sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Provocando reflexões e discussões!

Levei o texto abaixo para trabalhar com meus alunos, de todas as minhas seis turmas, e as discussões foram muito interessantes, frutíferas, e me deixaram beeeeem animada, graças a Deus! Bom demais saber o que essa galera pensa, ainda mais quando se tem polêmica envolvida. 

Viramos todos umas velhinhas moralistas apontando o dedo por aí

Você não consegue dar dois passos na sua rede social favorita sem tropeçar nele. Às vezes, ele se esconde atrás de uma imagem qualquer, trancafiado num "ver mais" ou num "continuar lendo". Outras vezes age de forma escancarada. O moralismo do bem é o alicerce do homem moderno, estampado nos textões e nos memes que inundam a internet nossa de cada dia. 

Nesse feriado ele alcançou o Carnaval. Bastou um pai, Fernando, fantasiar-se de Aladdin e vestir seu filho, negro, de Abu, num bloco em Belo Horizonte, para agitar os mais histriônicos baluartes do moralismo do bem da grande rede brazuca. Virou febre: uma demonstração clara de racismo numa festa que é parte da cultura negra tupiniquim. Um pai, sem dizer uma única palavra enquanto celebrava a vida com seu filho, atestava a similaridade imbecil entre negros e macacos no imaginário justiceiro. Sem qualquer direito à defesa. 

Afinal de contas, qual foi o exato ponto da história em que abandonamos aquela noção de que a vida dos outros não nos pertence para nos transformarmos em velhinhas moralistas que passam o dia fofocando sobre a falibilidade de perfeitos estranhos? Quando foi que deixamos de viver as dores e as tragédias da nossa vida para virarmos fiscais dos costumes alheios, apontando o dedo pra gente que a gente nunca viu? Esse não era, afinal de contas, o grande problema por trás de tudo? 

Hoje somos todos justiceiros de alguma coisa. Há sempre uma minoria para salvar de algum perigo. Negros, mulheres, gordos, crianças, gays, ciclistas, índios. Há sempre alguém pra gente usar por aí pra alimentar o nosso próprio ego e escalar montanhas em direção ao nosso incandescente paraíso moral. Há, aos montes, arqui-inimigos pra odiar e combater. 

Com a gente? Não há nada de errado. Nunca. Cultivamos uma alimentação saudável, nos conectamos à mãe natureza, nos preocupamos com o futuro das nossas crianças, compartilhamos todas aquelas matérias engajadas do Catraca Livre, votamos em partidos de esquerda. Somos todos perfeitamente coloridos e bem resolvidos, como se fossemos estrelas de uma dessas propagandas de margarina ou parte do marketing de um banco que se esforça em parecer mais humano do que realmente é. Somos todos desencanados, virtuosos, conscientes, modernos, jovens. Feitos. Pra. Você. Dentro da gente há um rio de hashtags e slogans. Há mais amor por favor, há gentileza que gera gentileza, há o nome de uma tribo indefesa qualquer. Nosso coração é um imenso jogo da velha, cheio de filtros de Instagram e sacadas à lá Prefs. 

Dentro dele, monopolizamos toda sensibilidade do mundo. Longe da matéria que o forma não resta nada além da mais insipiente truculência. Para os justiceiros, é apenas dessa forma que essa bolota azul sobrevoando o espaço se torna um lugar previsivelmente fácil de lidar. Nela, no epicentro dos nossos tribunais morais, há os bons e os ruins. Há aqueles que se importam em criar um mundo melhor – seja lá o que isso signifique. E há o rancor da velha ordem, antiquada, negligente com os cuidados da natureza, mal resolvida com os gays e as mulheres, autoritária, pouco preocupada com as condições dos mais pobres, politicamente incorreta e grosseira. Se você não faz parte de um grupo está necessariamente inscrito no outro. 

Dessa forma, viramos todos caçadores de fascistas. Ninguém escapa do nosso combate. Gente que têm dinheiro, gente branca, gente que não vota nos nossos candidatos (deixando de praticar a verdadeira democracia), gente que preenche o estereótipo que a gente cria pra combater a estereotipização das minorias que problematizamos. Viramos todos umas velhinhas moralistas apontando o dedo por aí. Não sobra nada. Das mulheres que estrelam campanhas lascívias de marcas de cerveja, criando um padrão inalcançável de beleza e objetificando o corpo feminino, aos constantes discursos que silenciamos em desagravo, enquanto lutamos pela liberdade de expressão dos artistas e intelectuais politicamente alinhados com as nossas ideias. Somos todas idosas futriqueiras metendo o bedelho na vida alheia enquanto pedimos que o nosso espaço seja respeitado. O olho que tudo vê na inquisição da santa igreja do progressismo dos últimos dias, pedindo por privacidade. 

Foi um português quem escreveu num poema em linha reta o retrato desse tempo. E ele não era cadastrado em qualquer serviço de e-mail, não fazia a menor ideia do que era uma rede social e não tinha noção do poder que um compartilhamento poderia alcançar. O nome dele também era Fernando. 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo, 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, 
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado 
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida… 
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos, 
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Onde é que há, afinal?

(Rodrigo da Silva)
(http://spotniks.com/viramos-todos-umas-velhinhas-moralistas-apontando-o-dedo-por-ai/)

01) Você conhecia a notícia que gerou a escritura desse texto? Comente:

02) Observe a imagem em questão: a família parece feliz ou infeliz? Você vê algum indício de racismo presente nela? Justifique sua resposta:

03) A fim de criar um certo suspense, no texto aparecem uns pronomes (destacados) que antecipam o nome a quem eles se referem. Que nome seria esse? 

04) O que seria o "moralismo do bem"? Do que ele difere do simplesmente "moralismo"? 

05) Transcreva do texto um exemplo de antítese e de ironia, justificando:

06) O autor termina o texto com uma indagação. Com que finalidade? Como você responderia a ela?

07) A que recurso o autor recorreu para dar mais peso à defesa de suas ideias? Explique:

08) O que você achou do texto? Que mensagem ele lhe transmitiu?

09) O que significa algo "virar febre"? O que podemos citar como exemplos disso?

10) O texto menciona dois grupos, extremistas. Partindo desse pressuposto, de que grupo você faria parte? Justifique sua resposta:

11) Ao fazer uso da chamada "intertextualidade", trazendo para o seu texto um poema de Fernando Pessoa, qual o objetivo do autor? Trace um paralelo entre os dois textos e as duas épocas:

12) Crie UM parágrafo dissertativo-argumentativo explorando o assunto principal levantado por esse texto:


Aladdim e o tribunal da Internet

A essa altura deve ter pipocado na sua timeline a imagem abaixo, do pai que saiu fantasiado de Aladdin e vestiu seu filho, negro, de Abu, o macaquinho amigo do personagem.

Não quero discutir aqui se isso foi ou não racismo, mesmo porque cabe a quem se sente ofendido se manifestar a respeito. Como não sou negro, não sou a pessoa indicada para tocar qualquer apito.

O que quero falar aqui é sobre a rapidez com que, no mundo de hoje, a gente se considera no direito de sentenciar os outros. Desde que vi alguns comentários a respeito do episódio, comecei a pensar sobre o temido tribunal da Internet.

Como a gente evita que um eventual erro jogue fora todas as coisas boas que a gente fez na vida? No caso do Aladdin do Carnaval, por exemplo. Ainda que realmente seja de gosto muito duvidoso vestir seu filho negro de macaco, para muita gente que se manifestou pouco importa todo o histórico da pessoa. Uma vida é resumida a uma foto num bloco de Carnaval. Intencionalmente não citei o nome do sujeito, para não ser mais um a deixar registrado nas buscas de Google o episódio que merece ser esquecido.

Muita gente não se perguntou se é um pai amoroso ou em que condições de vida estaria essa criança se não tivesse recebido dele um lar. Não. Tudo que pesa é que ele escolheu uma fantasia infeliz. Isso anula qualquer boa intenção anterior ou posterior. De repente, da sala de nossas casas, nos comportamos como se fôssemos todos perfeitos e nos sentimos no direito de atirar pedra em gente que nem conhecemos. Nem o fato de ele ter pedido desculpas fez qualquer diferença. Meu Deus, tinha gente defendendo que o cara perdesse a guarda do filho. É melhor ir pro orfanato, então? Quero saber se quem escreveu isso já esteve em algum orfanato na vida.

É como se, ao apontar o dedo para o erro dos outros, a gente aumentasse nosso valor. Somos impiedosos, duros, radicais. E condenar o próximo faz a gente parecer mais legal, mais descolado, consciente da luta das minorias. Não me entenda mal, apoio plenamente a batalha de quem é oprimido, e vejo com entusiasmo todos os avanços sociais que têm sido conquistados. Mas como é que a gente quer mais tolerância no mundo se somos os primeiros a agir de maneira intolerante?

Não acho que o caminho para uma sociedade mais igual passe por julgar e condenar as pessoas em rede social. Até porque, amanhã, o alvo pode ser qualquer um de nós.

(Álvaro Leme)
(http://entretenimento.r7.com/blogs/alvaro-leme/aladdin-e-o-tribunal-da-internet-20160210/)

13) Qual o objetivo do autor a escrever esse texto? Do que ele, por exemplo, difere do primeiro texto? Comente:

14) Você acha que, pelo fato de o autor não ser negro, não lhe dá o direito de opinar sobre o ocorrido? Por quê?

15) Você acha que têm ocorrido na Internet muitos julgamentos? E fora dela, é diferente? O que isso revela? Qual seria a solução?

16) Para refletir: você acha que se o pai, Fernando, fosse racista ele teria adotado um menino negro? Justifique sua resposta:

17) De que forma os dois textos dialogam? De qual dos dois você gostou mais? Por quê?

18) Associe a charge abaixo, de alguma forma, ao tema abordado:



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui o seu comentário sobre o blog ou sobre esta postagem em especial!!! Vou amar saber o que você pensa!! Muito obrigada pela visita!!! Volte sempre!!!