domingo, 17 de abril de 2016

Bobagens (Sírio Possenti)

Um programa como o de Jô Soares não é o melhor exemplo para ser estudado por quem deseja descobrir como funciona uma entrevista. Um dos lugares comuns sobre a questão diz que um bom entrevistador é o que faz o entrevistado falar até mesmo o que ele não desejaria. O programa do Jô não é o melhor exemplo pela simples razão de que o entrevistado dele é sempre uma escada: o que diz serve para uma tirada do entrevistador. Dependendo do tema e do entrevistado, a coisa funciona bem. Às vezes, no entanto, a entrevista desanda. O que se explica facilmente: existem temas em relação aos quais, mesmo lendo bastante, da cozinha ao teatro, Jô não tem a mínima habilitação.
Um dia desses os entrevistados eram Martinho da Vila e o Presidente de uma Associação de Magistrados. Mesmo cansado, pensei em assistir. O Martinho é um grande papo, e a questão do Judiciário está pegando fogo.

A conversa com Martinho ia bem, até que Jô perguntou sobre seu conhecimento de línguas africanas, já que de alguns discos participam músicos angolanos cantando músicas nativas. Martinho disse o óbvio: que, tendo estado na África várias vezes, mesmo em temporadas curtas, aprendeu um pouco. Não conhece as línguas, mas se vira (e acrescentou que o mesmo ocorre em relação ao francês, o que mostra que ele é normal). Mas Jô o interrompeu para comentar que se pode aprender as línguas africanas mesmo em pequenas temporadas, porque elas têm poucas palavras. E botou para funcionar suas leituras de almanaque. Informou que em suaíli as palavras querem dizer muitas coisas. E deu um exemplo, uma certa palavra que pode ser empregada em várias situações. Decidi dormir, perdi a entrevista com o magistrado. Achei que não suportaria uma lição de direito constitucional do mesmo nível.

Disse que Jô acionou suas leituras de almanaque, mas a coisa é mais grave do que isso: trata-se do grosseiro preconceito linguístico e cultural. Se a gente abre um dicionário – Jô aparentemente abre, tem até vários em formato eletrônico –, a coisa mais interessante que se pode descobrir é que todas as palavras têm muitos sentidos, que todas as línguas são como o suaíli ou o suaíli é como todas as línguas.

Pode-se fazer isso aleatoriamente. Cito um exemplo do português e um do inglês. Tome o verbo “ligar” e está lá: apertar, prender, unir, fazer aderir, estabelecer relações, unir por vínculos morais e afetivos, prestar atenção, acionar o motor, fazer girar o disco do telefone, unir em combinação química (ver o famoso Aurélio, que registra ainda outros sentidos). Vejam agora a palavra inglesa “pack”: para começar, pode ser verbo ou nome. Alguns sentidos: coleção de coisas; pacote contendo um certo número de coisas semelhantes; maneira pela qual alguma coisa é empacotada; grande quantidade; grupo de animais que vivem juntos; soma total de algo, como frutas ou vegetais, processadas ao mesmo tempo; comprimir na forma de massa compacta; ir embora rapidamente, etc. (MacMillan Contemporary Dictionary).

A experiência nossa de cada dia mostra que qualquer palavra tem muitos sentidos. Que esse não é um “problema” de línguas faladas por povos considerados inferiores.

Com suas intervenções no campo, Jô confirma uma tese corrente e, por azar, verdadeira: as línguas ainda são o espaço em que vigoram os mais grosseiros preconceitos.

(Sírio Possenti)

1. Qual é o assunto principal do texto?

2. Como o autor rebate a afirmação de Jô Soares sobre as línguas africanas?

3. Por que tal afirmação do apresentador é um grosseiro preconceito linguístico e cultural?

4. Por que o autor desistiu de ver a segunda entrevista naquela noite?

5. Que conclusão tira o autor do episódio? 

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