quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O império da vaidade


Você sabe por que a televisão, a publicidade, o cinema e os jornais defendem os músculos torneados, as vitaminas milagrosas, as modelos longilíneas e as academias de ginástica? Porque tudo isso dá dinheiro. Sabe por que ninguém fala de afeto e do respeito entre duas pessoas comuns, mesmo que meio gordas, um pouco feias, que fazem piquenique na praia? Porque isso não dá dinheiro para os negociantes, mas dá prazer para os participantes.

O prazer é físico, independentemente do físico que se tenha; namorar, tomat Milk shake, sentir o sol na pele, carregar o filho no colo, andar descalço, ficar em casa sem fazer nada. Os melhores prazeres são de graça – a conversa com o amigo, o cheiro de jasmim, a rua vazia de madrugada -, e a humanidade sempre gostou de conversar com eles. Comer uma feijoada com os amigos, tomar uma caipirinha no sábado também é uma grande pedida. Ter um momento de prazer é compensar muitos momentos de desprazer. Relaxar, descansar, despreocupar-se, desligar-se da competição, da áspera luta pela vida – isso é prazer.

Mas vivemos num mundo onde relaxar e desligar-se se tornou um problema. O prazer gratuito, espontâneo, está cada vez mais difícil. O que importa, o que vale, é o prazer que se compra e se exibe, o que não deixa de ser um aspecto de competição. Estamos submetidos a uma cultura atroz, que quer fazer-nos infelizes, ansiosos, neuróticos. As filhas precisam ser Xuxas, as namoradas precisam ser modelos que desfilam em Paris, os homens não podem assumir sua idade.

Não vivemos a ditadura do corpo, mas seu contrário: um massacre da indústria e do comércio. Querem que sintamos culpa quando nossa silhueta fica um pouco mais gorda, não porque querem que sejamos mais saudáveis – mas porque, se não ficarmos angustiados, não faremos mais regimes, não compraremos mais produtos dietéticos, nem produtos de beleza, nem roupas e mais roupas. Precisam da nossa impotência, da nossa insegurança, da nossa angústia.

O único valor coerente que essa cultura apresenta é o narcisismo. Vivemos voltados para dentro, à procura de mundos interiores (ou mesmo vidas anteriores). O esoterismo não acaba nunca — só muda de papa a cada Bienal do Livro —, assim como os cursos de autoconhecimento, auto-realização e, especialmente, autopromoção. O narcisismo explica nossa ânsia pela fama e pela posição social. É hipocrisia dizer que entramos numa academia de ginástica porque estamos preocupados com a saúde. Se fosse assim, já teríamos arrumado uma solução para questões mais graves, como a poluição que arrebenta os pulmões, o barulho das grandes cidades, a falta de saneamento.

Estamos preocupados em marcar a diferença, em afirmar uma hierarquia social, em ser distintos da massa. O cidadão que passa o dia à frente do espelho, medindo o bíceps e comparando o tórax com o do vizinho do lado, é uma pessoa movida por uma necessidade desesperada — precisa ser admirado para conseguir gostar de si próprio. A mulher que fez da luta contra os cabelos brancos e as rugas seu maior projeto de vida tornou-se a vítima preferencial de um massacre perpetrado pela indústria de cosméticos. Como foi demonstrado pela feminista americana Naomi Wolf, o segredo da indústria da boa forma é que as pessoas nunca ficam em boa forma: os métodos de rejuvenescimento não impedem o envelhecimento, 90% das pessoas que fazem regime voltam a engordar, e assim por diante. O que se vende não é um sonho, mas um fracasso, uma angústia, uma derrota.

Estamos atrás de uma beleza frenética, de um padrão externo, fabricado, que não é neutro nem inocente. Ao longo dos séculos, a beleza sempre esteve associada ao ócio. As mulheres do Renascimento tinham aquelas formas porque isso mostrava que elas não trabalhavam. As belas personagens femininas do romantismo brasileiro sempre tinham a pele branca, alabastrina — qualquer tom mais moreno, como se sabe, já significava escravidão e trabalho. Beleza é luta de classes. Estamos na fase da beleza ostentatória, que faz questão de mostrar o dinheiro, o tempo livre para passar tardes em academias e mostra, afinal, quem nós somos: bonitos, ricos e dignos de ser admirados.
(Paulo Moreira Leite - Revista "Veja")


01) O autor pretende influenciar os leitores para que eles:

(A) evitem todos os prazeres cuja obtenção depende de dinheiro
(B) excluam de sua vida todas as atividades incentivadas pela mídia.
(C) fiquem mais em casa e voltem a fazer os programas de antigamente.
(D) sejam mais críticos em relação ao incentivo do consumo pela mídia.

02) A mídia não dá destaque às atitudes de respeito entre duas pessoas comuns porque:

(A) São casos sem muita importância, afinal isso acontece sempre.
(B) É raro encontrar pessoas que se respeitem mutuamente, por isso a mídia não dá a isso destaque.
(C) Isso não gera grandes somas em dinheiro.
(D) Porque pessoas comuns são gordas e meio feias.

03) O autor diz: “...e a humanidade sempre gostou de conviver com eles”. Queremos saber: eles quem?

(A) Os comerciantes e a mídia em geral.
(B) Os melhores prazeres.
(C) Com os amigos verdadeiros.
(D) Tomar uma caipirinha no sábado com os amigos.

04) Quando o autor fala em tomar uma caipirinha no sábado, ele deixa claro que ele é, isso é:

(A) Um alcoólatra assumido.
(B) Uma forma de prazer que ele recomenda.
(C) Um alcoólatra moderado.
(D) Uma forma que as pessoas encontram para enganar os problemas.

05) Em certa passagem o autor comenta: “Mas vivemos num mundo onde relaxar e desligar-se se tornou um problema. O prazer gratuito, espontâneo, está cada vez mais difícil”. O prazer gratuito está cada vez mais difícil porque:

(A) Ninguém tem mais dinheiro para bancar passeios, diversões.
(B) Porque o prazer buscado hoje é o prazer motivado pela competição.
(C) Porque não existe mais o prazer gratuito e espontâneo.
(D) Porque os veículos de comunicação estão facilitando o consumo pago.

06) O autor faz uma contraposição entre dois tipos de prazer: o prazer gratuito e o prazer comprado.

a) Segundo o ponto de vista dele, quais dos itens seguintes definem o prazer gratuito?

(A) O prazer é físico, relaciona-se com o corpo.
(B) O prazer está em ter um corpo bonito.
(C) O prazer é feito de coisas simples.
(D) O prazer consiste em descansar, desligar-se e relaxar.

b) De acordo com esse conceito, uma pessoa pobre pode ter prazer? Por quê?

c) Qual dos dois tipos de prazer é mais valorizado socialmente? E por que isso ocorre, segundo o texto?

07) Segundo o texto, o prazer comprado não é espontâneo, mas induzido.

a) Qual é o papel dos meios de comunicação na promoção dos “prazeres comprados”?

b) Por que, na opinião do autor, o prazer comprado está ligado ao narcisismo e à competição?

c) Quais são os três exemplos citados pelo texto como “prazeres narcisistas”?

08) O autor afirma que vivemos numa cultura atroz, que nos impõe padrões de beleza. Contudo, afirma que não vivemos a “ditadura do corpo”, mas o “massacre da indústria e do comércio”. De acordo com o texto:

a) Quando são transmitidos padrões de beleza física, existe uma preocupação com a saúde das pessoas? Por quê?

b) Você vê diferença entre ser vítima da “ditadura do corpo” e vítima do “massacre da indústria e do
comércio”?

09) Que mensagem o texto lhe transmitiu? Comente: 

6 comentários:

  1. Dequinha, muita gente deveria ler esse texto. Quem sabe acordaria (nem que fosse por alguns segundos)Amei!

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    1. Verdade... sempre muito atual... sempre tentando abrir as mentes... cortar os excessos... tão prejudiciais eles são!

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  2. Legal o texto, mas manda o gabarito, por favor.

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    1. Não tenho o hábito de criar gabarito... nem é esta a proposta do blog. Espero que entenda. Um abraço!

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  3. Bom dia.
    Gostei muito do texto e vou trabalhar em sala de aula.
    Você poderia mandar o gabarito?
    cleofaustino63@yahoo.com.br
    Obrigada.

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    1. Boa tarde! Obrigada pelo carinho e pela visita!
      Infelizmente não tenho o hábito de criar gabarito, até porque tal blog é voltado para professor de Português, que sabe bem as respostas! Um abraço!

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