sexta-feira, 1 de julho de 2016

Artigo de Opinião sobre o Sistema de Cotas!

Cotas: o justo e o injusto


O medo do diferente causa conflitos por toda parte, em circunstâncias as mais variadas. Alguns são embates espantosos, outros são mal-entendidos sutis, mas em tudo existe sofrimento, maldade explícita ou silenciosa perfídia, mágoa, frustração e injustiça. 

Cresci numa cidadezinha onde as pessoas (as famílias, sobretudo) se dividiam entre católicos e protestantes. Muita dor nasceu disso. Casamentos foram proibidos, convívios prejudicados, vidas podadas. Hoje, essa diferença nem entra em cogitação quando se formam pares amorosos ou círculos de amigos. Mas, como o mundo anda em círculos ou elipses, neste momento, neste nosso país, muito se fala em uma questão que estimula tristemente a diferença racial e social: as cotas de ingresso em universidades para estudantes negros e/ou saídos de escolas públicas. O tema libera muita verborragia populista e burra, produz frustração e hostilidade. Instiga o preconceito racial e social. Todas as "bondades" dirigidas aos integrantes de alguma minoria, seja de gênero, raça ou condição social, realçam o fato de que eles estão em desvantagem, precisam desse destaque especial porque, devido a algum fator que pode ser de raça, gênero, escolaridade ou outros, não estão no desejado patamar de autonomia e valorização. Que pena.

Nas universidades inicia-se a batalha pelas cotas. Alunos que se saíram bem no vestibular – só quem já teve filhos e netos nessa situação conhece o sacrifício, a disciplina, o estudo e os gastos implicados nisso – são rejeitados em troca de quem se saiu menos bem, mas é de origem africana ou vem de escola pública. E os outros? Os pobres brancos, os remediados de origem portuguesa, italiana, polonesa, alemã, ou o que for, cujos pais lutaram duramente para lhes dar casa, saúde, educação?

A ideia das cotas reforça dois conceitos nefastos: o de que negros são menos capazes, e por isso precisam desse empurrão, e o de que a escola pública é péssima e não tem salvação. É uma ideia esquisita, mal pensada e mal executada. Teremos agora famílias brancas e pobres para as quais perderá o sentido lutar para que seus filhos tenham boa escolaridade e consigam entrar numa universidade, porque o lugar deles será concedido a outro. Mais uma vez, relega-se o estudo a qualquer coisa de menor importância.

Lembro-me da fase, há talvez vinte anos ou mais, em que filhos de agricultores que quisessem entrar nas faculdades de agronomia (e veterinária?) ali chegavam através de cotas, pela chamada "lei do boi". Constatou-se, porém, que verdadeiros filhos de agricultores eram em número reduzido. Os beneficiados eram em geral filhos de pais ricos, donos de algum sítio próximo, que com esse recurso acabaram ocupando o lugar de alunos que mereciam, pelo esforço, aplicação, estudo e nota, aquela oportunidade. Muita injustiça assim se cometeu, até que os pais, entrando na Justiça, conseguiram por liminares que seus filhos recebessem o lugar que lhes era devido por direito. Finalmente a lei do boi foi para o brejo. 

Nem todos os envolvidos nessa nova lei discriminatória e injusta são responsáveis por esse desmando. Os alunos beneficiados têm todo o direito de reivindicar uma possibilidade que se lhes oferece. Mas o triste é serem massa de manobra para um populismo interesseiro, vítimas de desinformação e de uma visão estreita, que os deixa em má posição. Não entram na universidade por mérito pessoal e pelo apoio da família, mas pelo que o governo, melancolicamente, considera deficiência: a raça ou a escola de onde vieram – esta, aliás, oferecida pelo próprio governo. 

Lamento essa trapalhada que prejudica a todos: os que são oficialmente considerados menos capacitados, e por isso recebem o pirulito do favorecimento, e os que ficam chupando o dedo da frustração, não importando os anos de estudo, a batalha dos pais e seu mérito pessoal. Meus pêsames, mais uma vez, à educação brasileira.   

(Lya Luft – Texto publicado na Revista “Veja”, em 06/02/08)

01) Na visão da autora do texto, o sistema de cotas:

(A) é a forma ideal de barrar o preconceito racial e social.
(B) fere o princípio constitucional da igualdade de direitos. 
(C) corrige as injustiças históricas contra estudantes negros.
(D) só devia beneficiar os estudantes menos inteligentes.
(E) deveria contemplar apenas os estudantes pobres.

02) O posicionamento da autora acerca da política de cotas está em consonância apenas com uma das assertivas:
(A) Quando o governo inclui os estudantes saídos da escola pública no sistema de cotas, está reconhecendo que o ensino ministrado nessas instituições é fraco.
(B) A melhoria da qualidade do ensino nas escolas públicas brasileiras está condicionada, em primeiro lugar, à abertura das portas das universidades para todos.
(C) De uma política como o sistema de cotas, advém vantagens para toda a sociedade.
(D) Colocar um membro da comunidade negra na universidade é o caminho mais curto para reduzir os preconceitos raciais.
(E) O sistema de cotas, além de quebrar preconceitos, gera a harmonia entre as classes sociais.

03) A expressão “Que pena”, situada no final do segundo parágrafo, carrega um tom de:

(A) crítica
(B) intolerância
(C) lamentação
(D) descaso
(E) ironia

04) Ao expressar a ideia de fracasso com a construção linguística “foi para o brejo”, a autora:

(A) quebrou o tom de formalidade do texto
(B) não se preocupou em cair na vulgaridade
(C) foi desrespeitosa com os estudantes que se beneficiaram da “lei do boi”
(D) pretendeu dar mais ênfase a sua indignação
(E) deu mais leveza ao texto, porque a expressão é muito usada pelos brasileiros

05) Preenchem as lacunas do texto abaixo, de modo que a sequência lógico-discursiva esteja assegurada, as expressões da opção:

Lia Luft deixa o leitor em dúvida, __________________ expressa muito bem seu ponto de vista acerca da política de cotas, ________________ quando referenda sua opinião com o exemplo da “lei do boi”. ___________________, o leitor não se sente pressionado a concordar com ela, ____________ é levado a tirar suas próprias conclusões sobre o tema abordado.

(A) Por isso – principalmente – ao contrário - portanto
(B) No entanto – também – além disso – quando muito
(C) Posteriormente – sobretudo – na verdade – por outro lado
(D) Ao contrário – especialmente – mesmo assim – mas sim
(E) Além de tudo – aliás – por isso – já que

06) O sistema de cotas é injusto, porque todos são iguais perante a lei. Alterando o texto para: “Todos 
são iguais perante a lei, _________________ o sistema de cotas é injusto”, a lacuna só pode ser preenchida por:

(A) de sorte que
(B) no entanto
(C) uma vez que
(D) se bem que
(E) mas também 

07) Qual é o ponto de vista defendido pela autora em relação às cotas? O que você pensa a respeito disso? Justifique sua resposta:

08) Retire do texto dois argumentos usados pela autora para defender sua tese:

09) No terceiro parágrafo, a autora faz uma comparação para defender seu ponto de vista. Explique essa comparação e mostre como ela reforça a ideia que ela combate no texto:

10) O que aconteceu com a lei do boi? Por quê? 

11) No início do texto, a autora utiliza-se de uma comparação para introduzir o tema do seu artigo. Que comparação é feita? Existe uma relação lógica entre o tema central do texto e os temas abordados nessa comparação? Justifique sua resposta:

12) “O tema libera muita verborragia populista e burra, produz frustração e hostilidade”. 

a) Explique o sentido da expressão destacada acima:
b) Por que, na opinião da autora, a questão das cotas de ingresso nas universidades produz frustração e hostilidade? 

13) Ao afirmar que a desigualdade social é reforçada pelas “bondades” destinadas às minorias, a autora lamenta esse fato. Que marca textual nos permite chegar a essa conclusão? 

14) A autora deixa explícita sua opinião à oferta de cotas para estudantes negros e estudantes vindos de escolas públicas? Como isso acontece? 

15) A quem a autora atribui a responsabilidade por “essa lei discriminatória”? Justifique sua resposta com elementos do texto: 

16) Qual a conclusão da autora a respeito das cotas de ingresso nas universidades? 

17) Mesmo tendo sido escrito em 2008, tal artigo de opinião continua atual? Por quê? 

18) Elabore duas questões sobre o artigo de opinião lido e, claro, responda às mesmas: 

19) Qual a sua opinião sobre o sistema de cotas? Produza um pequeno artigo de opinião a respeito disso:

20) As charges a seguir confirmam ou não a maneira como a escritora Lya Luft vê o sistema de cotas? Justifique sua resposta:



2 comentários:

  1. Adoro trabalhar com esse tema! Esse texto da Lya Luft é maravilhoso!! E que legal que ficou a combinação com as charges, tudo muito criativo! Parabéns!! Adorei!!!

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    1. Feliz que você tenha curtido e obrigada por estar sempre passando por aqui, dando apoio, incentivando! Vc é show, amiga! Beijos e usei essa atividade com as minhas turmas do ano passado. Geral gostou!

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