sexta-feira, 17 de junho de 2011

Texto para análise

O gari

Miguel, um apanhador de lixo da prefeitura, escutou pela televisão que, para a grande festa que iriam dar em palácio, estariam todos convidados: do gari ao presidente da república. Disse então à mulher que lhe preparasse a farda de gari, um macacão amarelo-cenoura, pois ele também iria a essa festa.

No dia, no entanto, foi barrado, porque era obrigatório estar de terno. Miguel, arrasado, ficou ali sem acreditar no que diziam. Foi então que observou, no estacionamento em frente, vários carros oficiais com os seus motoristas, alguns deles cochilando, à espera dos chefes que já se divertiam na festa.

Miguel aproximou-se e, encontrando entre eles um velho amigo, contou-lhe o seu infortúnio, dizendo-se convidado, mas barrado pela falta de um terno. Foi aí que lhes veio a ideia.

Daí a instantes, lá estava Miguel na festa metido no terno e nos sapatos, folgados, do motorista. Mas, para emprestá-los, o amigo exigiu uma condição: que os devolvesse antes da meia-noite, quando o chefe e a esposa voltariam  para o carro.

Miguel ficou tão apalermado na suntuosa festa que esqueceu a hora e só quando soaram as primeiras batidas da meia-noite foi que lembrou e correu precipitado escada abaixo. Na pressa, um pé do sapato frouxo escapuliu e ficou no degrau.

Logo descia pela mesma escada o casal que o motorista esperava. A mulher, vendo aquele sapato, estranhou-o ali.

Na rua, junto à porta aberta do carro, já metido no terno, mas disfarçando o pé descalço, o  motorista aguardava os patrões, preocupado.

Adiante, no seu macacão amarelo-cenoura, atrás de uma árvore, Miguel espreitava o casal, esperando que fosse embora de vez a fim de resgatar o pé do sapato, que acabou esquecendo, deslumbrado com a visão daquela bela mulher.

Ela vinha radiosa, com um vestido branco transparente, intrigada com o sapato abandonado na escada.

Na rua, perguntou a motorista de quem era aquilo e como fora parar ali. O motorista, sacudindo os ombros, respondeu que não sabia de nada.

O gari, escondido, vendo-a tão bonita, foi tomado de louca paixão por ela.

No dia seguinte, além de comprar em prestações um par de sapatos novos para o amigo, não tirava a imagem da mulher da cabeça. Dizem que até hoje, sem esquecê-la, recolhe o lixo das casas e pergunta por arte de quem teve a infeliz ideia de ir àquela festa.
(Arlete Nogueira da Cruz)

01) Por que escolheram a profissão de gari e não uma outra?

02) Copie do texto um exemplo de aposto, explicando seu raciocínio:

03) Existe algum tipo de preconceito no primeiro parágrafo? Qual? Por quê?

04) Por que Miguel foi barrado no baile? Por que ele achou que teria de ir de uniforme?

05) Retire do texto um adjetivo composto:

06) Que condição o motorista impôs a Miguel?

07) Que ideia Miguel e o motorista tiveram? Ela funcionou? Explique:

08) Por que Miguel acabou se esquecendo de ir buscar o pé perdido do sapato?

09) Por que o gari se apaixonou perdidamente pela patroa do motorista? Você acha que isso é comum de acontecer?

10) O que o gari lucrou com a tal festa? Comente:

11) O que a historia de "O gari" tem a ver com a historia de Cinderela? E o que ela tem de diferente?

12) O motorista pode ser comparado a quem na historia com a qual esta dialoga? Que pistas evidenciam isso? Copie:

13) Que semelhanças e que diferenças o gari tem com a Cinderela?

14) Que mensagem podemos extrair do texto?

2 comentários:

  1. A história da Cinderela na versão masculina!! Interessante!! Nunca havia pensado nessa possibilidade.
    Até que ponto o ser humano se submete para conseguir realizar um sonho, virando a sua vida pelo lado avesso.

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  2. MUito interessante este texto porque ele casa com a história da Cinderela. É um texto novo para mim. O sapatinho de cristal aqui virou um sapato masculino. Gostei!

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