sexta-feira, 10 de junho de 2011

"A morte da tartaruga" (Millôr Fernandes)

A morte da tartaruga
       


O menininho foi ao quintal e voltou chorando: a tartaruga tinha morrido. A mãe foi ao quintal com ele, mexeu na tartaruga com um pau (tinha nojo daquele bicho) e constatou que a tartaruga tinha morrido mesmo.  Diante da confirmação da mãe, o garoto pôs-se a chorar ainda com mais força. A mãe a princípio ficou penalizada, mas logo começou a ficar aborrecida com o choro do menino. “Cuidado, senão você acorda seu pai.” Mas o menino não se conformava. Pegou a tartaruga no colo e pôs-se a acariciar-lhe o casco duro. A mãe disse que comprava outra, mas ele respondeu que não queria, queria aquela, viva! A mãe lhe prometeu um carrinho, um velocípede, lhe prometeu, por fim, uma surra, mas o pobre menino parecia estar mesmo profundamente abalado com a morte do seu animalzinho de estimação.

Afinal, com tanto choro, o pai acordou lá dentro e veio, estremunhado, ver de que se tratava. O menino mostrou-lhe a tartaruga morta. A mãe disse: “Está aí assim há duas horas, chorando que nem maluco. Não sei mais o que faço. Já lhe prometi tudo, mas ele continua berrando desse jeito”.  O pai examinou a situação e propôs: “Olha, Henriquinho, se a tartaruga está morta, não adianta mesmo você chorar. Deixa ela aí e venha cá com o papai”.  O garoto depôs cuidadosamente a tartaruga junto ao tanque e seguiu o pai pela mão. O pai sentou-se na poltrona, botou o garotinho no colo e disse: “Eu sei que você sente muito a morte da tartaruguinha. Eu também gostava bastante dela. Porém nós vamos fazer para ela um grande funeral” (empregou a palavra difícil de propósito). O menininho parou imediatamente de chorar e perguntou: “Que é um funeral?” O pai explicou que era um enterro: “Olha, nós vamos à rua, compramos uma caixa bem bonita, bastante velas, bombons e doces, e voltamos para casa. Depois, botamos a tartaruga na caixa em cima da mesa da cozinha, rodeamos de velinhas de aniversário. Aí convidamos os meninos da vizinhança, acendemos as velinhas, cantamos o “Happy-Birth-Day-To-You” pra tartaruguinha morta e você assopra as velas. Depois pegamos a caixa, abrimos um buraco no fundo do quintal, enterramos a tartaruguinha e botamos uma pedra em cima com o nome dela e o dia em que ela morreu... Isso é que é um funeral! Vamos fazer isso?” O garotinho estava com outra cara: “Vamos, papai, vamos! A tartaruguinha vai ficar contente lá no céu, não vai? Olha, eu vou apanhar ela.” Saiu correndo. Enquanto o pai se vestia, ouviu um grito no quintal: “Papai, papai, vem cá, ela está viva!” O pai correu para o quintal e constatou que era verdade, a tartaruga estava andando de novo, normalmente, e o pai disse:  “Que bom, heim? Ela está viva! Não vamos ter que fazer o funeral.”  “Vamos sim, papai” – disse o menino ansioso pegando uma pedra bem grande – “Eu mato ela”.

MORAL:  O importante não é a morte, e sim o que ela nos tira.
(Millôr Fernandes)


01) Podemos afirmar que o texto acima é uma fábula? No que se assemelha à fábula tradicional? No que difere?

02) O narrador participa da historia como personagem ou apenas conta o que aconteceu? Justifique com uma passagem do texto:

03) O narrador emprega vários diminutivos: menininho, animalzinho, tartaruguinha,  garotinho, Henriquinho... Esses diminutivos indicam o tamanho físico dos seres ou a afetividade com que são vistos na historia? Por quê?

04) Como os seres citados, afinal, são vistos?

05) Os personagens dialogam no texto. Que características da linguagem oral você percebe nesse diálogo? O que existe de diferente em sua forma de ser marcado no texto?

06) Explique a moral da historia, concordando ou não com ela:

07) Há um trecho em que se lê que a mãe promete ao menino brinquedos e, em seguida, uma surra! Essa sequência indica que sentimento da mãe em relação ao menino?

08) Por que o pai fez questão de empregar uma palavra difícil de propósito? Ele cumpriu com o seu objetivo?

09) Que palavra fácil ele poderia ter usado no lugar de funeral? Ela teria o mesmo objetivo? Por quê?

10) Ao explicar ao filho como seria o funeral da tartaruga, o pai usa linguagem coloquial, com marcas de oralidade. Quais delas você conhece?

11) O funeral que o pai pretendia organizar era parecido com que tipo de evento? Por que o pai decidiu assim?

12) O narrador conta que a mãe mexeu na tartaruga e verificou que ela estava morta. No entanto, essa informação é falsa. Como você explica esse fato?

13) Como você entendeu a moral da história? O que você entendeu com relação ao texto de um modo geral?

8 comentários:

  1. Voltei no tempo agora! Lembrei deste texto da minha infância! É um dos textos mais marcantes que li no livro didático de Português (não sei lá que série foi). Eu gostei muito deste texto e fazia tempo que não o lia. Adorei as questões!

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    1. Eu conheço também este texto há uns duzentos anos, como aluna e como professora adoro apresentá-lo aos meus alunos, independente da faixa etária. Todos eles curtem! Que bom que gostou das questões referentes a ele, Clecinha! Use à vontade! :-)

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  2. Nusssss, também tenho ótimas memórias dessa história!!! Mas a melhor foi uma esquete que montamos num colégio particular, a tartaruga foi um capacete do exército amarrado com um barbantinho!! O aluno que fez o garotinho foi de pijama de bolinhas, uma graça!!!
    Muito boas as questões mesmo!!!

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    1. Que vontade que senti agora de ter visto a esquete em sua escola, Elsinha!!! Acho que preciso investir mais neste lado... artístico... da coisa!!! Vou tentar me lembrar disso!!! Me aguarde!!! Beijos e que bom que gostou!!!

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  3. Não conhecia o texto, mas gostei. Torci pela tartaruga.. ai ai, pedrada dói!!

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    1. Jura que ainda não conhecia essa história, Zizi?!? Ela me acompanha há anos... de tanto que adoro!!! E quando a gente pensa que o final da história é descobrir que a tartaruga está viva e que o menino ficaria feliz com isso, ele quer é a bichinha morta só pra conhecer o funeral! Humor negro, né? Coitadinha da bicha... he he he

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  4. Andreia, procurando figura para colocar o texto "A morte da tartaruga" no meu blog achei você. Fazemos o mesmo curso Mídias na educação. Você já havia mencionado o blog, mas só hoje achei e por acaso. Estou seguindo, tá? Beijocas

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    1. Que tanta coincidência... a começar pelo nosso nome... toda Andreia é gente boa... ainda mais quando é Andreia com I... (risos) e depois pelo curso, pelo gosto por blog, por curtir esse texto do Millôr...
      Pode seguir à vontade! Adoro! Beijos!

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