quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sem dúvida, a solução está no AFETO!

Tenho ficado bastante aflita vendo tantas demonstrações de insensibilidade, de intolerância, de violência, de falta de amor ao próximo, e vindas de toda a parte, gratuitamente. A vida não tem valido mais nada, meu Deus! Temos tantos avanços na tecnologia, mas no lado humano parece que estamos voltando para a Era das Cavernas, num assustador retrocesso. 

Não sei onde isso vai parar. E se desconfio, não aceito, não posso e não quero aceitar. É doloroso demais! É triste a gente tentar voltar atrás e ver onde foi que esse rolo compressor começou a passar e nem nos demos conta do perigo! 

Não sei quais são as soluções imediatas para isso, nem sei se, de fato, existem, mas sei que tudo está no AFETO! E é dele que não abro mão... Uso e abuso com meus amigos, com meus alunos, com meu filho, com minha mãe, com meus bichos... com todo mundo... o tempo todo... Pessoas cativadas, amadas, queridas, não têm coragem de fazer o mal! 

Então convido-os a refletir sobre esse texto que eu amo, do Drummond, e ele mostra o que somos em essência... e não adianta muito tentarmos mudar... mas podemos estar atentos para que o sofrimento do mundo não nos gaste taaaaaaanto! Fica o convite! :-)

Texto 01: Coração Segundo


DE ACRÍLICO, de fórmica, de isopor, meticulosamente combinados, fiz meu segundo coração, para enfrentar situações a que o primeiro, o de nascença, não teria condições de resistir. Tornei-me, assim, homem de dois corações. A operação sigilosa foi ignorada pelos repórteres. Eu mesmo fabriquei meu coração novo, nos fundos da casa onde moro. Nenhum vizinho desconfiou, mesmo porque sabem que costumo fechar-me em casa, semanas inteiras, modelando bonecos de barro ou de massa, que depois ofereço às crianças. Oferecia. Meus bonecos não têm arte, representam o que eu quero. Fiz um Einstein que acharam parecido com Lampião. Para mim, era Einstein. Os garotos riam, tentando adivinhar que tipos eu interpretara. Carlito! Não era. Às vezes, não sei por quê, admitia fosse Carlito. Nunca dei importância a leis de semelhança e verossimilhança, que sufocam toda espécie de criação. 

Mas, como disse, fiz meu coração sem ninguém saber. E à noite, em perfeita lucidez, abrindo o peito mediante processo que não vou contar, pois minha descrição talvez horrorizasse o leitor, e eu não pretendo horrorizar ninguém — abrindo o peito, instalei lá dentro esse coração especial, regulado para não sofrer. Ao mesmo tempo, desliguei o outro. Como? Também prefiro não explicar. Possuo extrema habilidade manual, aguçada à noite, e sei o que geralmente se sabe dos órgãos do corpo e suas funções e reações, depois que ficou na moda tratar dessas coisas em jornais e revistas. Além disso, minha capacidade de resistir à dor física sempre foi praticamente ilimitada. Desde criança. Mas as dores morais, as dores alheias, as dores do mundo, acima de tudo, estas sempre me vulneraram. Recompus a incisão, senti que tudo estava perfeito, e fui dormir. 

Na manhã seguinte, ao ler as notícias que falavam em fome no Paquistão, guerra civil na Irlanda, soldados que se drogam no Vietnã para esquecer o massacre, explosão experimental de bombas de hidrogênio, tensão permanente no Canal de Suez, golpes vitoriosos ou malogrados na América Latina, bem, não senti absolutamente nada. O coração funcionava a contento. Fui para o trabalho experimentando sensação inédita de leveza. No caminho, vi um corpo de homem e outro de mulher estraçalhados entre restos de um automóvel. Pela primeira vez pude contemplar um espetáculo desses sem me crispar e sem envenenar o meu dia. Fitei-o como a objetos de uma casa expostos na calçada, em hora de mudança. E passei um dia normal. Trabalho, refeições, sono, igualmente normais, coisa que não acontecia há anos.

Meu coração fora planejado para evitar padecimento moral, e desempenhava bem a função. Assisti impassível a cenas que antes me fariam explodir em lágrimas ou protestos. Feliciteime pela excelência. Mas aí começou a ocorrer um fenômeno desconcertante. Eu, que não sofria com as doenças que me assaltavam, passei a sentir reflexos de moléstias inexistentes. Simples corte no dedo, sem inflamação, afligia-me como chaga aberta. Dor de cabeça que passa com um comprimido ficava durante semanas. Meu corpo tornou-se frágil, exposto ao sofrimento. E eu não tinha nada. Consultei especialistas. Fiz checkup, não se descobriu qualquer lesão ou distúrbio funcional. Eram apenas imotivadas, gratuitas. Meu coração nº 2 passava pela radiografia sem ser percebido. Irredutível à dor moral, era invisível a aparelhos de precisão. Comecei a sofrer tanto com os meus males carnais que a vida se tornou insuportável. A dor aparecia especialmente em horas impróprias. Em reuniões sociais. Em concertos. No escritório, ao tratar de negócios. Então fazia caretas, emitia gemidos surdos, assumindo aspecto feroz. Assustavam-se, queriam chamar ambulância, eu recusava. Tinha medo de que descobrissem o coração fabricado. 

Outra coisa: as crianças começaram a achar estranhos meus bonecos, não queriam aceitá- los. Sempre gostei de crianças. E elas me repeliam. Esmerei-me na feitura de peças que pudessem cativá-las, mas em vão. 

Hoje vi um homem encostado a um oiti, diante do mar. Sua expressão de angústia dava ao rosto o aspecto de chão ressecado. Tive pena dele. Surpreso, ignorando tudo a seu respeito, mas participando de sua angústia e trazendo-a comigo para casa. 

Agora à noite, decidi-me. Voltei a abrir o peito e examinei o coração segundo. Com pequena fissura no isopor, já não era perfeito. Ao tocá-lo, as partes se descolaram. Inútil restaurá-lo. Joguei fora os restos, liguei o antigo e fechei o cavername. Talvez pela falta de uso, sinto que o coração velho está rateando. Que fazer? E vale a pena fazer? A manhã tarda a chegar, e não encontro resposta em mim. 

(Carlos Drummond de Andrade)

Texto 02:


Texto 03: 


4 comentários:

  1. UAU!
    Nooosssinhora!
    Que necessário, que demais que demais! To doida pra chegar em casa e imprimir e levar pra tooodas as turmas!

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    1. Fico feliz que tenha gostado! A gente precisa mesmo, com urgência, bater nesta tecla da afetividade!

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  2. Você é f@&$, Dequinha! Como admiro!
    Eu concordo que o afeto é a solução, a cada dia mais. E acho que lecionando essa verdade se joga contra a gente diariamente. 💕

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    1. Ai, amiga, você que é uma fofa, generosa, querida! <3
      Não podemos perder o foco! Nunca! Que a correria (ferrenha) não nos afaste do afeto... do nosso lado mais humano...
      Beijos! Amei vc aqui!

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