quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vamos refletir um pouquinho?!?

Rio Olímpico. Seja bem-vindo. Se conseguir sobreviver. 



Um grupo de meninos se aproxima com pressa. Soltos e sós na noite fria. Traçam planos, nota-se bem. Um frio de dar pneumonia em pinguim. Eu com dois casacos. Eles de bermuda, camisa e chinelo.

O olhar de quem encara um pobre como se fosse fera, magoa a alma de quem é olhado. Os alunos me ensinaram. Não olho. Não encaro. Não me encolho. Nem respiro. Apenas aguardo o desfecho.

Passaram direto por mim. Apenas meninos. Crianças desesperadas de frio. Invadiram a loja aberta. Agarraram edredons. Rápidos. Experientes. Inocentes. Correram crentes que daria certo. Não deu.

Edredom não é cordão de ouro que cabe na boca, na bermuda, na cueca. Onde esconder um edredom? Como escapar discreto com um pacote enorme embaixo do braço?

Perseguidos pelos seguranças, largaram tudo pelo caminho. Aquela noite, na rua ou na comunidade, não ia ser melhor que as outras. Tremeriam de frio mais uma vez.

Já se imaginou com frio sem cobertor? Com fome sem alimento? Com dor sem direito à saúde? Esse é o Rio Olímpico. A verdadeira Terra dos meninos perdidos.

Nossos meninos, nossa promessa de futuro, morrem sem presente e matam em cada esquina. Roubam, sim. E são roubados em sua dignidade. Em seu direito à saúde, à segurança, ao conforto, a uma vida melhor.

Na Terra dos meninos perdidos não temos fada, nem Peter Pan. Pó mágico de pirlimpimpim, esse temos. Muitos vendem. Outros são usuários. Voam na triste ilusão de poder.

Mas o poder real não sai nunca das mesmas mãos. A mão dos Capitães Ganchos. Cruéis. Desumanos. Sentados em seus tronos. Desprovidos de alma e de culpa. Nunca sentiram frio. Nunca sentiram nada. Mandam como mandam os que só viveram em poder. Nunca em falta.

Já se imaginou sem direito a nada? Largado como traste, sem segurança, sem estudo, pronto a ser morto na próxima esquina ou viela? Meninos pobres, policiais a serviço ou não são caçados por bandidos, pedestres ou motoristas.

Morremos como moscas. Sem tempo nem de virar notícia. Nunca se viu tantas mortes assim. Por falta absoluta de uma política de segurança séria. Largados à sorte e ao Deus dará. Triste. Esse é o Rio Olímpico. Coloque seu colete à prova de balas. Seja bem-vindo, se conseguir sobreviver.

Estamos todos à deriva. A calamidade pública já vigora por aqui há bastante tempo. Estado dá isenção fiscal para ricos. E os trabalhadores ficam sem seus salários. Humilhados em seus direitos mais básicos. Lutar por seus direitos, veja só, aqui virou abuso. Achei que abuso fosse não pagar quem trabalha.

Escolas são assaltadas. A escola João Kopke, dia treze de junho, foi invadida por ladrões. Professores e alunos na mira de revólver. Levaram pertences de alunos e professores. Este mês, uma professora foi baleada no estacionamento da FAETEC. Não há porteiros, não há segurança. Só descaso.

As turmas são enormes. As escolas caem de podre sem cuidados básicos e manutenção. O salário de muitos funcionários públicos da educação, da saúde e da segurança só desvaloriza. Não é reajustado há anos.

A saúde não tem leitos, nem remédios. Pessoas agonizam pelo chão. Mas nem ouse pensar em morrer. O IML também não tem condições de te receber por lá. No Rio Olímpico você não tem onde cair morto, literalmente.

Rio Olímpico é só para fortes. Você tem que ser atleta para sobreviver. Saltar as crateras das ruas e estradas. Correr dos tiroteios a qualquer hora do dia, como se fosse uma oferta relâmpago. Pular de UPA em UPA até conseguir atendimento. Lutar, em estilo livre, para conseguir entrar em trens e metrôs. Driblar credores com um salário que não tem dia para cair no banco.

Só para encerrar, me diga: qual a semelhança entre a escola pública e a ciclovia Tim Maia (aquela que caiu)? Sabe? Eu te digo.

As duas deveriam ser fonte de prazer, saber e acesso. Mas viraram triste palco de tragédias. Uma feia escultura reflexo dos descasos e desmandos a que somos submetidos.

As duas deveriam nos mostrar um lindo horizonte. Mas vêm desmontando por absoluta falta de cuidado com o dinheiro do povo, com a falta de seriedade dos governantes, com a certeza de impunidade que reina por aqui.

Às duas faltou a base necessária para ficar em pé. Às duas a sustentação correta foi sonegada. Ignorada. Ambas foram e têm sido encaradas na base do “faz qualquer coisa aí que serve”. Para o povo qualquer coisa serve. Sem seriedade, sem capricho, sem preocupação.

Deu errado? Na ciclovia, a culpa é do mar. Esse insensível que resolveu ter ressacas. Um absurdo. Nas escolas, a culpa é dos professores. Esses insensíveis que querem receber para trabalhar. Uns loucos que lutam por uma educação de qualidade. Um absurdo.

O mar, como os professores, só causa transtorno! Os professores, esses insanos, ousam se interessar pelo outro. Alimentam sonhos de um mundo melhor. De direitos para todos. Eles sabem que só a educação abre caminho para a verdadeira democracia. Para o respeito, para novos desafios.

O mar é perigoso. Os professores também. Esses perigosos sabem que é preciso reagir. Mesmo no meio do caos, da calamidade pública, os professores são como o mar. Sempre e sobretudo fonte de vida, de beleza, de saber. Fonte de ressacas e de grandes navegações.

Não se calem mesmo, professores. Para esses meninos pobres vocês são a única grande esperança. Eles precisam de vocês para ocupar suas escolas, seus pensamentos. Povoar suas esperanças de alcançar uma vida melhor.

Lutar por um mundo mais justo, essa é a verdadeira olimpíada. Sobreviver ao triste Rio Olímpico, essa é a modalidade mais importante. O povo que faz o melhor possível, mesmo com o descaso com que são tratados, esse é o verdadeiro herói. Os verdadeiros atletas olímpicos são os que lutam, apesar de tudo e de todos, para botar comida na mesa.

O ouro é de vocês.
(Mônica Rauof El Bayed)


01) Podemos afirmar que já existe uma IRONIA a começar pelo título do texto? Explique:

02) Copie do texto duas passagens que remetam a um CONTRASTE, explicando-o: 

03) Você concorda com a comparação feita pela autora entre a escola pública e a ciclovia que caiu? Comente: 

04) De quem segundo a autora, é o OURO? Você concorda com ela? Comente: 

05) A que os professores são comparados, segundo a autora? Que fundamento há nisso? Explique: 

06) Que conselho a autora dá aos professores? E que conselho você daria a eles?

07) A autora julga ou meio que vitimiza os meninos assaltantes? Por quê? Comprove com uma ou mais passagens do texto: 

08) Que mensagem o texto lhe transmitiu? 

09) Sinceramente, você acha que realmente estamos preparados para receber as Olimpíadas? O que fazer agora? 

10) Crie um texto dissertativo-argumentativo sobre a questão das Olimpíadas e o caos instalado em nosso país, em especial no Rio de Janeiro: 

11) Relacione as charges abaixo, de alguma forma, ao texto lido: 









P.S.: Quer mais questões sobre esse mesmo texto?!? É só você visitar o link abaixo que encontrará muitas questões interessantes sobre ele, no blog da minha amiga Fabi Behling! Confira:

4 comentários:

  1. Que triste! Infelizmente isso não vai mudar nunca. Parabéns pela criatividade! Questões bem elaboradas!! Adorei!!

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    1. Obrigada, querida! Enfim um texto valorizando o professor, a nossa luta, o nosso único ouro olímpico: o do esforço! Beijos mil e volte sempre!

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  2. poderias disponibilizar gabarito?

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    1. Até poderia, se eu tivesse o hábito de fazê-lo, mas não tenho, visto que as questõrs são abertas e é o bom senso do professor com relação ao que é ou não cabível que deve prevalecer! Um abraço!

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