sua resposta:

14) Retire do texto um exemplo de intertexualidade, explicando: 

15) A que a autora compara os professores? Por quê? 

16) Transcreva do texto uma passagem extremamente irônica, explicando a sua escolha:

17) Quando a autora fala que é a favor da escola sem partidos, o termo em destaque tem o mesmo sentido do usado no projeto de lei? Explique: 

18) O que a autora disse com a passagem "Eu tenho sede é de escola inteira"? 

19) Que mensagem o texto lhe transmitiu? Comente:

20) Afinal, você é contra ou a favor do projeto de lei "Escola sem partido"? Por quê? Já votou na consulta pública indicada pela autora? 

21) Observe a imagem abaixo e as sugestões de "propostas". Qual delas você acha mais importante do que a que está sendo proposta? Quem mais tem destruído o nosso país? É mesmo o "perigoso" professor? 


22) O que a charge abaixo denuncia? Comente: 


6 comentários:

  1. Excelente! O texto e as questões!

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    1. Feliz que você tenha gostado e mais feliz ainda por ter vindo aqui me visitar e deixado este alô tão carinhoso (e justamente no dia do seu niver), Verinha!

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  2. Parabéns, Andreia Dequinha, por mais esta brilhante proposta! O texto é excelente e as questões muito bem elaboradas. Lucidez e competência... sempre registradas em suas atividades! Como você nos sensibilizou no início, manifestando-se "partida" entre a revolta e a esperança, talvez seja interessante, depois deste estudo de texto riquíssimo, motivar os alunos a seguirem no colo da esperança, ou nas asas da esperança, com a proposta de um texto dissertativo-argumentativo neste sentido..
    Mais uma vez, parabéns! Admiração e muito orgulho de você, como Professora! Você é mesmo uma "Guerreira da Luz"!

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    1. Muito obrigada pela visita e pelo recadinho carinhoso! O texto da Mônica é inspirador... por isso as questões saíram boazinhas, né? Obrigada.

      Ainda estou meio "partida" e essas coisas me animam, como o seu comentário, por exemplo. Obrigada. Beijos mil e vc é uma fofa, uma querida! Aprendi muito com vc, e ainda aprendo.

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  3. Dequinha,
    Parabéns!!!!Não podemos silenciar diante de tudo isso!!!

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    1. Pois é, Nadiolan, querida, nunca me silencio. Minha teoria e minha prática ainda caminham muito juntas, graças a Deus! Um beijo grande! Obrigada por vir aqui!

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